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Pensadores Nível 4 Avançado

Nancy Folbre

também conhecido como: Folbre, Nancy Folbre

A americana (1952-) que estudou a economia do cuidado: criar a próxima geração é um trabalho de valor incalculável, mal pago ou não pago, cujo custo recai sobre as mulheres e o benefício recai sobre todos.

Redação Blog do Brasil atualizado em 16 de junho de 2026 escola Feminista

No dia a dia

O que é, em palavras simples

Adam Smith falou da mão invisível do mercado, que faz o interesse próprio de cada um beneficiar a todos. Nancy Folbre lembrou que existe também um coração invisível: o trabalho de cuidar, criar filhos, amparar doentes e idosos, sem o qual nenhuma economia funcionaria, porque não haveria sequer trabalhadores no futuro. Esse cuidado tem uma característica curiosa: o custo de fazê-lo recai sobre quem cuida (na maioria, mulheres, que abrem mão de renda e carreira), mas o benefício recai sobre todos (a sociedade inteira ganha com adultos saudáveis e educados). É um trabalho que gera valor para fora de quem o faz, e por isso o mercado, sozinho, tende a remunerá-lo mal e a produzi-lo de menos.

No seu bolso

A mãe que reduz a jornada para cuidar dos filhos paga sozinha (em salário e carreira) por algo de que toda a sociedade vai se beneficiar quando esses filhos forem adultos. É o desencontro entre custo privado e benefício social que Folbre pôs no centro.
Anatomia do conceito
  1. 01

    O cuidado

    Criar, amparar, sustentar a próxima geração

  2. 02

    Custo concentrado

    Recai sobre quem cuida, em geral a mulher

  3. 03

    Benefício difuso

    A sociedade inteira colhe os frutos

  4. 04

    Subproduzido

    O mercado sozinho remunera mal e produz de menos

Indo mais fundo

Como funciona

O cuidado como bem público

Em The Invisible Heart (2001), Folbre desenvolveu a economia do cuidado com as próprias ferramentas da economia. Criar uma criança bem cuidada produz o que os economistas chamam de externalidade positiva: o benefício transborda para a sociedade (que terá trabalhadores, contribuintes e cidadãos), mas o custo fica concentrado na família, em especial na mulher. Como qualquer bem com benefício social maior que o privado, o cuidado tende a ser subproduzido se deixado só ao mercado e à boa vontade, da mesma forma que se polui demais quando o custo da poluição não recai sobre quem polui.

Quem paga pelas crianças?

A pergunta que dá título a outro de seus trabalhos, Who Pays for the Kids? (1994), é a chave política. Se a sociedade colhe os frutos de uma nova geração bem cuidada, é justo que o custo recaia inteiro sobre as mães? Folbre mostra como as regras (licenças, creches, previdência, divisão do trabalho dentro de casa) distribuem esse custo de formas que penalizam quem cuida, e defende arranjos que socializem parte dele, reconhecendo o cuidado como infraestrutura social, e não como assunto privado de cada família.

Visão técnica

A leitura da escola Feminista

A força de Folbre está em fazer economia feminista sem abandonar o rigor analítico, em atribuição indireta fiel à obra: ela usa os conceitos de externalidade, bem público e ação coletiva (o instrumental que a economia reserva para mercados e empresas) para iluminar a esfera doméstica que a disciplina tradicionalmente ignorou, mostrando que a separação entre uma economia produtiva e séria e uma esfera reprodutiva privada é ela mesma uma construção enviesada. Bolsista da Fundação MacArthur e professora de longa data, contribuiu para medir o valor do trabalho de cuidado e para o debate sobre o tempo, e seu trabalho dialoga com a crítica de Marilyn Waring ao PIB e com os estudos de Claudia Goldin sobre a trajetória das mulheres no mercado. A crítica de praxe vem de duas direções: economistas mais ortodoxos questionam até onde o instrumental de externalidades captura algo (o cuidado) que tem dimensões morais e afetivas irredutíveis a custo e benefício; e parte do feminismo teme que tratar o cuidado como investimento o reduza à sua utilidade econômica, perdendo seu valor próprio. Folbre navega essa tensão argumentando que reconhecer o valor econômico do cuidado é condição para protegê-lo, não para mercantilizá-lo. No grafo deste pilar, ela é o vértice da economia do cuidado, ligada à externalidade (a ferramenta), a Waring (a crítica ao PIB) e a Goldin (a mulher no trabalho).

No mercado

O debate sobre licença-parental, creche pública e divisão do trabalho doméstico é folbreano: são formas de redistribuir o custo do cuidado que hoje recai sobre as mulheres, tratando-o como infraestrutura social, e não como assunto privado.

Atenção

Mitos e erros comuns

Ver o cuidado como assunto privado de cada família

Para Folbre, o cuidado gera benefício para toda a sociedade (uma externalidade positiva), então deixá-lo inteiramente a cargo das famílias, e das mulheres, faz a sociedade subproduzir algo de que depende. É questão econômica e pública, não só doméstica.

Reduzir o cuidado a investimento com retorno

Folbre usa o instrumental econômico para tornar o cuidado visível, mas reconhece que ele tem dimensões morais e afetivas irredutíveis a custo e benefício. Tratá-lo só como investimento perde justamente o que o torna insubstituível.

Veja também

Conceitos conectados

Perguntas frequentes

O que é a economia do cuidado? +

O campo, que Nancy Folbre ajudou a fundar, que estuda o trabalho de cuidar (criar filhos, amparar doentes e idosos) como atividade econômica essencial. Seu ponto central: o cuidado gera benefício para toda a sociedade, mas o custo recai sobre quem cuida, em geral mulheres, o que o faz ser mal remunerado e subproduzido.

O que é o coração invisível de Folbre? +

Um trocadilho com a mão invisível de Adam Smith: assim como o mercado coordena o interesse próprio, o coração invisível é o trabalho de cuidado que sustenta a economia por baixo, sem o qual não haveria trabalhadores no futuro, e que o mercado, sozinho, não consegue valorizar nem garantir.

Fontes e referências

  • Acadêmica The Invisible Heart: Economics and Family Values - Nancy Folbre (2001)
  • Acadêmica Who Pays for the Kids? Gender and the Structures of Constraint - Nancy Folbre (1994)

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