No dia a dia
O que é, em palavras simples
Em 1973, países produtores de petróleo cortaram a oferta e o preço do barril disparou; em 1979, uma nova alta repetiu o golpe. Como o petróleo move quase tudo (transporte, indústria, energia), o custo de produzir subiu em toda parte. O resultado foi uma combinação que a teoria da época dizia ser rara: inflação alta e economia parada ao mesmo tempo, com desemprego subindo. Esse "pior dos dois mundos" ganhou nome, estagflação, e obrigou os economistas a repensar suas certezas.
No seu bolso
Inflação de demanda x choque de oferta
Inflação de demanda
- ›Economia aquecida puxa os preços
- ›Vem com emprego em alta
Choque de oferta (petróleo)
- ›Custo de produzir dispara
- ›Preços sobem e o emprego cai juntos
Indo mais fundo
Como funciona
Um choque de oferta, não de demanda
Até então, a inflação costumava vir da economia aquecida demais (excesso de demanda). O petróleo trouxe um tipo diferente: um choque de custos. Encarecer a energia eleva preços e, ao mesmo tempo, encolhe a produção e o emprego. Inflação e recessão deixaram de ser opostas e passaram a andar juntas.
Por que abalou a teoria
Havia uma ideia influente, ligada à curva de Phillips, de que existia uma troca estável entre inflação e desemprego: aceitar um pouco mais de inflação compraria menos desemprego. Os anos 1970 mostraram os dois subindo juntos, e essa relação simples ruiu. A política econômica entrou em crise junto com a teoria.
Visão técnica
Visão técnica
A estagflação dos anos 1970 foi o episódio que deslocou o eixo do pensamento econômico do keynesianismo dominante para o monetarismo e, depois, para as expectativas racionais. A leitura keynesiana tradicional, baseada numa curva de Phillips estável, não explicava bem inflação e desemprego altos ao mesmo tempo. Milton Friedman e Edmund Phelps já haviam previsto isso: argumentaram que a troca entre inflação e desemprego só existe no curto prazo, enquanto as pessoas são surpreendidas; quando passam a esperar a inflação, ela se incorpora aos contratos e ao comportamento, e sobra inflação sem ganho de emprego.
Daí a ascensão da tese monetarista, sintetizada na frase de Friedman de que "a inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário": no fim, conter a inflação exigiria controlar a moeda e ancorar expectativas, ainda que ao custo de uma recessão, como a que o Federal Reserve de Paul Volcker provocou deliberadamente no início dos anos 1980 para quebrar a inflação americana. A lição prática sobrevive no desenho atual da política monetária: bancos centrais independentes, foco em expectativas e regimes de metas de inflação nasceram, em boa medida, do trauma dos choques do petróleo.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Tratar toda inflação como excesso de demanda
Acreditar numa troca permanente entre inflação e desemprego
Veja também
Conceitos conectados
Inflação
A perda contínua do poder de compra do dinheiro: com o tempo, a mesma quantia compra menos.
Estagflação
A combinação rara e perversa de inflação alta com economia estagnada e desemprego em alta: o pior dos dois mundos ao mesmo tempo.
Metas de inflação
O regime em que o Banco Central se compromete com uma meta de inflação e usa os juros (a Selic) para persegui-la, âncora da política monetária no Brasil desde 1999.
Milton Friedman
O economista americano (1912-2006) que liderou a contrarrevolução ao keynesianismo: a inflação como fenômeno monetário, a taxa natural de desemprego e a defesa do mercado.
Perguntas frequentes
O que é estagflação e o que ela tem a ver com o petróleo? +
Estagflação é a combinação de inflação alta com economia estagnada e desemprego em alta. Os choques do petróleo de 1973 e 1979 a provocaram em escala mundial: ao encarecer a energia, elevaram custos e preços ao mesmo tempo em que travaram a produção, contrariando a teoria dominante.
Como o mundo derrotou a inflação dos anos 1970? +
Com política monetária dura para ancorar expectativas, simbolizada pela recessão provocada pelo Fed de Paul Volcker no início dos anos 1980. A experiência consolidou os bancos centrais independentes e o regime de metas de inflação que predominam hoje.
Fontes e referências
- Primária The Great Inflation - Federal Reserve History
- Acadêmica The Role of Monetary Policy - Milton Friedman (1968)
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