Por que perder dói mais do que ganhar agrada?
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A teoria do livro-texto diz que um piso mais alto custa empregos. A evidência empírica de Card e Krueger, premiada com o Nobel de 2021, mostrou que a realidade é mais sutil.
O modelo neoclássico básico de oferta e demanda dá uma resposta direta: se o governo fixa um salário mínimo acima do valor que o mercado pagaria, contratar fica mais caro, as empresas demandam menos trabalho e parte das pessoas fica sem emprego. É a mesma lógica de qualquer preço mínimo: acima do equilíbrio, sobra oferta. Por décadas, essa previsão foi tratada quase como lei, e virou o principal argumento contra reajustes do piso.
No início dos anos 1990, os economistas David Card e Alan Krueger resolveram testar a previsão com dados reais. Quando o estado de Nova Jersey elevou seu salário mínimo e a vizinha Pensilvânia não, eles compararam o emprego em redes de fast-food dos dois lados da fronteira. O método ficou conhecido como diferença em diferenças: compara a variação no grupo afetado com a variação num grupo parecido que não foi afetado, isolando o efeito da política. O resultado contrariou o consenso: o emprego não caiu em Nova Jersey, e em alguns casos até subiu. Por esse tipo de contribuição empírica, Card recebeu o Nobel de Economia de 2021.
Como explicar que aumentar o piso não destrua empregos? Uma resposta está no conceito de monopsônio, a situação em que poucos empregadores dominam a contratação numa região ou setor. A economista Joan Robinson mostrou, ainda nos anos 1930, que um empregador com esse poder paga menos do que pagaria num mercado competitivo. Nesse caso, um salário mínimo bem calibrado pode corrigir esse poder e até aumentar o emprego, em vez de reduzi-lo. O comitê do Nobel de 2021 destacou justamente que o mercado de trabalho real se afasta do modelo de concorrência perfeita.
A lição não é que o salário mínimo pode subir sem limite: reajustes muito acima da produtividade podem, sim, empurrar gente para a informalidade ou para o desemprego. A lição é mais sutil: o efeito depende do mercado concreto, e precisa ser medido, não decretado pela teoria. No Brasil, o piso também serve de âncora para aposentadorias e benefícios, o que amplia seu peso. Como o salário mínimo influencia a renda dos mais pobres, ele conversa diretamente com a desigualdade de renda. A virada metodológica que permitiu medir tudo isso é a mesma que avaliou a transferência de renda: testar políticas com dados, e não no grito.
Perguntas frequentes
Não. A teoria neoclássica tradicional prevê que sim, mas a evidência empírica, como o estudo de Card e Krueger premiado com o Nobel de 2021, mostra que o efeito costuma ser muito menor do que se supunha, e às vezes inexistente. Depende do mercado concreto e do tamanho do reajuste.
É uma técnica para isolar o efeito de uma política. Compara-se a variação no grupo afetado com a variação num grupo parecido que não foi afetado. Card e Krueger usaram estados vizinhos: um que elevou o salário mínimo e outro que não, observando o emprego antes e depois nos dois.
É um mercado de trabalho em que poucos empregadores dominam a contratação, o que lhes dá poder para pagar menos do que pagariam sob concorrência. Nesse caso, um salário mínimo bem calibrado pode corrigir esse poder e até aumentar o emprego.
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