No dia a dia
O que é, em palavras simples
David Ricardo enriqueceu na bolsa de Londres antes dos 42 anos, leu Adam Smith de férias e resolveu consertar a lógica do mestre. Seu resultado mais famoso é o teorema mais contraintuitivo da economia: a vantagem comparativa. Mesmo que Portugal produza tanto vinho quanto tecido melhor que a Inglaterra, os dois ganham se cada um se especializar no que faz relativamente melhor e trocar. Não é a habilidade absoluta que decide o comércio, é o custo de oportunidade, e por isso até o pior em tudo tem o que vender.
No seu bolso
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01
A bolsa de Londres
Milionário aos 42, teórico por tédio (1772-1823)
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02
Princípios (1817)
Vantagem comparativa, renda da terra
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03
Corn Laws
A teoria como arma do livre comércio
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04
Duas heranças
Marx pelo valor, o comércio moderno pelo teorema
Indo mais fundo
Como funciona
O método e as máquinas
Ricardo inaugurou o estilo que a economia adotaria: modelos abstratos deduzidos com rigor, dos quais Princípios de Economia Política e Tributação (1817) é o protótipo. Dele saem a teoria da renda da terra (a renda fundiária como prêmio da escassez diferencial, base dos rendimentos decrescentes), a teoria do valor-trabalho que Marx herdaria, e a honestidade que virou marca: no capítulo Sobre a Maquinaria, acrescentado em 1821, admitiu contra o próprio interesse teórico que a mecanização pode, sim, prejudicar trabalhadores por períodos longos, debate que a automação devolve a cada geração.
O político das leis dos cereais
A teoria era arma: contra as Corn Laws (tarifas que protegiam os fazendeiros ingleses e encareciam o pão), Ricardo argumentou que a proteção agrícola transferia renda aos donos de terra à custa de lucros e salários, freando a acumulação. A vitória do livre comércio inglês, póstuma (1846), saiu de seus panfletos. E a equivalência ricardiana deste dicionário leva seu nome pela metade certa: ele formulou a hipótese (dívida como imposto adiado) e a descartou como descrição da realidade, ceticismo que o termo registra.
Visão técnica
A leitura da escola Clássica
O exemplo dos Princípios, em atribuição indireta fiel ao capítulo VII: ainda que Portugal produza vinho e tecido com menos trabalho que a Inglaterra, convém-lhe concentrar-se no vinho, em que sua vantagem é maior, e importar o tecido, raciocínio que define o padrão de comércio pelos custos comparativos, não absolutos. A formalização posterior (Heckscher-Ohlin nos fatores, os modelos ricardianos modernos de Eaton e Kortum) e a evidência empírica preservam o núcleo: países exportam onde sua produtividade relativa é maior, e os ganhos agregados do comércio existem, com a distribuição interna desses ganhos (quem ganha, quem perde, quem compensa) como a parte que o século 21 reabriu, do choque chinês ao tarifaço, e que os termos de protecionismo e comércio documentam.
O resto do edifício ricardiano teve destinos diversos: a teoria da renda diferencial sobrevive intacta (de terras agrícolas a leilões de espectro e imóveis urbanos, o prêmio da escassez localizada é ricardiano); o valor-trabalho foi herdado por Marx e aposentado pela revolução marginalista; o pessimismo do estado estacionário (rendimentos decrescentes esmagando lucros) foi desmentido pela tecnologia que ele não previu, e renasce na economia ecológica com outra roupagem. Na rede deste pilar, Ricardo é o elo entre Smith e os dois caminhos que dele partem: o marginalismo via crítica do valor, e Marx via herança do valor; e o contraponto de Prebisch, que olhou o mesmo comércio da outra ponta da troca. O personagem completa o termo: judeu deserdado por casar fora da fé, corretor que aplicava nas próprias posições a frieza dos modelos, parlamentar que comprou a cadeira para defender ideias contra a própria classe, morto aos 51 com a obra em aberto.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir vantagem comparativa com absoluta
Usar Ricardo para encerrar o debate distributivo
Veja também
Conceitos conectados
Vantagem comparativa
O princípio de Ricardo: vale a pena cada país se especializar no que produz com menor custo relativo e trocar o resto, mesmo sendo pior em tudo.
Equivalência ricardiana
A tese de que financiar gasto com dívida equivale a financiá-lo com imposto: famílias previdentes poupariam hoje o imposto de amanhã, anulando o estímulo.
Adam Smith
O filósofo escocês (1723-1790) que fundou a economia moderna: em A Riqueza das Nações, mostrou a ordem que emerge quando cada um busca o próprio interesse sob concorrência.
Perguntas frequentes
O que é a vantagem comparativa de Ricardo? +
O teorema de que o comércio beneficia os dois lados mesmo quando um é melhor em tudo: cada país ganha especializando-se onde sua vantagem relativa é maior (ou a desvantagem, menor) e trocando. O que decide é o custo de oportunidade, não a habilidade absoluta.
O que mais Ricardo deixou além do comércio? +
A teoria da renda da terra (o prêmio da escassez diferencial, viva em imóveis e leilões), o método dos modelos abstratos rigorosos, o valor-trabalho que Marx herdou, a hipótese da equivalência ricardiana (que ele próprio descartou) e a honestidade do capítulo das máquinas, admitindo dano tecnológico aos trabalhadores.
Fontes e referências
- Acadêmica Princípios de Economia Política e Tributação - David Ricardo (1817)
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