No dia a dia
O que é, em palavras simples
Descobrir petróleo deveria ser uma bênção. Mas a experiência de vários países mostra um paradoxo: a riqueza que sai do subsolo pode destruir a que se faz na fábrica. O mecanismo é o câmbio. Quando um país exporta muita commodity, entram tantos dólares que a moeda local se valoriza. Com a moeda cara, o produto industrial do país fica caro lá fora e o importado fica barato aqui dentro. A indústria local definha. O nome vem da Holanda, onde a descoberta de gás natural nos anos 1960 foi seguida de perda de força da indústria.
No seu bolso
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01
Boom de commodity
Recurso natural abundante gera exportações lucrativas
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02
Câmbio aprecia
A entrada de dólares valoriza a moeda local
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03
Indústria sufocada
Exportar fica caro e o importado, barato
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04
Especialização
O país regride a exportador de matéria-prima
Indo mais fundo
Como funciona
O mecanismo em câmera lenta
A sequência é conhecida: a commodity abundante e barata de produzir gera exportações lucrativas mesmo com a moeda valorizada; o fluxo de dólares aprecia o câmbio; a indústria, que precisa de um câmbio mais competitivo para exportar e enfrentar importados, perde espaço; o país se especializa em matéria-prima. O termo foi cunhado pela revista The Economist em 1977, justamente para descrever o caso holandês.
Por que é difícil de combater
O sutil é que não há crise à vista: as contas externas fecham, porque a commodity paga a conta. O câmbio está em equilíbrio para o exportador de matéria-prima e letal para o industrial. Países que enfrentaram o problema, como a Noruega com o petróleo, criaram fundos soberanos para reter parte dos dólares fora da economia e administrar a moeda, neutralizando a apreciação.
Visão técnica
A leitura da escola Estruturalista
A formalização acadêmica clássica é de Corden e Neary (1982), que modelaram o boom de recursos naturais deslocando fatores e renda entre setores, com apreciação real do câmbio e contração dos demais bens comercializáveis. No debate brasileiro, a referência é Luiz Carlos Bresser-Pereira, que fez da doença holandesa peça central do novo desenvolvimentismo:
"A doença holandesa ou a maldição dos recursos naturais é uma sobreapreciação crônica da taxa de câmbio que o mercado não controla porque essa sobreapreciação é compatível com o equilíbrio a longo prazo da conta corrente do país." (Luiz Carlos Bresser-Pereira, Taxa de câmbio, doença holandesa e industrialização, 2010)
A contribuição estruturalista está nessa distinção entre duas taxas de equilíbrio: a que equilibra a conta corrente, sustentada pelas commodities, e a taxa de equilíbrio industrial, mais depreciada, que viabilizaria a manufatura com tecnologia de ponta. A doença holandesa é, nessa leitura, uma falha de mercado: o câmbio de mercado não converge para o nível que o desenvolvimento de longo prazo exigiria, e a desindustrialização prematura segue. As respostas propostas incluem impostos sobre a exportação de commodities, fundos soberanos no exterior e administração cambial. A tese dialoga com a tradição de Prebisch e da CEPAL sobre centro e periferia, e é contestada por quem vê na especialização conforme vantagens comparativas um resultado eficiente, não uma doença: o contraste entre as escolas está no peso que cada uma dá à indústria como motor de produtividade.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Achar que exportar commodity é ruim
Esperar uma crise para diagnosticar
Veja também
Conceitos conectados
Câmbio
O preço de uma moeda em relação a outra: quanto custa um dólar em reais, e o que isso muda nos preços, nas viagens e na economia.
Termos de troca
A relação entre os preços do que um país exporta e do que importa: define quanto de importação cada unidade de exportação consegue comprar.
Centro-periferia
O conceito de Raúl Prebisch e da CEPAL: a economia mundial se divide entre um centro industrial e uma periferia que exporta matérias-primas, e essa estrutura tende a se reproduzir.
Raúl Prebisch
O argentino (1901-1986) que fundou o estruturalismo latino-americano: o mundo dividido em centro e periferia, e a tese de que exportar matéria-prima empobrece relativamente.
Bresser-Pereira
O paulista (1934-) que renovou o estruturalismo para a era global: câmbio no centro, doença holandesa, novo desenvolvimentismo. Ministro três vezes, professor sempre.
Perguntas frequentes
O que é a doença holandesa? +
É o paradoxo em que a exportação abundante de recursos naturais valoriza tanto o câmbio que sufoca a indústria do país: exportar manufatura fica caro e importar fica barato. O nome vem da Holanda, após a descoberta de gás natural nos anos 1960.
Como um país combate a doença holandesa? +
As respostas clássicas incluem reter parte da renda das commodities fora da economia, como faz o fundo soberano da Noruega, tributar exportações do recurso e administrar o câmbio para mantê-lo competitivo para a indústria. O difícil é agir sem crise à vista.
Fontes e referências
- Acadêmica Taxa de câmbio, doença holandesa e industrialização (Cadernos FGV Projetos) - Luiz Carlos Bresser-Pereira (2010)
- Acadêmica Booming Sector and De-Industrialisation in a Small Open Economy (The Economic Journal) - W. Max Corden e J. Peter Neary (1982)
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