Onde se pesquisa economia no Brasil: o mapa das escolas
As escolas de pensamento têm endereço: o centro onde um economista se forma molda as perguntas que ele fará pela vida. Este é o mapa dos polos brasileiros, do eixo ortodoxo ao heterodoxo, com as tradições de cada casa.
Quando dois economistas dão respostas opostas à mesma pergunta no jornal, a divergência raramente nasceu ali: nasceu na pós-graduação, anos antes, quando cada um aprendeu o que conta como boa pergunta, boa evidência e boa política. É a lição do nosso pilar de escolas do pensamento aplicada à geografia: as correntes têm endereço, e o mapa institucional brasileiro é incomumente nítido, com casas inteiras associadas a tradições específicas há décadas.
Duas notas de método antes do mapa. Primeira: as associações abaixo descrevem tradições históricas e ênfases documentadas, não uniformidade: todo centro tem diversidade interna, e os melhores orgulham-se dela. Segunda: o sistema é integrado pela ANPEC (a associação nacional dos centros de pós-graduação em economia, que organiza o exame unificado de ingresso), de modo que as casas dialogam e disputam, e os alunos circulam entre elas, como os percursos do nosso pilar de Pensadores mostram.
O eixo ortodoxo: a fronteira mainstream
O polo associado à tradição neoclássica e novo-keynesiana, com formação quantitativa pesada e forte presença em bancos centrais, organismos internacionais e mercado financeiro:
FGV EPGE (Rio de Janeiro): a escola de pós-graduação em economia da FGV carioca, tradição rigorosa em teoria e métodos quantitativos, das mais bem ranqueadas do país em pesquisa mainstream.
USP (FEA/IPE): o maior departamento do país em escala, com espectro amplo e centro de gravidade ortodoxo na pós: econometria, micro aplicada e a tradição de estudos do trabalho e da educação. Foi a casa de Delfim Netto e é o berço de boa parte da burocracia econômica federal.
Insper (São Paulo): o polo privado paulista de economia aplicada e quantitativa, com ponte forte para o mercado e a agenda de avaliação de políticas públicas.
O polo associado às tradições keynesiana, estruturalista, institucionalista e marxista, com a economia política e a história no centro do método:
Unicamp (Instituto de Economia): a casa-mãe da heterodoxia brasileira, construída pela geração de Maria da Conceição Tavares, Luiz Gonzaga Belluzzo e João Manuel Cardoso de Mello: desenvolvimentismo, moeda e finanças em chave keynesiana-estruturalista, e a leitura do capitalismo brasileiro como formação histórica. O termo da Conceição conta a genealogia.
UFRJ (Instituto de Economia): a outra capital heterodoxa, herdeira do grupo que Conceição também formou no Rio: economia industrial e da inovação (uma das maiores concentrações neo-schumpeterianas do país, na linhagem de Nelson e Winter e da Sussex que nosso pilar mapeia), macroeconomia keynesiana e economia política.
UFRGS (PPGE): o polo gaúcho de espectro amplo com tradição forte em desenvolvimento, história econômica e o institucionalismo brasileiro (a linha de Octavio Conceição, coautor do livro do nosso termo Adriano José Pereira), além de filosofia e metodologia da economia.
UFSC (PPGEco): o programa catarinense, com presença documentada da economia política e da teoria da dependência: é a casa de Nildo Ouriques e do IELA, o polo do pensamento latino-americano crítico.
FGV EESP/EAESP (São Paulo): o caso híbrido que prova que o mapa não é binário: a escola de economia paulista da FGV é majoritariamente mainstream, e convive com a cátedra de Bresser-Pereira na mesma fundação, de onde o novo desenvolvimentismo é produzido e publicado há décadas.
Os polos com identidade própria: o exemplo do corredor UFSM-UFPR
Fora das capitais do debate, o sistema federal construiu polos com identidades de pesquisa específicas, e o melhor exemplo documentado neste portal é o corredor que liga Santa Maria a Curitiba:
UFSM (PPGE&D): o programa de Economia e Desenvolvimento de Santa Maria, com a linha heterodoxa documentada em instituições, inovação e desenvolvimento (Adriano José Pereira) e microeconomia heterodoxa e economia da tecnologia (Orlando Martinelli).
O corredor existe nas pessoas: a leva 15 do nosso pilar de Pensadores documenta as trajetórias formadas em Santa Maria que hoje pesquisam e coordenam em Curitiba, e a página do editor deste portal registra o mesmo percurso. Polos assim são onde o pluralismo se reproduz fora do eixo Rio-São Paulo: cátedra a cátedra, orientação a orientação.
Perguntas frequentes
A divisão ortodoxo x heterodoxo não é simplista?
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É um primeiro corte, e o artigo o trata assim: todo centro tem diversidade interna, há casas híbridas (a FGV paulista abriga o novo desenvolvimentismo de Bresser) e o sistema circula via ANPEC. O eixo descreve tradições históricas documentadas, não muros: serve para situar de onde fala cada voz do debate.
Onde estudar economia define o que se pensa?
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Molda as perguntas e o método, não as conclusões: a formação decide o que se aprende a considerar evidência e problema legítimo, como o nosso termo de metodologia discute. Os melhores economistas de cada casa conhecem as caixas de ferramentas rivais, e o protocolo pluralista deste portal existe para isso.
Por que o mapa não cobre todos os centros?
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Pelo critério da casa: entram os polos cujas tradições e endereços puderam ser verificados, com links conferidos na publicação. O sistema ANPEC tem dezenas de programas, e o mapa cresce conforme a verificação avança, indicações são bem-vindas pelos canais do portal.
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