No dia a dia
O que é, em palavras simples
Em 1920, quando metade dos intelectuais do mundo sonhava com uma economia totalmente planejada, Ludwig von Mises fez uma pergunta simples e devastadora: sem mercado, como o planejador saberia o que vale a pena produzir? A resposta dele foi que não saberia, e não por falta de boa vontade ou de computadores. O problema é mais fundo: os preços que surgem da troca livre não são apenas etiquetas, são a única forma de comparar o incomparável, saber se é melhor fazer um trilho de aço ou mil panelas de alumínio com o mesmo metal. Tire o mercado, e o planejador fica cego, decidindo no escuro. Mises chamou isso de problema do cálculo econômico, e por décadas ninguém do outro lado conseguiu respondê-lo de forma convincente.
No seu bolso
O argumento do cálculo
Mercado
- ›Propriedade privada dos meios
- ›Troca gera preços
- ›Preço permite calcular custo
Planejamento central
- ›Sem troca dos meios de produção
- ›Sem preços de referência
- ›Cálculo racional impossível
Indo mais fundo
Como funciona
O desafio de 1920
O ensaio O Cálculo Econômico na Comunidade Socialista (1920), depois ampliado no livro Socialismo (1922), não argumenta que o socialismo seja injusto ou ineficiente: argumenta que ele é impossível como sistema racional. Sem propriedade privada dos meios de produção, não há troca desses meios; sem troca, não há preços para eles; sem preços, não há como calcular custos e comparar alternativas. O planejador mais bem-intencionado e mais bem-informado do mundo ainda assim não teria a bússola. O termo cálculo econômico deste dicionário detalha o mecanismo, e o argumento abriu o longo debate do cálculo socialista.
A ciência da ação humana
Mises construiu toda a economia sobre um único alicerce, que chamou de praxeologia: a ciência da ação humana, deduzida do fato evidente de que as pessoas agem com propósito, escolhendo meios para alcançar fins. Daí, por raciocínio lógico e não por estatística, ele derivava as leis econômicas. Human Action (Ação Humana, 1949) é a catedral desse método, um tratado que tenta reconstruir a economia inteira a partir do indivíduo que escolhe.
Visão técnica
A leitura da escola Austríaca
O legado de Mises se mede menos em prêmios (nunca recebeu o Nobel, criado em 1969, e morreu em 1973) e mais em discípulos e em vingança histórica. Foi o mestre de Friedrich Hayek, que levaria a intuição do cálculo para o terreno do conhecimento disperso e ganharia o Nobel de 1974, e influenciou de Lionel Robbins a Murray Rothbard. O debate do cálculo, dado por encerrado nos anos 1940 a favor dos socialistas de mercado como Oskar Lange (que propunha simular preços por tentativa e erro), foi reaberto pela própria história: o colapso das economias planejadas e a publicação dos arquivos soviéticos, com sua escassez crônica e seu desperdício, devolveram peso ao argumento original. A leitura honesta, em atribuição indireta fiel à obra, separa o Mises analista do Mises polemista: a tese do cálculo é uma contribuição teórica que mesmo críticos respeitam, ao passo que seu liberalismo radical e seu método puramente dedutivo (que dispensa testes empíricos) seguem disputados dentro e fora da escola austríaca. Emigrado da Europa em guerra, lecionou na Universidade de Nova York de uma cadeira financiada por admiradores, à margem da academia mainstream que matematizava a economia que ele fazia com palavras. No grafo deste pilar, Mises é o vértice de onde partem três triângulos: o cálculo (com Lange e Hayek), a escola austríaca (com Menger e Böhm-Bawerk) e os ciclos (com a teoria do crédito que Hayek formalizaria).
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir o argumento do cálculo com "o socialismo é ineficiente"
Tratar a praxeologia como consenso
Veja também
Conceitos conectados
Escola austríaca
A tradição de Menger, Mises e Hayek: a economia parte da ação individual, o valor é subjetivo e o mercado funciona como um processo de descoberta de informação dispersa.
Cálculo econômico
O argumento de Ludwig von Mises: sem preços de mercado, formados pela propriedade privada e pela troca, não há como calcular racionalmente o que produzir e com quais recursos.
Friedrich Hayek
O austríaco (1899-1992) que fez do conhecimento o centro da economia: nenhum planejador reúne a informação que os preços coordenam. Rival de Keynes, Nobel de 1974.
Perguntas frequentes
Quem foi Ludwig von Mises? +
Economista austríaco (1881-1973), figura central da escola austríaca e mestre de Hayek. É autor do argumento do cálculo econômico (1920), que sustenta a impossibilidade do planejamento racional sem preços de mercado, e do tratado Ação Humana (1949), que reconstrói a economia a partir da ação humana com propósito.
O que é o problema do cálculo econômico de Mises? +
A tese de que, sem propriedade privada e troca dos meios de produção, não existem preços para eles; e sem preços, o planejador não tem como comparar alternativas e calcular custos. O cálculo racional da economia ficaria impossível, não apenas difícil.
Fontes e referências
- Fonte Ludwig von Mises, Concise Encyclopedia of Economics - Econlib (2008)
- Acadêmica Ação Humana (Human Action) - Ludwig von Mises (1949)
- Acadêmica O Cálculo Econômico na Comunidade Socialista - Ludwig von Mises (1920)
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