No dia a dia
O que é, em palavras simples
Em outubro de 1929, a Bolsa de Nova York despencou. O crash em si durou dias, mas o que veio depois durou mais de uma década: a Grande Depressão. Bancos quebraram, fábricas fecharam, o desemprego nos Estados Unidos chegou a cerca de um quarto da força de trabalho e os preços caíram ano após ano. Não foi uma recessão comum, foi o momento em que o mundo duvidou se o capitalismo se recuperaria sozinho, e em que o papel do Estado na economia foi repensado de cima a baixo.
No seu bolso
Três leituras da mesma quebra
Keynesiana
- ›Faltou demanda
- ›Estado deve gastar para preencher o vazio
Monetarista
- ›O Fed deixou a moeda encolher
- ›Banco central falhou em socorrer os bancos
Austríaca
- ›Correção de um boom de crédito artificial
- ›Intervir só prolonga o ajuste
Indo mais fundo
Como funciona
O que aconteceu
Os anos 1920 nos Estados Unidos foram de euforia e crédito fácil, com muita gente comprando ações com dinheiro emprestado. Quando a confiança virou, a queda das ações destruiu patrimônio, travou o consumo e derrubou bancos, que perderam depósitos e cortaram empréstimos. A retração se alimentava: menos crédito, menos gasto, mais demissões, menos gasto ainda.
Por que durou tanto
A deflação transformou a crise em armadilha. Com preços e salários caindo, as dívidas (fixas em valor) ficavam relativamente maiores, e devedores quebravam em cadeia. O padrão-ouro, então vigente, amarrava as mãos dos governos: defender a paridade da moeda exigia juros altos justamente quando a economia precisava do contrário. Os países que abandonaram o ouro mais cedo se recuperaram antes.
Visão técnica
Visão técnica
A Grande Depressão é o evento que mais separou as escolas econômicas, e por isso é o melhor laboratório para entender suas diferenças. Para a tradição keynesiana, a causa foi a insuficiência de demanda agregada: poupança em excesso e investimento de menos travaram a economia num equilíbrio de subemprego do qual ela não sairia sozinha, daí a necessidade de gasto público para preencher o vazio. John Maynard Keynes, que advertia contra a passividade de esperar o mercado se ajustar a longo prazo, resumira anos antes o espírito da urgência: "No longo prazo, estaremos todos mortos" (A Tract on Monetary Reform, 1923).
Para os monetaristas, a leitura é quase oposta: Milton Friedman e Anna Schwartz, em A Monetary History of the United States (1963), argumentaram que a recessão só virou Depressão porque o Federal Reserve permitiu que a quantidade de moeda encolhesse cerca de um terço, deixando os bancos quebrarem em vez de socorrê-los. A culpa não foi do mercado, foi do banco central. Já a escola austríaca (Hayek, Mises) via o crash como a correção inevitável de um boom de crédito artificial dos anos 1920: dolorosa, mas necessária, e prolongada justamente pelas tentativas de impedir o ajuste. Três diagnósticos, três remédios, e um debate que ressurge em toda crise grande desde então.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir o crash com a Depressão
Reduzir tudo a "ganância" ou "especulação"
Veja também
Conceitos conectados
Banco Central
A autoridade que cuida da moeda de um país: controla a inflação pela taxa de juros, zela pelo sistema financeiro e emite o dinheiro.
Deflação
A queda generalizada e persistente dos preços: parece bom para o consumidor, mas pode prender a economia numa espiral de retração.
John Maynard Keynes
O economista inglês (1883-1946) que respondeu à Grande Depressão: mercados podem travar em desemprego, e cabe à política econômica sustentar a demanda. Fundou a macroeconomia.
Milton Friedman
O economista americano (1912-2006) que liderou a contrarrevolução ao keynesianismo: a inflação como fenômeno monetário, a taxa natural de desemprego e a defesa do mercado.
Friedrich Hayek
O austríaco (1899-1992) que fez do conhecimento o centro da economia: nenhum planejador reúne a informação que os preços coordenam. Rival de Keynes, Nobel de 1974.
Ludwig von Mises
O austríaco (1881-1973) que, em 1920, lançou o desafio que assombrou o século: sem preços de mercado, a economia planejada não tem como calcular o que produzir. Mestre de Hayek e teórico da ação humana.
Padrão-ouro
O regime em que o valor da moeda era atrelado a uma quantidade fixa de ouro: uma disciplina monetária rígida que Keynes apelidou de "relíquia bárbara" e que o mundo foi abandonando nas crises.
Perguntas frequentes
O que causou a crise de 1929? +
O gatilho foi o estouro de uma bolha de ações inflada por crédito nos anos 1920. Mas o que a transformou na Grande Depressão foi a combinação de deflação, quebras bancárias em cadeia e a rigidez do padrão-ouro, que impedia os governos de estimular a economia. As escolas econômicas divergem sobre qual fator pesou mais.
Como o mundo saiu da Grande Depressão? +
A recuperação veio aos poucos, com o abandono do padrão-ouro (que liberou a política monetária), programas de gasto público e, de forma decisiva, a mobilização econômica da Segunda Guerra Mundial. Os países que largaram o ouro mais cedo voltaram a crescer antes.
Fontes e referências
- Primária The Great Depression - Federal Reserve History
- Acadêmica A Monetary History of the United States, 1867-1960 - Milton Friedman e Anna Schwartz (1963)
- Acadêmica A Tract on Monetary Reform - John Maynard Keynes (1923)
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