No dia a dia
O que é, em palavras simples
Quem cozinhou, limpou, cuidou de crianças e idosos enquanto o PIB era produzido? A economia feminista nasce dessa pergunta. Boa parte do trabalho que sustenta a vida econômica, feito majoritariamente por mulheres dentro de casa, nunca entrou nas contas nacionais: não tem preço, logo não existe nas estatísticas. A corrente surge nos anos 1980 e 1990 para corrigir essa cegueira: medir o invisível, explicar desigualdades de salário e ocupação, e revisar conceitos que se apresentavam como neutros mas embutiam um ponto de vista.
No seu bolso
O dia de trabalho que as contas veem pela metade
- Trabalho remunerado (entra no PIB) 55%
- Trabalho doméstico e cuidado (fora do PIB) 45%
Indo mais fundo
Como funciona
As três frentes
A primeira frente é estatística: pesquisas de uso do tempo, como as do IBGE, medem as horas de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados; valoradas a preço de mercado, equivaleriam a uma fatia de dois dígitos do PIB, riqueza real fora da régua oficial. A segunda é analítica: explicar os diferenciais persistentes de salário e ocupação entre homens e mulheres, da discriminação à penalidade da maternidade, hoje uma das agendas empíricas mais ativas da disciplina, premiada com o Nobel de Claudia Goldin em 2023. A terceira é conceitual: revisar categorias como trabalho, produtividade e racionalidade, mostrando o que elas deixam de fora.
Não é economia para mulheres
O rótulo engana à primeira vista: trata-se de um programa de pesquisa sobre como o gênero estrutura a economia, não de um recorte de público. Marilyn Waring, pioneira da crítica às contas nacionais, mostrou que sistemas estatísticos desenhados no pós-guerra contavam a produção de armas e ignoravam o cuidado de crianças. A pergunta da corrente é incômoda e fértil: o que mais nossas réguas escolhem não ver?
Visão técnica
Visão técnica
A economia feminista consolidou-se como campo com a fundação da International Association for Feminist Economics (1992) e da revista Feminist Economics (1995), sobre dois pilares críticos. O primeiro é a crítica da mensuração, sistematizada por Marilyn Waring (If Women Counted, 1988): a fronteira de produção do sistema de contas nacionais exclui o trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, decisão metodológica com consequências distributivas e de política, pois o que não se mede não se governa. As contas-satélite de trabalho não remunerado e as pesquisas de uso do tempo, hoje recomendadas por organismos internacionais e produzidas no Brasil pelo IBGE, são a resposta institucional a essa crítica. O segundo pilar é a crítica ao homo economicus, na linha de Nancy Folbre: o agente egoísta e autônomo pressupõe alguém que o alimentou e criou; a provisão de cuidado, movida por obrigação e afeto além de preço, é precondição não contratual da economia de mercado.
A agenda empírica madura conecta-se ao mainstream sem se dissolver nele: a decomposição dos hiatos salariais de gênero, o efeito da maternidade sobre trajetórias (child penalty, na literatura de Kleven e coautores), a economia da família de Becker relida criticamente, e o trabalho historicamente premiado de Claudia Goldin (Nobel 2023) sobre a convergência incompleta entre carreiras. Manuais pluralistas como os de Geoffrey Schneider apresentam a corrente como lente complementar obrigatória: ela não substitui a análise de preços e incentivos, expõe o que essa análise pressupõe em silêncio. Nota de rótulo deste termo: a economia feminista é uma escola própria, fora do rodízio das nove tradições deste dicionário; classificamos sem escola e descrevemos o programa pelos seus próprios termos, conforme o protocolo pluralista.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Reduzir a corrente a uma pauta política
Achar que medir o cuidado é capricho contábil
Veja também
Conceitos conectados
PIB
A soma de todos os bens e serviços finais que um país produz num período: o tamanho da economia resumido em um número.
Desigualdade
A distribuição desigual de renda ou riqueza numa sociedade, medida por índices como o de Gini: um número entre a igualdade total e a concentração absoluta.
Economia do cuidado
O conjunto do trabalho, pago e não pago, que sustenta a vida: criar crianças, cuidar de doentes e idosos, manter a casa. Sem ele, nenhum outro setor funciona.
Claudia Goldin
A americana (1946-) que reconstruiu 200 anos de dados para explicar o hiato de gênero no trabalho: a convergência incompleta e o trabalho ganancioso. Nobel de 2023, sozinha.
Gary Becker
O americano (1930-2014) que levou a escolha racional aonde ninguém ousava: discriminação, crime, família, capital humano. Nobel de 1992, o imperialista da economia.
Marilyn Waring
A neozelandesa (1952-) que expôs o ângulo cego do PIB: o trabalho não pago, sobretudo de mulheres, vale zero nas contas nacionais, enquanto destruir a natureza conta como riqueza.
Nancy Folbre
A americana (1952-) que estudou a economia do cuidado: criar a próxima geração é um trabalho de valor incalculável, mal pago ou não pago, cujo custo recai sobre as mulheres e o benefício recai sobre todos.
Daniela Dias Kühn
A professora da UFRGS que pesquisa economia feminista e estudos em desenvolvimento: tornar visível o trabalho de cuidado que sustenta a economia.
Brena Paula Magno Fernandez
A professora da UFSC que une economia feminista e epistemologia: questiona a noção de racionalidade econômica e recupera as mulheres na história do pensamento econômico.
Kênia Barreiro de Souza
A economista da UFPR que pesquisa economia do gênero e da família e economia do trabalho: o trabalho de cuidado e a desigualdade de gênero como questões econômicas centrais.
Angela Welters
A professora do Departamento de Economia da UFPR que pesquisa economia feminista, do trabalho e políticas sociais: gênero, trabalho não remunerado e reprodução social lidos como economia, com raiz na tradição da CEPAL, em produção brasileira.
Perguntas frequentes
O que estuda a economia feminista? +
Como o gênero estrutura a economia: o trabalho doméstico e de cuidados que as contas nacionais não medem, os diferenciais de salário e carreira entre homens e mulheres, e os pontos cegos de conceitos tidos como neutros, do PIB ao homo economicus.
O trabalho doméstico deveria entrar no PIB? +
A recomendação internacional é medi-lo em contas-satélite, paralelas ao PIB principal: valorado a preço de mercado, o trabalho não remunerado equivaleria a uma fatia de dois dígitos do produto. A medição existe para orientar políticas, como creches e licenças, não para inflar o indicador.
Fontes e referências
- Acadêmica If Women Counted: A New Feminist Economics - Marilyn Waring (1988)
- Acadêmica Prêmio Nobel de Economia 2023: Claudia Goldin - Nobel Prize (2023)
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