No dia a dia
O que é, em palavras simples
Nos anos 1930, com um quarto dos trabalhadores desempregados e a teoria mandando esperar o mercado se ajustar, John Maynard Keynes escreveu o livro que mudou o assunto: a Teoria Geral (1936). Sua tese: a economia pode se equilibrar no desemprego, porque o gasto de uns é a renda de outros, e quando todos cortam ao mesmo tempo, todos afundam juntos. Se o setor privado trava, o Estado precisa sustentar a demanda. Nasceu ali a macroeconomia, e com ela o mundo do pós-guerra: bancos centrais ativos, política fiscal anticíclica, o Estado como estabilizador.
No seu bolso
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01
Cambridge e Versalhes
A previsão do desastre de 1919
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02
Grande Depressão
A teoria vigente sem resposta
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03
Teoria Geral (1936)
Demanda efetiva, multiplicador, incerteza
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04
Mundo do pós-guerra
Bretton Woods, Estado estabilizador
Indo mais fundo
Como funciona
As ideias que viraram instituições
O arsenal keynesiano está espalhado por este dicionário: a demanda agregada como motor de curto prazo, o multiplicador que amplifica cada gasto, o paradoxo da poupança, a armadilha da liquidez em que o juro perde a força, os animal spirits movendo o investimento sob incerteza radical. De Bretton Woods (que ele negociou pessoalmente) ao FMI, do seguro-desemprego como estabilizador automático ao hábito de governar olhando o PIB trimestral, o século 20 institucional fala keynesiano.
O personagem
Keynes foi o anti-acadêmico enclausurado: especulador (fez fortuna, quebrou e refez), gestor do fundo de King's College, membro do grupo Bloomsbury entre escritores e pintores, negociador em Versalhes (de onde saiu para prever, em As Consequências Econômicas da Paz, o desastre que as reparações alemãs produziriam) e em Bretton Woods. Morreu em 1946, exausto das negociações do pós-guerra. A contrarrevolução monetarista dos anos 1970 aposentou a versão ingênua de suas ideias; a crise de 2008 e a pandemia as trouxeram de volta ao centro, com o nome dele na manchete.
Visão técnica
A leitura da escola Keynesiana
Sobre o poder das ideias, a passagem final da Teoria Geral é o credo involuntário de todo este pilar de pensadores:
"Homens práticos, que se creem livres de qualquer influência intelectual, são geralmente escravos de algum economista defunto." (John Maynard Keynes, Teoria Geral, 1936)
Analiticamente, a revolução keynesiana tem três camadas que as décadas trataram de forma distinta. A síntese neoclássica domesticou o livro em equações (IS-LM de Hicks), produziu a macroeconomia de manual e governou até a estagflação dos anos 1970, quando a crítica de Friedman e Lucas (expectativas, taxa natural) demoliu a versão mecânica da curva de Phillips, episódio narrado nos termos monetaristas deste dicionário. A leitura pós-keynesiana reivindica o Keynes profundo que a síntese aparou: incerteza radical não probabilizável, moeda não neutra, instabilidade financeira endógena, a linhagem que vai dar em Minsky e Joan Robinson. E o consenso operacional contemporâneo é um armistício: bancos centrais com metas (herança monetarista) operando modelos novo-keynesianos (rigidez de preços, hiato do produto), com a política fiscal reabilitada para grandes crises, exatamente o uso que 2008 e 2020 fizeram dela. Na rede deste dicionário, Keynes é o nó mais conectado do século 20: rival póstumo de Say, adversário intelectual de Hayek e Friedman, padrinho de Minsky, e autor, ironicamente, das duas citações com que monetaristas e keynesianos se atacam mutuamente, prova de que economista defunto nenhum descansa.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Reduzir Keynes a "gastar sempre resolve"
Esquecer o Keynes da incerteza
Veja também
Conceitos conectados
Keynesianismo
A revolução de John Maynard Keynes: a demanda determina a produção e o emprego, e o Estado deve agir nas crises, quando o mercado não se reequilibra sozinho.
Animal spirits
O termo de Keynes para o impulso espontâneo, mais emocional que calculado, que leva empresas a investir diante de um futuro que nenhuma conta consegue prever.
Henrique Morrone
O professor da UFRGS que pesquisa crescimento pós-keynesiano e macroeconomia estruturalista: a demanda como motor, lida com insumo-produto e redes.
Fabiano Abranches Silva Dalto
O professor do Departamento de Economia da UFPR que pesquisa economia monetária e financeira e instituições econômicas: a leitura de Keynes e Minsky sobre moeda, crédito e instabilidade, feita em produção brasileira.
Luiza Peruffo
A professora do DERI da UFRGS que pesquisa economia política internacional na chave pós-keynesiana e estruturalista: moeda, poder e a hierarquia monetária que limita as economias emergentes, em produção brasileira.
Larissa Naves de Deus Dornelas
A professora do Departamento de Economia da UFPR que pesquisa macroeconomia e economia monetária: a moeda em Keynes e a relação entre Banco Central e Tesouro, numa leitura pós-keynesiana, em produção brasileira.
Guilherme de Oliveira
O professor do PPGEco da UFSC que pesquisa crescimento econômico, distribuição de renda e meio ambiente: a macroeconomia da demanda na linhagem de Kalecki e dos regimes de crescimento, em produção brasileira.
Maurício Andrade Weiss
O professor da UFRGS que pesquisa fluxos de capitais, câmbio e finanças internacionais na chave pós-keynesiana: a vulnerabilidade externa dos emergentes, em produção documentada.
Elisangela Luzia Araújo
A professora da UEM que pesquisa indústria, leis de Kaldor e crescimento na chave pós-keynesiana: a desindustrialização brasileira e o que ela faz com o desenvolvimento.
Marcos Roberto Vasconcelos
O professor da UEM que pesquisa moeda, câmbio e a transmissão da política monetária: como o dinheiro afeta a economia real e os mercados cambiais, em produção documentada.
Arthur Gualberto Bacelar da Cruz Urpia
O professor da UEM que pesquisa teoria monetária e financeira e crises: a desregulamentação e a instabilidade que levaram ao subprime, em produção documentada.
Conceito oposto
Conceitos conectados
Perguntas frequentes
O que Keynes defendia, em resumo? +
Que economias de mercado podem se equilibrar com desemprego alto, porque a demanda de uns é a renda de outros e o pessimismo se autoalimenta. Nessas horas, política monetária e sobretudo fiscal devem sustentar a demanda. No tempo bom, a receita se inverte: a prescrição é anticíclica, não gastadora.
As ideias de Keynes ainda são usadas? +
O consenso atual é um híbrido: bancos centrais operam modelos novo-keynesianos com a disciplina de metas herdada dos monetaristas, e a política fiscal volta ao palco nas grandes crises, como em 2008 e 2020. A metade da incerteza radical vive na tradição pós-keynesiana e em Minsky.
Fontes e referências
- Acadêmica Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda - John Maynard Keynes (1936)
- Acadêmica As Consequências Econômicas da Paz - John Maynard Keynes (1919)
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