No dia a dia
O que é, em palavras simples
O Brasil exporta soja, minério e petróleo, e importa chips, máquinas e remédios. Esse padrão se repete em boa parte do Sul global, e não por acaso. Foi o economista argentino Raúl Prebisch, à frente da CEPAL nos anos 1950, quem deu nome a ele: a economia mundial funcionaria como um sistema de centro e periferia. No centro, os países que industrializaram primeiro e produzem tecnologia; na periferia, os que fornecem matérias-primas. E essa divisão, longe de se corrigir sozinha com o tempo, tende a se perpetuar.
No seu bolso
Os dois polos do sistema
Centro
- ›Produz e exporta indústria e tecnologia
- ›Retém os ganhos de produtividade
Periferia
- ›Produz e exporta matérias-primas
- ›Perde nos termos de troca
Indo mais fundo
Como funciona
Progresso técnico desigual
Para Prebisch, a chave está em como o progresso técnico se espalha. No centro, os ganhos de produtividade ficam em casa, na forma de salários e lucros mais altos. Na periferia, parte desses ganhos escapa pela queda nos preços das matérias-primas exportadas. O resultado é uma tendência de deterioração dos termos de troca: com o tempo, é preciso vender cada vez mais sacas de café para comprar a mesma máquina.
Uma estrutura que se reproduz
Daí o nome estruturalismo: o subdesenvolvimento não seria um atraso a ser vencido apenas esperando, mas o produto de uma estrutura que se realimenta. A periferia exporta o que tem menor valor agregado e importa o que tem maior, e a distância tende a se manter. A resposta proposta pela CEPAL foi industrializar de forma deliberada, com participação do Estado.
Visão técnica
A leitura da escola Estruturalista
A formulação inaugural do modelo centro-periferia está no documento que ficou conhecido como o Manifesto da CEPAL, redigido por Raúl Prebisch em 1949:
"Nesse esquema, cabia à América Latina, como parte da periferia do sistema econômico mundial, o papel específico de produzir alimentos e matérias-primas para os grandes centros industriais." (Raúl Prebisch, O Desenvolvimento Econômico da América Latina e Alguns de Seus Principais Problemas, 1949)
O conceito ataca de frente a teoria clássica da vantagem comparativa, que recomendaria a cada país se especializar no que faz melhor. Para Prebisch, especializar a periferia em commodities a aprisiona, porque os ganhos do progresso técnico se concentram no centro. Celso Furtado aprofundou a tese, mostrando que o subdesenvolvimento é uma condição estrutural, não uma etapa. O modelo centro-periferia é a base do estruturalismo latino-americano e segue influente nos debates sobre dependência, industrialização e o lugar do Brasil na economia global.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir com país pobre e país rico
Achar que é o mesmo que dependência
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Conceitos conectados
Veja também
Conceitos conectados
Dependência
A teoria de que o subdesenvolvimento da periferia não é um atraso a ser superado, mas o produto histórico da sua relação subordinada com os países centrais.
Estruturalismo
A corrente latino-americana de Prebisch e Celso Furtado: o subdesenvolvimento não é atraso a ser vencido pelo tempo, mas uma condição estrutural ligada à posição na economia mundial.
Celso Furtado
O paraibano (1920-2004) que explicou o Brasil pela economia: o subdesenvolvimento não é atraso na fila, é uma formação histórica própria. Fundador da SUDENE, expoente da CEPAL.
Raúl Prebisch
O argentino (1901-1986) que fundou o estruturalismo latino-americano: o mundo dividido em centro e periferia, e a tese de que exportar matéria-prima empobrece relativamente.
Pedro Cezar Dutra Fonseca
O professor titular da UFRGS e referência em desenvolvimentismo brasileiro: a economia do Brasil e as interpretações do país, na tradição estruturalista da CEPAL.
Ronaldo Herrlein Júnior
O professor da UFRGS que pesquisa economia política, Estado e desenvolvimento: o papel do Estado na trajetória econômica, lido pela história e pela tradição estruturalista.
Marcelo Arend
O professor da UFSC que cruza estruturalismo latino-americano e teoria neoschumpeteriana para investigar mudança estrutural, desindustrialização e desenvolvimento.
Lauro Francisco Mattei
O professor titular da UFSC que estuda o desenvolvimento por dentro do território: economia agrária, desenvolvimento regional e rural e políticas de erradicação da pobreza.
Marcelo Luiz Curado
O professor da UFPR que pesquisa desenvolvimentismo brasileiro e latino-americano, macroeconomia e história do pensamento econômico brasileiro: a tradição estruturalista do desenvolvimento em produção nacional.
Ricardo Dathein
O professor do PPGE da UFRGS que pesquisa economia do desenvolvimento e desenvolvimentismo: a tradição estruturalista e da inovação aplicada ao desenvolvimento brasileiro, organizada em obra de referência.
Daniel Arruda Coronel
O professor da UFSM que pesquisa desindustrialização, política industrial e comércio internacional: o desenvolvimento brasileiro medido com modelos quantitativos, em produção aplicada.
Hugo Carcanholo Iasco Pereira
O professor da UFPR que pesquisa câmbio real, crescimento e desindustrialização na chave novo-desenvolvimentista: o desenvolvimento brasileiro pela ótica da taxa de câmbio competitiva.
Andrés Ernesto Ferrari Haines
O professor da UFRGS que pesquisa desenvolvimento, a economia argentina e a geopolítica internacional: história do pensamento e relações econômicas globais, em produção documentada.
Samuel Costa Peres
O professor da UFRGS que pesquisa crescimento, integração financeira internacional e (sub)desenvolvimento: Furtado e a dependência relidos com dados, em produção documentada.
Eva Yamila Amanda da Silva Catela
A professora da UFSC que pesquisa complexidade econômica, inovação e crescimento na tradição estruturalista neoschumpeteriana: o que um país produz define o quanto ele cresce.
Perguntas frequentes
O que é o modelo centro-periferia? +
É a tese de Raúl Prebisch e da CEPAL de que a economia mundial se divide entre um centro industrial, que produz e exporta tecnologia, e uma periferia que exporta matérias-primas. Os ganhos do progresso técnico se concentram no centro, e a estrutura tende a se reproduzir.
Por que o conceito critica a vantagem comparativa? +
Porque a vantagem comparativa recomendaria à periferia se especializar em commodities, no que ela seria mais eficiente. Para Prebisch, isso a aprisiona: os preços das matérias-primas tendem a cair frente aos das manufaturas, e a periferia fica para trás.
Fontes e referências
- Acadêmica O Desenvolvimento Econômico da América Latina e Alguns de Seus Principais Problemas - Raúl Prebisch (1949)
- Acadêmica Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (1959)
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