Por que a escola austríaca desconfia de quem promete planejar a economia?
De Menger a Hayek, a escola austríaca parte de uma só intuição: o conhecimento que a economia precisa está disperso em milhões de cabeças, e nenhum planejador o reúne.
A teoria econômica supôs por décadas um agente perfeitamente racional. A economia comportamental mostrou que erramos de modo previsível, e que o previsível pode ser corrigido.
Por mais de um século, boa parte da teoria econômica partiu de um personagem conveniente: o homo economicus, um agente perfeitamente racional, que conhece todas as opções, calcula friamente custos e benefícios e nunca se deixa levar pela emoção. É uma simplificação útil, mas qualquer um que já comprou por impulso, adiou uma decisão importante ou entrou em pânico numa queda da bolsa sabe que não é assim que decidimos de verdade. Para situar essa premissa entre as correntes, vale o guia das escolas econômicas.
O primeiro a furar esse mito foi Herbert Simon, com a ideia de racionalidade limitada: nossa mente é poderosa, mas tem tempo, atenção e informação escassos, então nos contentamos com o suficiente, e não com o ótimo, tema do nosso texto sobre Simon. A economia comportamental levou isso adiante. Daniel Kahneman, Nobel de 2002, e seu parceiro de pesquisa Amos Tversky descreveram dois modos de pensar: um rápido e intuitivo, que decide no automático, e outro lento e deliberado, que confere as contas. O problema é que o modo rápido manda na maioria das nossas escolhas de dinheiro, e ele tem atalhos sistemáticos que nos traem.
As perdas pesam mais do que os ganhos.
Esses atalhos têm nome, e cada um vira um texto deste conjunto. A aversão à perda faz a dor de perder pesar mais que o prazer de ganhar, assunto de por que perder dói mais do que ganhar. O efeito da opção padrão mostra como o que já vem marcado decide por nós, em por que a opção padrão decide por você. A contabilidade mental explica por que tratamos um dinheiro diferente do outro, em por que tratamos um dinheiro diferente do outro. E o viés do presente revela por que adiamos sempre a poupança.
O ponto central da economia comportamental não é que somos tolos, e sim que erramos de modo previsível. E o que é previsível pode ser corrigido. Richard Thaler, Nobel de 2017, mostrou que pequenas mudanças no modo como as escolhas são apresentadas, os nudges, ajudam as pessoas a decidir melhor sem proibir nada. Entender os próprios vieses é o primeiro passo para parar de cair neles, inclusive na hora de gastar, como no nosso texto sobre por que dói menos pagar no cartão.
Perguntas frequentes
É a área que estuda como as pessoas realmente decidem, juntando economia e psicologia. Ela mostra que nos afastamos do modelo do agente perfeitamente racional de forma sistemática, por causa de atalhos mentais (vieses) que podem ser identificados e até corrigidos.
É o personagem da teoria econômica tradicional: um agente perfeitamente racional, que conhece todas as opções e maximiza seu bem-estar sem se deixar levar pela emoção. É uma simplificação útil, mas a economia comportamental mostrou que ela descreve mal o comportamento real.
Não no sentido de caóticos. A descoberta central é que erramos de forma previsível: os mesmos vieses aparecem em situações parecidas. É justamente essa previsibilidade que permite criar soluções, dos nudges à automação de decisões.
Sim. Conhecer os próprios vieses ajuda a evitar armadilhas (como segurar um investimento ruim por aversão à perda) e a montar atalhos bons, como poupar no automático ou tornar fácil a decisão que você já sabe que é a certa.
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Continue entendendo
De Menger a Hayek, a escola austríaca parte de uma só intuição: o conhecimento que a economia precisa está disperso em milhões de cabeças, e nenhum planejador o reúne.
Nenhum rei decretou o dinheiro. Carl Menger mostrou como ele emergiu da prática de milhões de pessoas, a partir das mercadorias mais fáceis de trocar, num efeito bola de neve.
Todo mundo quer poupar mais e quase todo mundo adia. O viés do presente faz o agora pesar demais, e a saída é mudar o desenho da decisão, não a força de vontade.