No dia a dia
O que é, em palavras simples
Poucos economistas brasileiros juntaram tanto gabinete e cátedra: Luiz Carlos Bresser-Pereira foi ministro da Fazenda (1987, autor do plano que leva seu nome), da Administração (a reforma gerencial do Estado de 1995) e da Ciência e Tecnologia, sempre voltando à FGV onde ensina há mais de meio século. Sua obra madura renovou o estruturalismo de Furtado para a era da globalização: o subdesenvolvimento de hoje não vem de falta de poupança, vem de câmbio cronicamente valorizado que sufoca a indústria, e a doença holandesa (termo que cita sua definição) é o mecanismo central.
No seu bolso
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01
Gabinetes (1987-99)
Fazenda, reforma do Estado, C&T
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02
Diagnóstico
Câmbio sobreapreciado sufoca a indústria
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03
Doença holandesa
As duas taxas de equilíbrio
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04
Novo desenvolvimentismo
Responsabilidade fiscal + câmbio competitivo
Indo mais fundo
Como funciona
O novo desenvolvimentismo
A síntese dos anos 2000: nem o velho desenvolvimentismo (protecionismo, déficits, inflação tolerada), nem a ortodoxia liberal (abrir, estabilizar e esperar), mas uma macroeconomia estruturalista do desenvolvimento: responsabilidade fiscal com câmbio competitivo administrado, neutralizando a doença holandesa (impostos sobre commodities, fundos) e a tendência à sobreapreciação cíclica que ele diagnostica nas economias emergentes (juros altos atraindo capital, populismo cambial usando o dólar barato como âncora eleitoral de consumo). A indústria como portadora do progresso técnico fecha o sistema: perder indústria por câmbio é perder o motor.
O reformador do Estado
A segunda obra é institucional: a reforma gerencial de 1995 (agências, organizações sociais, o núcleo estratégico do Estado) saiu do seu ministério e do diagnóstico de que o Estado brasileiro pós-1988 precisava de gestão, não só de regras, capítulo que dialoga com os termos de escolha pública e privatização deste dicionário, com a marca própria: reformar o Estado para fortalecê-lo, não para encolhê-lo. A Revista de Economia Política, que fundou e edita há décadas, é a casa do debate heterodoxo brasileiro.
Visão técnica
A leitura da escola Estruturalista
Sua definição da doença holandesa, verificada na fonte primária e citada no termo respectivo deste dicionário, ancora o sistema:
"A doença holandesa ou a maldição dos recursos naturais é uma sobreapreciação crônica da taxa de câmbio que o mercado não controla porque essa sobreapreciação é compatível com o equilíbrio a longo prazo da conta corrente do país." (Luiz Carlos Bresser-Pereira, Taxa de câmbio, doença holandesa e industrialização, 2010)
O arcabouço novo-desenvolvimentista formaliza-se na distinção entre as duas taxas de equilíbrio (a corrente, que as commodities sustentam, e a industrial, mais depreciada, que viabiliza manufatura de ponta) e na tendência à sobreapreciação cíclica e crônica do câmbio nos países em desenvolvimento, alimentada por doença holandesa, crescimento com poupança externa (déficits em conta corrente que valorizam o câmbio e substituem poupança interna em vez de somá-la, a tese mais herética ante o consenso) e populismo cambial. As prescrições derivadas (neutralização fiscal da renda ricardiana das commodities, administração do câmbio, juros baixos estruturais) e a escola que as desenvolve (com Nelson Marconi, José Luis Oreiro e a rede internacional do developmentalism) constituem hoje o programa heterodoxo brasileiro mais sistematizado, em diálogo e disputa com a CEPAL contemporânea e com a crítica ortodoxa registrada pelo protocolo: administrar câmbio em conta de capital aberta esbarra na trindade impossível (o termo vizinho), e a neutralização da doença holandesa exige a capacidade fiscal-institucional que a escolha pública põe em dúvida, objeções que a escola responde com gradualismo e desenho. No grafo deste pilar, Bresser fecha a linhagem estruturalista viva (Prebisch, Furtado, Conceição Tavares) e a conecta ao século 21: o único da fila que segue publicando a réplica.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir novo com velho desenvolvimentismo
Ignorar as objeções registradas
Veja também
Conceitos conectados
Doença holandesa
O paradoxo em que a exportação de recursos naturais valoriza tanto o câmbio que sufoca a indústria do país: a riqueza do subsolo empobrecendo a da fábrica.
Inflação inercial
A inflação que se reproduz sozinha: contratos indexados repassam a alta de ontem para os preços de amanhã, mesmo sem novo choque. A teoria que pariu o Plano Real.
Celso Furtado
O paraibano (1920-2004) que explicou o Brasil pela economia: o subdesenvolvimento não é atraso na fila, é uma formação histórica própria. Fundador da SUDENE, expoente da CEPAL.
Perguntas frequentes
O que é o novo desenvolvimentismo de Bresser-Pereira? +
A renovação do estruturalismo para a era global: responsabilidade fiscal combinada com câmbio competitivo administrado, neutralização da doença holandesa e rejeição do crescimento com poupança externa. A indústria, portadora do progresso técnico, volta ao centro, sem o protecionismo e a inflação do velho desenvolvimentismo.
Qual foi o papel de Bresser na reforma do Estado? +
Como ministro da Administração (1995), desenhou a reforma gerencial brasileira: agências reguladoras e executivas, organizações sociais e a profissionalização do núcleo estratégico, com a marca de reformar para fortalecer o Estado, não para encolhê-lo.
Fontes e referências
- Acadêmica Taxa de câmbio, doença holandesa e industrialização (Cadernos FGV Projetos) - Luiz Carlos Bresser-Pereira (2010)
- Acadêmica Globalização e Competição - Luiz Carlos Bresser-Pereira (2009)
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