Por que a escola austríaca desconfia de quem promete planejar a economia?
De Menger a Hayek, a escola austríaca parte de uma só intuição: o conhecimento que a economia precisa está disperso em milhões de cabeças, e nenhum planejador o reúne.
Carteira assinada de um lado, informalidade do outro. O mercado de trabalho brasileiro é dividido por regras, e essa fronteira explica salário baixo, desemprego e desigualdade.
O mercado de trabalho é onde se encontram quem precisa trabalhar e quem precisa contratar. Mas tratá-lo como uma feira em que oferta e procura se ajustam livremente esconde o essencial: no Brasil, ele é profundamente dividido. De um lado, quem tem carteira assinada, férias, FGTS e contribuição previdenciária. De outro, perto de 4 em cada 10 ocupados que trabalham por conta própria sem registro, sem direitos e sem rede de proteção, a chamada informalidade. Entender o trabalho no país é, antes de tudo, entender essa fronteira.
Três perguntas organizam o assunto. Quem está empregado e quem está em situação de desemprego. Quanto se ganha, e o que um piso como o salário mínimo faz com isso. E por que tanta gente fica na informalidade. Cada uma será um texto deste conjunto.
Para a escola institucional, o trabalho não acontece num vácuo: ele é moldado por regras, contratos e custos de transação. O economista Douglass North, Nobel de 1993, resumiu a ideia de que as instituições são as regras do jogo que estruturam toda interação econômica. Salário mínimo, leis trabalhistas, encargos, sindicatos e a Justiça do Trabalho não são detalhes em cima do mercado: eles são o mercado, porque definem o que é caro ou barato contratar, registrar e demitir.
Essa lente ajuda a explicar a divisão brasileira. Quando formalizar um trabalhador custa caro e demora, parte da economia simplesmente opera por fora das regras. O mesmo raciocínio aparece quando se pergunta por que as empresas existem: a forma como organizamos contratos define quem entra e quem fica de fora.
As instituições são as regras do jogo numa sociedade ou, mais formalmente, são as restrições criadas pelos seres humanos que dão forma à interação social.
Os debates sobre trabalho no Brasil giram em torno de três nós, e cada escola econômica os enxerga de um jeito. O primeiro é o salário: aumentar o piso protege quem ganha pouco ou tira empregos de quem mais precisa? A resposta do livro-texto neoclássico e a evidência empírica recente divergem, como mostra o nosso texto sobre salário mínimo e desemprego.
O segundo é a informalidade: por que tanta gente trabalha sem carteira. O terceiro é o próprio desemprego: por que ele existe mesmo quando a economia cresce, pergunta que separa keynesianos e monetaristas e que tratamos em por que há desemprego com a economia crescendo e em por que o desemprego nunca chega a zero.
O mercado de trabalho é a principal porta de entrada da renda da maioria das famílias. Por isso ele é também o principal canal da desigualdade: quem está na informalidade ganha menos, oscila mais e fica sem aposentadoria. A renda do trabalho explica boa parte da concentração medida no país, assunto do nosso panorama da desigualdade no Brasil. Para situar as correntes citadas aqui, vale o guia das escolas econômicas. Os números atualizados de ocupação e desocupação saem da PNAD Contínua, do IBGE, e das análises do Ipea.
Perguntas frequentes
É a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE. Ela mede, entre outras coisas, quantas pessoas estão ocupadas, desocupadas e na informalidade. É a principal fonte oficial para acompanhar o mercado de trabalho brasileiro.
Pela leitura institucional, porque formalizar um trabalhador costuma ser caro e burocrático. Quando o custo de operar dentro das regras é alto, parte da economia opera por fora delas. É o tema de um texto específico deste conjunto.
Depende da escola. O modelo neoclássico tradicional prevê que um piso acima do equilíbrio reduz o emprego; a evidência empírica recente, premiada com o Nobel de 2021, encontrou efeitos muito menores do que a teoria supunha. Tratamos disso em detalhe em outro texto.
O trabalho é a principal fonte de renda da maioria das famílias. Quem está na informalidade ganha menos e fica sem proteção, o que alimenta a concentração de renda. Por isso o mercado de trabalho é um dos principais canais da desigualdade no país.
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Continue entendendo
De Menger a Hayek, a escola austríaca parte de uma só intuição: o conhecimento que a economia precisa está disperso em milhões de cabeças, e nenhum planejador o reúne.
Nenhum rei decretou o dinheiro. Carl Menger mostrou como ele emergiu da prática de milhões de pessoas, a partir das mercadorias mais fáceis de trocar, num efeito bola de neve.
A teoria econômica supôs por décadas um agente perfeitamente racional. A economia comportamental mostrou que erramos de modo previsível, e que o previsível pode ser corrigido.