No dia a dia
O que é, em palavras simples
Adam Smith falou da mão invisível do mercado, que faz o interesse próprio de cada um beneficiar a todos. Nancy Folbre lembrou que existe também um coração invisível: o trabalho de cuidar, criar filhos, amparar doentes e idosos, sem o qual nenhuma economia funcionaria, porque não haveria sequer trabalhadores no futuro. Esse cuidado tem uma característica curiosa: o custo de fazê-lo recai sobre quem cuida (na maioria, mulheres, que abrem mão de renda e carreira), mas o benefício recai sobre todos (a sociedade inteira ganha com adultos saudáveis e educados). É um trabalho que gera valor para fora de quem o faz, e por isso o mercado, sozinho, tende a remunerá-lo mal e a produzi-lo de menos.
No seu bolso
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01
O cuidado
Criar, amparar, sustentar a próxima geração
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02
Custo concentrado
Recai sobre quem cuida, em geral a mulher
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03
Benefício difuso
A sociedade inteira colhe os frutos
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04
Subproduzido
O mercado sozinho remunera mal e produz de menos
Indo mais fundo
Como funciona
O cuidado como bem público
Em The Invisible Heart (2001), Folbre desenvolveu a economia do cuidado com as próprias ferramentas da economia. Criar uma criança bem cuidada produz o que os economistas chamam de externalidade positiva: o benefício transborda para a sociedade (que terá trabalhadores, contribuintes e cidadãos), mas o custo fica concentrado na família, em especial na mulher. Como qualquer bem com benefício social maior que o privado, o cuidado tende a ser subproduzido se deixado só ao mercado e à boa vontade, da mesma forma que se polui demais quando o custo da poluição não recai sobre quem polui.
Quem paga pelas crianças?
A pergunta que dá título a outro de seus trabalhos, Who Pays for the Kids? (1994), é a chave política. Se a sociedade colhe os frutos de uma nova geração bem cuidada, é justo que o custo recaia inteiro sobre as mães? Folbre mostra como as regras (licenças, creches, previdência, divisão do trabalho dentro de casa) distribuem esse custo de formas que penalizam quem cuida, e defende arranjos que socializem parte dele, reconhecendo o cuidado como infraestrutura social, e não como assunto privado de cada família.
Visão técnica
A leitura da escola Feminista
A força de Folbre está em fazer economia feminista sem abandonar o rigor analítico, em atribuição indireta fiel à obra: ela usa os conceitos de externalidade, bem público e ação coletiva (o instrumental que a economia reserva para mercados e empresas) para iluminar a esfera doméstica que a disciplina tradicionalmente ignorou, mostrando que a separação entre uma economia produtiva e séria e uma esfera reprodutiva privada é ela mesma uma construção enviesada. Bolsista da Fundação MacArthur e professora de longa data, contribuiu para medir o valor do trabalho de cuidado e para o debate sobre o tempo, e seu trabalho dialoga com a crítica de Marilyn Waring ao PIB e com os estudos de Claudia Goldin sobre a trajetória das mulheres no mercado. A crítica de praxe vem de duas direções: economistas mais ortodoxos questionam até onde o instrumental de externalidades captura algo (o cuidado) que tem dimensões morais e afetivas irredutíveis a custo e benefício; e parte do feminismo teme que tratar o cuidado como investimento o reduza à sua utilidade econômica, perdendo seu valor próprio. Folbre navega essa tensão argumentando que reconhecer o valor econômico do cuidado é condição para protegê-lo, não para mercantilizá-lo. No grafo deste pilar, ela é o vértice da economia do cuidado, ligada à externalidade (a ferramenta), a Waring (a crítica ao PIB) e a Goldin (a mulher no trabalho).
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Ver o cuidado como assunto privado de cada família
Reduzir o cuidado a investimento com retorno
Veja também
Conceitos conectados
Externalidade
O efeito de uma atividade sobre quem não participou dela: um custo (poluição) ou um benefício (vacina) que não entra no preço.
Divisão do trabalho
O princípio de Adam Smith: dividir uma tarefa em etapas especializadas multiplica a produção, e foi assim que ele explicou a origem da riqueza das nações.
Claudia Goldin
A americana (1946-) que reconstruiu 200 anos de dados para explicar o hiato de gênero no trabalho: a convergência incompleta e o trabalho ganancioso. Nobel de 2023, sozinha.
Perguntas frequentes
O que é a economia do cuidado? +
O campo, que Nancy Folbre ajudou a fundar, que estuda o trabalho de cuidar (criar filhos, amparar doentes e idosos) como atividade econômica essencial. Seu ponto central: o cuidado gera benefício para toda a sociedade, mas o custo recai sobre quem cuida, em geral mulheres, o que o faz ser mal remunerado e subproduzido.
O que é o coração invisível de Folbre? +
Um trocadilho com a mão invisível de Adam Smith: assim como o mercado coordena o interesse próprio, o coração invisível é o trabalho de cuidado que sustenta a economia por baixo, sem o qual não haveria trabalhadores no futuro, e que o mercado, sozinho, não consegue valorizar nem garantir.
Fontes e referências
- Acadêmica The Invisible Heart: Economics and Family Values - Nancy Folbre (2001)
- Acadêmica Who Pays for the Kids? Gender and the Structures of Constraint - Nancy Folbre (1994)
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