No dia a dia
O que é, em palavras simples
Hoje você decide, com firmeza, que vai começar a poupar (ou a dieta, ou a academia) na semana que vem. Mas quando a semana que vem vira hoje, o prazer imediato de gastar, comer ou descansar fala mais alto, e você adia de novo. Esse descompasso entre o que planejamos para o futuro e o que fazemos quando o futuro chega é o viés do presente: damos peso demais ao agora.
No seu bolso
A mesma escolha, momentos diferentes
Vista de longe
- ›Escolhe a recompensa maior depois
- ›Plano racional e paciente
Quando chega a hora
- ›Prefere a recompensa imediata
- ›Adia o plano de novo
Indo mais fundo
Como funciona
O futuro encolhe rápido demais
Todos damos menos valor ao que está distante no tempo, e isso é normal. O viés do presente é algo mais específico: descontamos o futuro de forma acentuada justo quando ele está perto. Por isso preferimos coerentemente uma recompensa maior daqui a um ano à de daqui a treze meses, mas, na hora, escolhemos a recompensa imediata em vez da maior amanhã. O eu planejador é traído pelo eu do momento.
Inconsistência no tempo
Essa contradição se chama inconsistência temporal: o plano do eu de ontem é sabotado pelo eu de hoje. Ela explica a procrastinação, o consumo por impulso e a dificuldade de poupar. A boa notícia é que dá para se defender: criar compromissos que amarram o eu futuro, como a poupança automática, neutraliza o viés ao tirar a decisão do calor do momento.
Visão técnica
A leitura da escola Comportamental
O viés do presente é tratado na economia comportamental por meio do desconto hiperbólico, formalizado por David Laibson (1997), e do modelo do planejador e do executor, de Richard Thaler e Hersh Shefrin. A ideia é que o ser humano desconta o futuro de forma inconsistente: muito acentuada no curtíssimo prazo e mais suave adiante, ao contrário do desconto exponencial constante suposto pela teoria econômica tradicional.
A consequência é a inconsistência temporal: preferências que se invertem conforme o tempo passa, fazendo o indivíduo sabotar os próprios planos. Diferentemente da preferência temporal da escola austríaca (uma preferência coerente pelo presente), o viés do presente é um desvio sistemático, em que a pessoa age contra o que ela mesma definiu como seu interesse. Daí a força dos dispositivos de compromisso e dos nudges, como a adesão automática à previdência: eles funcionam justamente porque deslocam a decisão do momento de tentação para um instante de planejamento. O viés do presente é uma das raízes comportamentais do endividamento e da baixa poupança.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir com preferência temporal normal
Achar que é só falta de força de vontade
Veja também
Conceitos conectados
Juro composto
O juro que incide sobre o saldo já acrescido de juros anteriores: faz o dinheiro crescer (ou a dívida) de forma acelerada.
Reserva de emergência
Uma quantia guardada em aplicação segura e de fácil acesso, reservada para imprevistos: o primeiro passo de qualquer plano financeiro.
Economia comportamental
O ramo que junta economia e psicologia: as pessoas não decidem como o agente racional dos modelos, e seus vieses previsíveis moldam escolhas de consumo, poupança e investimento.
Richard Thaler
O americano (1945-) que transformou as anomalias humanas em programa econômico: contabilidade mental, nudges e a economia comportamental aplicada. Nobel de 2017.
Perguntas frequentes
O que é o viés do presente? +
É a tendência a dar peso exagerado à recompensa imediata frente à futura, especialmente quando a tentação está perto. Leva a procrastinar, gastar por impulso e adiar sempre a poupança, mesmo quando a pessoa havia planejado o contrário.
Como combater o viés do presente? +
Com dispositivos de compromisso que tiram a decisão do calor do momento: poupança automática, débito programado, metas com consequências. Eles funcionam porque deslocam a escolha do instante de tentação para um momento de planejamento.
Fontes e referências
- Acadêmica Golden Eggs and Hyperbolic Discounting (Quarterly Journal of Economics) - David Laibson (1997)
- Acadêmica Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar - Daniel Kahneman (2011)
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