No dia a dia
O que é, em palavras simples
O estruturalismo é a mais influente contribuição latino-americana ao pensamento econômico. Nasceu na CEPAL, a comissão da ONU para a América Latina, nos anos 1950, com Raúl Prebisch e, no Brasil, Celso Furtado. A pergunta que o move é incômoda: por que países como o Brasil não alcançam os ricos apenas com o passar do tempo? A resposta estruturalista: porque a economia mundial se organiza entre um centro industrial e uma periferia exportadora de matérias-primas, e essa divisão tende a se reproduzir.
No seu bolso
Especializar em commodities: bom ou ruim?
Vantagem comparativa
- ›Cada país no que faz melhor
- ›Troca beneficia os dois lados
Estruturalismo
- ›Especializar em commodities aprisiona
- ›Periferia perde nos termos de troca
Indo mais fundo
Como funciona
Centro e periferia
O diagnóstico de Prebisch foi que os termos de troca tendem a piorar para quem exporta commodities e importa manufaturas: com o tempo, é preciso vender cada vez mais sacas de café para comprar a mesma máquina. A periferia ficaria, assim, em desvantagem estrutural no comércio mundial.
Subdesenvolvimento não é atraso
Celso Furtado deu o passo decisivo: o subdesenvolvimento não é uma etapa anterior que todo país atravessa, mas uma condição própria, criada pela forma como o capitalismo do centro se expandiu sobre a periferia. Daí a agenda estruturalista: industrializar de forma planejada, com participação do Estado, para romper a dependência (a substituição de importações).
Visão técnica
A leitura da escola Estruturalista
A formulação mais influente do estruturalismo brasileiro está em Celso Furtado. Em Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (1961), Furtado sustentou que o subdesenvolvimento não é uma etapa pela qual todas as economias necessariamente passariam no caminho do progresso, mas um processo histórico próprio, resultante do modo como o capitalismo industrial do centro se expandiu sobre as economias agrárias da periferia.
Dessa tese nasceu uma agenda concreta: industrialização planejada, papel ativo do Estado, substituição de importações e uma crítica direta à ideia de vantagem comparativa de David Ricardo, que, na visão estruturalista, aprisionaria a periferia no papel de eterna exportadora de commodities. O estruturalismo orientou políticas de desenvolvimento na América Latina por décadas e dialoga de perto com o keynesianismo, ao defender que o mercado, sozinho, não corrige desigualdades estruturais entre nações.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Misturar com o estruturalismo das ciências humanas
Reduzir o estruturalismo a protecionismo
Conceito oposto
Conceitos conectados
Veja também
Conceitos conectados
Protecionismo
A política de proteger a produção nacional da concorrência estrangeira, com tarifas e barreiras: o eterno rival do livre comércio.
Desigualdade
A distribuição desigual de renda ou riqueza numa sociedade, medida por índices como o de Gini: um número entre a igualdade total e a concentração absoluta.
Celso Furtado
O paraibano (1920-2004) que explicou o Brasil pela economia: o subdesenvolvimento não é atraso na fila, é uma formação histórica própria. Fundador da SUDENE, expoente da CEPAL.
Raúl Prebisch
O argentino (1901-1986) que fundou o estruturalismo latino-americano: o mundo dividido em centro e periferia, e a tese de que exportar matéria-prima empobrece relativamente.
David Ricardo
O inglês (1772-1823) que deu à economia seu primeiro teorema: a vantagem comparativa. Corretor milionário virado teórico, rigoroso até contra as próprias teses.
Pedro Cezar Dutra Fonseca
O professor titular da UFRGS e referência em desenvolvimentismo brasileiro: a economia do Brasil e as interpretações do país, na tradição estruturalista da CEPAL.
Ronaldo Herrlein Júnior
O professor da UFRGS que pesquisa economia política, Estado e desenvolvimento: o papel do Estado na trajetória econômica, lido pela história e pela tradição estruturalista.
Marcelo Arend
O professor da UFSC que cruza estruturalismo latino-americano e teoria neoschumpeteriana para investigar mudança estrutural, desindustrialização e desenvolvimento.
Lauro Francisco Mattei
O professor titular da UFSC que estuda o desenvolvimento por dentro do território: economia agrária, desenvolvimento regional e rural e políticas de erradicação da pobreza.
Marcelo Luiz Curado
O professor da UFPR que pesquisa desenvolvimentismo brasileiro e latino-americano, macroeconomia e história do pensamento econômico brasileiro: a tradição estruturalista do desenvolvimento em produção nacional.
Ricardo Dathein
O professor do PPGE da UFRGS que pesquisa economia do desenvolvimento e desenvolvimentismo: a tradição estruturalista e da inovação aplicada ao desenvolvimento brasileiro, organizada em obra de referência.
Daniel Arruda Coronel
O professor da UFSM que pesquisa desindustrialização, política industrial e comércio internacional: o desenvolvimento brasileiro medido com modelos quantitativos, em produção aplicada.
Hugo Carcanholo Iasco Pereira
O professor da UFPR que pesquisa câmbio real, crescimento e desindustrialização na chave novo-desenvolvimentista: o desenvolvimento brasileiro pela ótica da taxa de câmbio competitiva.
Andrés Ernesto Ferrari Haines
O professor da UFRGS que pesquisa desenvolvimento, a economia argentina e a geopolítica internacional: história do pensamento e relações econômicas globais, em produção documentada.
Samuel Costa Peres
O professor da UFRGS que pesquisa crescimento, integração financeira internacional e (sub)desenvolvimento: Furtado e a dependência relidos com dados, em produção documentada.
Eva Yamila Amanda da Silva Catela
A professora da UFSC que pesquisa complexidade econômica, inovação e crescimento na tradição estruturalista neoschumpeteriana: o que um país produz define o quanto ele cresce.
Perguntas frequentes
O que é a relação centro-periferia? +
É a tese estruturalista de que a economia mundial se divide entre um centro industrial e uma periferia exportadora de matérias-primas. Para Prebisch, os termos de troca tendem a piorar para a periferia, que precisa exportar cada vez mais para importar o mesmo.
Quem foi Celso Furtado? +
Economista brasileiro, uma das maiores figuras do estruturalismo latino-americano. Sustentou que o subdesenvolvimento não é uma etapa, mas uma condição estrutural, e defendeu a industrialização planejada como caminho para superá-la.
Fontes e referências
- Acadêmica Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (1959)
- Acadêmica O Desenvolvimento Econômico da América Latina e Alguns de Seus Principais Problemas - Raúl Prebisch (1949)
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