Por que a escola austríaca desconfia de quem promete planejar a economia?
De Menger a Hayek, a escola austríaca parte de uma só intuição: o conhecimento que a economia precisa está disperso em milhões de cabeças, e nenhum planejador o reúne.
O Brasil está entre os países mais desiguais do mundo, e isso tem raiz histórica, não acidental. Como medir a concentração de renda e o que a economia propõe para reduzi-la.
Desigualdade de renda é a distância entre o quanto ganha quem está no topo e quem está na base. Para resumir essa distância em um único número, os economistas usam o índice de Gini: uma escala que vai de 0, quando todos recebem exatamente o mesmo, a 1, quando uma única pessoa concentraria toda a renda. Quanto mais perto de 1, mais concentrada é a distribuição. O Brasil aparece, ano após ano, entre os países de Gini mais alto do mundo, ainda que o indicador venha recuando aos poucos.
O Gini não conta tudo sozinho. A renda per capita mostra quanto caberia a cada pessoa se a renda fosse repartida por igual, mas justamente por isso esconde a concentração. Já o IDH, calculado pela ONU, combina renda, educação e expectativa de vida para medir desenvolvimento humano, e não apenas dinheiro. Cada lente revela uma parte do retrato.
Para a escola estruturalista latino-americana, a desigualdade brasileira não é um acidente nem uma etapa que o tempo corrige sozinho: ela está inscrita na forma como a economia do país se constituiu. Celso Furtado, seu maior expoente no Brasil, defendia que o subdesenvolvimento tem uma raiz histórica própria, e não é uma versão atrasada do caminho que os países ricos já percorreram.
Nessa leitura, uma economia organizada para exportar produtos primários tende a concentrar renda em poucas mãos e a ficar dependente do centro industrializado. O mesmo raciocínio aparece quando se pergunta por que países parecidos têm destinos diferentes: as instituições, isto é, as regras do jogo, podem perpetuar privilégios em vez de abri-los.
O subdesenvolvimento é um processo histórico autônomo, e não uma etapa pela qual tenham, necessariamente, passado as economias que já alcançaram grau superior de desenvolvimento.
Durante décadas prevaleceu a hipótese do economista Simon Kuznets: ao se desenvolver, um país veria a desigualdade primeiro subir e depois cair, desenhando um U invertido. Dela nasceu a receita do "cresça primeiro, distribua depois". O francês Thomas Piketty pôs a ideia à prova com séculos de dados e chegou a outra conclusão: quando o retorno do capital rende mais do que a economia cresce (o que ele resume como r maior que g), a riqueza acumulada avança mais rápido que os salários, e a concentração se aprofunda por conta própria. Não existiria, portanto, uma mão automática que conserte a desigualdade. O argumento está detalhado na nossa resenha de O Capital no Século XXI.
Medir privação apenas pela renda também engana. O economista Amartya Sen, Nobel de 1998, propôs olhar para as capacidades reais das pessoas: poder estudar, ter saúde e liberdade para escolher a vida que valorizam. Pobreza, nessa visão, é privação de capacidades, não somente baixa renda. Levar essa pergunta a campo, com experimentos, foi o que fez a dupla por trás de Poor Economics, que investigou o que de fato ajuda famílias a saírem da pobreza, sem caricatura nem ideologia.
Três alavancas reaparecem na evidência. Educação de qualidade, que amplia as oportunidades de quem começa atrás. Tributação progressiva, em que quem ganha mais contribui proporcionalmente mais. E transferências de renda bem direcionadas. No Brasil, os programas sociais reduzem de forma mensurável a desigualdade: sem eles, o Gini medido seria mais alto, como mostra a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE. Cada uma dessas alavancas será tema dos próximos textos deste conjunto.
Para situar as correntes de pensamento citadas aqui, vale o nosso guia das escolas econômicas.
Perguntas frequentes
É uma medida da desigualdade de renda numa escala de 0 a 1. Zero significa renda perfeitamente igual entre todos; 1, concentração total numa só pessoa. Quanto mais perto de 1, mais desigual o país. O Brasil tem um dos valores mais altos do mundo.
Não o mais desigual, mas figura sistematicamente entre os primeiros. O indicador vem caindo nos últimos anos, impulsionado por programas sociais e pelo mercado de trabalho, mas o país segue muito acima da média mundial.
Não necessariamente. A hipótese de Kuznets sugeria que sim, com o tempo; já Piketty argumenta que, sem políticas ativas, o capital tende a se concentrar mais rápido que os salários. O crescimento ajuda, mas não garante distribuição.
A evidência reunida pela economia experimental aponta redução mensurável da pobreza e da desigualdade, sem o efeito de acomodação que o senso comum costuma temer. Esse será o tema de um próximo texto deste conjunto.
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