No dia a dia
O que é, em palavras simples
Numa bolha, o preço de um ativo descola de qualquer conta razoável do que ele vale e passa a subir por um único motivo: está subindo. Cada alta atrai compradores novos, que validam a alta anterior e financiam a próxima. Quem aponta o exagero passa por tolo enquanto os vizinhos enriquecem no papel. O roteiro tem séculos: tulipas na Holanda de 1637, ações em 1929, imóveis americanos em 2008. O final também: quando faltam compradores novos, a escada vira tobogã, e a descoberta de quem nadava sem roupa é coletiva e instantânea.
No seu bolso
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01
Deslocamento
Inovação ou mudança justifica otimismo
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02
Boom com crédito
Alavancagem financia a alta que se retroalimenta
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03
Euforia
Compra-se porque sobe; o preço vira o argumento
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04
Pânico
Sem compradores novos, a escada vira tobogã
Indo mais fundo
Como funciona
A anatomia da bolha
O historiador Charles Kindleberger destilou o padrão em fases: um deslocamento (inovação ou mudança real que justifica otimismo inicial), o boom alimentado por crédito farto, a euforia em que a valorização vira assunto de festa e o critério de preço desaparece, a fase de realização em que os mais espertos saem, e o pânico. O combustível constante é o crédito: bolhas grandes são, quase sempre, bolhas alavancadas, e por isso o estouro contamina os bancos e a economia real.
Por que gente racional embarca
O desconforto teórico é que embarcar pode ser individualmente racional: se o preço vai subir mais antes de cair, ganhar a alta e sair antes do fim domina ficar de fora, o raciocínio da teoria do mais tolo (sempre haverá alguém para comprar de você). Keynes descreveu o mecanismo no famoso concurso de beleza dos mercados: não se aposta no ativo que se julga melhor, mas no que se acha que os outros vão achar melhor. Quando todos jogam esse jogo, o fundamento vira detalhe.
Visão técnica
A leitura da escola Keynesiana
O alerta clássico sobre a especulação que devora o fundamento é de Keynes, no capítulo 12 da Teoria Geral:
"Os especuladores podem não causar dano enquanto forem bolhas num fluxo constante de empreendimento. Mas a situação torna-se séria quando o empreendimento se converte em bolha num redemoinho de especulação." (John Maynard Keynes, Teoria Geral, 1936)
Uma ressalva de rótulo: classificamos o termo como keynesiano pela linhagem que vai de Keynes a Hyman Minsky, economista pós-keynesiano cuja hipótese da instabilidade financeira é a teoria endógena das bolhas: a estabilidade gera confiança, a confiança gera alavancagem crescente (das finanças protegidas às especulativas e às Ponzi, em sua taxonomia), até que o sistema fica frágil o bastante para que um choque pequeno detone a deflação de dívidas, o momento Minsky. A síntese histórica de Kindleberger e a evidência experimental (bolhas emergem até em laboratório, com valor fundamental conhecido, nos experimentos de Vernon Smith) completam o caso de que a bolha é fenômeno recorrente, não anedota.
O contraponto está registrado no termo da hipótese dos mercados eficientes: para Fama, a bolha é conceito mal definido ex ante, identificável apenas em retrospecto, e episódios famosos admitem leituras de fundamento. O meio-termo empírico moderno, de Shiller (medidas de exuberância como preços sobre lucros de longo prazo) à literatura de crédito (Jordà, Schularick e Taylor: bolhas alavancadas em imóveis são as que produzem as recessões mais profundas), orienta a política: o debate entre furar bolhas com juros ou limpar depois migrou, após 2008, para a regulação macroprudencial, limites de alavancagem e capital contracíclico, menos por convicção de identificar bolhas e mais pela certeza de que as financiadas a dívida são as que derrubam economias. Para o investidor, a heurística honesta: ninguém toca o sino no topo, e a defesa não é prever o estouro, é não depender de sair antes dele.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Achar que bolhas são óbvias em tempo real
Ignorar o papel do crédito
Veja também
Conceitos conectados
Efeito manada
A tendência de imitar o que a maioria faz, em vez de decidir pela própria análise, que nos mercados infla bolhas na alta e aprofunda pânicos na baixa.
Animal spirits
O termo de Keynes para o impulso espontâneo, mais emocional que calculado, que leva empresas a investir diante de um futuro que nenhuma conta consegue prever.
Adam Smith
O filósofo escocês (1723-1790) que fundou a economia moderna: em A Riqueza das Nações, mostrou a ordem que emerge quando cada um busca o próprio interesse sob concorrência.
John Maynard Keynes
O economista inglês (1883-1946) que respondeu à Grande Depressão: mercados podem travar em desemprego, e cabe à política econômica sustentar a demanda. Fundou a macroeconomia.
Robert Shiller
O americano (1946-) que provou que os mercados oscilam mais do que os fundamentos permitem: exuberância irracional, índices de imóveis e narrativas. Nobel de 2013.
Hyman Minsky
O americano (1919-1996) que morreu marginal e voltou manchete: a instabilidade financeira endógena, o momento Minsky e o Keynes que a síntese havia aparado.
Charles Kindleberger
O americano (1910-2003) que catalogou quatro séculos de bolhas e quebras, ajudou a desenhar o Plano Marshall e deixou a tese que ainda assombra a geopolítica: o mundo precisa de um estabilizador.
Conceito oposto
Conceitos conectados
Perguntas frequentes
O que é uma bolha especulativa? +
É a alta de preços que se alimenta de si mesma: o ativo sobe porque atrai compradores, que o fazem subir mais, até o preço descolar de qualquer fundamento. Quando faltam compradores novos, o movimento reverte em pânico. O crédito farto é o combustível típico das grandes bolhas.
Dá para saber que é bolha antes de estourar? +
Com certeza, não: toda bolha carrega uma narrativa plausível, e os céticos erram o momento por anos. Sinais de alerta existem (alavancagem crescente, preço como único argumento, euforia popular), mas a defesa prática é não depender de sair antes do estouro.
Fontes e referências
- Acadêmica Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (capítulo 12) - John Maynard Keynes (1936)
- Acadêmica Manias, Pânicos e Crises - Charles Kindleberger (1978)
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