No dia a dia
O que é, em palavras simples
Abra o smartphone e siga o dinheiro: internet, GPS, tela sensível ao toque, assistente de voz, cada tecnologia fundadora nasceu de financiamento público, de agências militares a institutos de saúde, décadas antes de virar produto. A constatação organiza O Estado Empreendedor (2013), de Mariana Mazzucato: o Estado não é só o corretor de falhas do manual, é investidor de primeira hora nos riscos que nenhum capital privado toca, e a narrativa que o pinta como atrapalhador prepara o bolso público para socializar perdas e privatizar ganhos. Da SPRU de Sussex (a linhagem de Freeman registrada neste pilar), ela virou a voz mais influente da política industrial contemporânea.
No seu bolso
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01
SPRU, Sussex
A linhagem da economia da inovação
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02
Estado Empreendedor (2013)
O investidor de primeira hora revelado
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03
O Valor de Tudo (2018)
Criação contra extração de valor
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04
Missão Economia (2021)
O modelo Apollo para a transição verde
Indo mais fundo
Como funciona
Do Estado empreendedor às missões
A sequência da obra constrói o programa. O Estado Empreendedor documenta o financiador paciente por trás das revoluções tecnológicas (e pergunta: se o público assume o risco da primeira hora, por que não partilha o retorno?). O Valor de Tudo (2018) reabre a pergunta clássica: quem cria valor e quem só o extrai, com a financeirização no banco dos réus. E Missão Economia (2021) converte tudo em método: em vez de subsidiar setores, o Estado define missões (o modelo Apollo: ir à Lua) que puxam inovação de muitos setores ao mesmo tempo, com a transição verde como a missão da geração.
A influência e o contraditório
Poucas economistas vivas têm tanta digital em governos: missões na política de inovação europeia, conselhos de organismos internacionais a ministérios (Brasil incluído, no debate recente de política industrial). E poucas atraem crítica tão sistemática, registrada pelo protocolo deste portal: os casos de sucesso são selecionados (os fracassos públicos não entram na conta, o viés de seleção do nosso termo), a fronteira entre financiar pesquisa básica (consenso) e escolher tecnologias (disputa) fica borrada, e a escolha pública lembra que missões também são capturáveis. A réplica dela: o risco de capturar não some quando o Estado se ausenta, só muda de captor.
Visão técnica
A leitura da escola Evolucionária
O programa mazzucatiano, em atribuição indireta fiel à obra, reposiciona o Estado na gramática da inovação: não corretor ex-post de falhas de mercado, mas criador e modelador de mercados (market-shaping), assumindo a incerteza radical da primeira hora que o capital privado, por construção, evita, a tese documentada nos estudos de caso (as cadeias tecnológicas do iPhone, a pesquisa farmacêutica básica) e teorizada na linhagem que este pilar mapeia: Schumpeter pela inovação, Nelson e Winter pelas capacidades, Keynes pela incerteza, Polanyi pelos mercados como construções. As proposições operacionais derivadas: portfólios públicos de risco com participação nos retornos (royalties, equity, condicionalidades de reinvestimento), bancos públicos de desenvolvimento como investidores pacientes (o BNDES entra no debate dela), e as missões como mecanismo de coordenação que define direção sem ditar solução.
O contraditório acadêmico é parte do termo: a crítica empírica (McCloskey e outros) acusa seleção de casos e subestimação dos fracassos públicos; a crítica de desenho (a literatura de escolha pública e a experiência latino-americana de campeões nacionais) lembra que a capacidade estatal que o modelo exige é exatamente o que falta onde ele é mais vendido; e a réplica do programa aponta os contraexemplos institucionais (DARPA, os bancos de desenvolvimento bem governados) como prova de que capacidade se constrói, com desenho de governança no lugar de fé. Para o leitor brasileiro, o debate é imediato: a nova política industrial nacional fala o vocabulário de missões, e os termos vizinhos (subsídio, escolha pública, guerra fiscal, privatização) fornecem o kit de perguntas que qualquer missão séria deve responder: adicionalidade, condicionalidade, avaliação e porta de saída. No grafo, Mazzucato fecha a linhagem Sussex iniciada em Nelson e Winter e reabre, com instrumentos do século 21, a pergunta de Smith sobre o que o Estado deve fazer.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Ler a tese como cheque em branco ao Estado
Ignorar o viés de seleção dos casos
Veja também
Conceitos conectados
Economia mista
O arranjo que combina mercado e Estado na mesma economia: a iniciativa privada produz, o setor público regula, provê e redistribui. É o sistema de praticamente todo o mundo real.
Joseph Schumpeter
O austríaco (1883-1950) que pôs o empreendedor e a inovação no centro do capitalismo: o sistema avança destruindo o velho, e o monopólio de hoje é a inovação de ontem.
Nelson e Winter
A dupla americana que refundou Schumpeter com Darwin: firmas operam por rotinas, inovam buscando e o mercado seleciona. A bíblia evolucionária é de 1982.
Perguntas frequentes
O que diz a tese do Estado empreendedor? +
Que o Estado historicamente financiou a primeira hora das revoluções tecnológicas (internet, GPS, biotecnologia), assumindo riscos que o capital privado evita, e que a narrativa do Estado atrapalhador prepara a socialização de perdas com privatização de ganhos. Mazzucato propõe que o público partilhe também os retornos.
O que é a economia de missões? +
O método de Missão Economia (2021): em vez de subsidiar setores, definir missões concretas (o modelo Apollo) que puxam inovação de muitos setores com direção clara e solução aberta, a transição verde como exemplo maior. As críticas pedem o kit de governança: adicionalidade, avaliação e porta de saída.
Fontes e referências
- Acadêmica O Estado Empreendedor - Mariana Mazzucato (2013)
- Acadêmica Missão Economia - Mariana Mazzucato (2021)
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