No dia a dia
O que é, em palavras simples
As grandes tecnologias (a ferrovia, o automóvel, a internet) parecem chegar de surpresa, mas Carlota Perez encontrou nelas um padrão que se repete há mais de dois séculos. Toda revolução tecnológica, mostra ela, passa por duas fases. Primeiro vem a instalação: a nova tecnologia surge, o capital financeiro se empolga, despeja dinheiro nela e infla uma bolha, que estoura (as ferrovias britânicas, a bolha das pontocom). O estouro parece um fracasso, mas é parte do processo: ele baixa os preços e espalha a tecnologia. Depois, se a sociedade ajustar suas regras e instituições, vem a fase de implantação, a era de ouro, em que a tecnologia se difunde por toda a economia e melhora a vida de muita gente. A crise no meio do caminho, nessa leitura, não é o fim, é a dobradiça entre a febre especulativa e o uso produtivo.
No seu bolso
-
01
Irrupção
A nova tecnologia surge
-
02
Frenesi e bolha
O capital financeiro se empolga e infla
-
03
Crise (a dobradiça)
O estouro espalha a tecnologia
-
04
Era de ouro
Difusão ampla, se as instituições ajudarem
Indo mais fundo
Como funciona
Paradigmas tecno-econômicos
Em Technological Revolutions and Financial Capital (2002), Perez sistematizou a ideia de paradigma tecno-econômico: cada revolução (a do vapor, a do aço e da eletricidade, a do petróleo e do automóvel, a da informação) não traz só máquinas novas, mas um novo bom senso sobre como organizar empresas, trabalho e consumo. A difusão desse paradigma segue um ciclo de cerca de meio século, dividido pela crise financeira que separa a fase de instalação (liderada pelo capital financeiro e pela especulação) da fase de implantação (liderada pelo capital produtivo e pela difusão ampla).
O papel da política
O ponto político de Perez é decisivo e otimista: a passagem da bolha para a era de ouro não é automática. Depende de a sociedade construir as instituições que redirecionam o capital da especulação para o investimento produtivo e que distribuem os ganhos. A era de ouro do pós-guerra, por exemplo, exigiu o Estado de bem-estar, a regulação financeira e o consumo de massa. Sem esse ajuste, a tecnologia existe, mas seu potencial se desperdiça.
Visão técnica
A leitura da escola Evolucionária
Perez combina a tradição de Schumpeter com a de Christopher Freeman, de quem foi colaboradora, em atribuição indireta fiel à obra. De Schumpeter vem a destruição criativa e a inovação como motor; de Freeman, a ideia de que a tecnologia se difunde através de sistemas e instituições, não isoladamente. A originalidade dela é casar o ciclo tecnológico com o ciclo financeiro: mostrar que a euforia especulativa não é só um erro a evitar, mas o mecanismo, custoso, pelo qual o capital financia o que ninguém sabe ainda se vai dar certo, e que a tarefa da política é colher o que a bolha plantou. Sua leitura ofereceu uma narrativa esperançosa para a era digital: se a bolha das pontocom de 2000 e a crise de 2008 marcaram o fim da instalação da revolução da informação, então a era de ouro dela ainda estaria por vir, condicionada a um novo arranjo institucional (verde e digital, na sua aposta mais recente). A crítica de praxe questiona o grau de regularidade do padrão (cada revolução tem singularidades que um esquema de meio século pode achatar) e o risco de determinismo. Mas a estrutura de Perez virou ferramenta de governos e investidores para pensar política industrial e de inovação, e dialoga diretamente com Mariana Mazzucato sobre o papel do Estado em moldar a direção da mudança técnica. No grafo deste pilar, Perez liga Schumpeter e a destruição criativa à bolha especulativa e ao ciclo.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Ver a bolha apenas como erro a evitar
Achar que a era de ouro vem sozinha
Veja também
Conceitos conectados
Destruição criativa
O conceito de Joseph Schumpeter: o capitalismo se renova destruindo o que existe, quando inovações varrem produtos, empresas e empregos antigos para criar novos.
Bolha especulativa
A alta de preços que se alimenta de si mesma: compra-se porque sobe e sobe porque se compra, até o dia em que a música para. Das tulipas ao subprime, o roteiro se repete.
Joseph Schumpeter
O austríaco (1883-1950) que pôs o empreendedor e a inovação no centro do capitalismo: o sistema avança destruindo o velho, e o monopólio de hoje é a inovação de ontem.
Perguntas frequentes
O que é um paradigma tecno-econômico? +
O conceito de Carlota Perez para o conjunto de tecnologias e de novas formas de organizar empresas, trabalho e consumo que cada revolução tecnológica traz. Sua difusão segue um ciclo de cerca de meio século, dividido por uma crise financeira entre a fase de instalação e a de implantação.
Por que toda revolução tecnológica tem uma bolha? +
Porque, na fase de instalação, o capital financeiro se empolga com a novidade e infla os preços, até estourar. Para Perez, esse estouro, embora custoso, espalha a tecnologia e prepara a era de ouro seguinte, desde que as instituições redirecionem o capital para o uso produtivo.
Fontes e referências
- Fonte Carlota Perez (site oficial) - Carlota Perez (2002)
- Acadêmica Technological Revolutions and Financial Capital - Carlota Perez (2002)
Sua conta gratuita
Salve termos, marque trechos e acompanhe seu progresso.
Crie uma conta grátis para favoritar conceitos, guardar trechos e ganhar pontos enquanto aprende economia.
Receba o dicionário no e-mail
Um conceito de economia explicado por semana.
Confirmação por e-mail (double opt-in). Sem spam, cancele quando quiser.