Variedades de capitalismo à prova da história: resenha de The Evolution of Economic Systems, de Barry Clark
O manual de Barry Clark percorre dois séculos e doze países para mostrar que não existe capitalismo no singular: existem capitalismos, periodizados e comparáveis. Resenha crítica com método declarado, diálogo com o nosso dicionário e referências ABNT.
CLARK, Barry. The evolution of economic systems: varieties of capitalism in the global economy. New York: Oxford University Press, 2016. E-book (ISBN 9780190260606; edição impressa: ISBN 9780190260590).
O autor: Barry Stewart Clark, doutor pela University of Massachusetts-Amherst, é professor emérito e ex-chefe do Departamento de Economia da University of Wisconsin-La Crosse, com carreira dedicada ao ensino de economia política comparada. A obra, publicada originalmente em dezembro de 2015 e catalogada em 2016, sintetiza para o nível de graduação as literaturas de economia política comparada, variedades de capitalismo, velha e nova economia institucional, sociologia econômica e sistemas sociais de produção.
Nota de método desta resenha
Transparência antes do juízo, como manda o protocolo da estante: esta é uma resenha descritivo-crítica elaborada a partir da estrutura integral documentada da obra (sumário completo, descrição e materiais do editor, verificados na página da Oxford University Press e no Oxford Learning Link), da recepção editorial registrada e da literatura acadêmica que o livro declaradamente sintetiza, em diálogo com o acervo deste portal.
O lugar da obra: entre Hall-Soskice e a sala de aula
A literatura de variedades de capitalismo tem um problema de porta de entrada. A obra-marco do campo, o volume organizado por Peter Hall e David Soskice em 2001, é uma coletânea de pesquisa: poderosa, técnica e impenetrável para quem chega. Os manuais de economia comparada tradicionais, por sua vez, envelheceram presos à comparação que a história aposentou: capitalismo de um lado, socialismo soviético do outro, como se a queda do Muro tivesse encerrado a variedade dos sistemas em vez de revelá-la.
O livro de Clark ocupa exatamente esse vazio: é o manual que pega a pergunta sofisticada do campo (por que os capitalismos nacionais diferem, e por que as diferenças persistem?) e a entrega em arquitetura de curso de graduação, com doze países, dois séculos e uma tipologia operacional. A aposta pedagógica declarada pelo editor resume o programa: uma exploração dos efeitos da política e da cultura sobre a natureza dos sistemas econômicos nacionais. Política e cultura, note-se, antes da técnica: o livro é economia política comparada sem pedir desculpas, na contramão dos manuais que tratam instituições como atrito.
Para o leitor deste portal, a obra conversa diretamente com o termo variedades de capitalismo do nosso dicionário, e o excede no escopo: onde Hall e Soskice contrastam dois tipos ideais (economias liberais e coordenadas de mercado), Clark historiciza, períodiza e multiplica os tipos, como se verá.
A arquitetura: três dimensões e uma régua honesta
A primeira parte do livro (capítulos 1 a 5) monta a moldura analítica, e é nela que mora a contribuição conceitual mais interessante da obra. Clark organiza todo sistema econômico em três dimensões coordenadoras: o mercado, o Estado e a comunidade, dedicando um capítulo às forças e fraquezas potenciais de cada uma.
As duas primeiras dimensões são o feijão com arroz do debate (o eixo mercado-Estado que organiza do nosso termo de economia mista ao de economia planificada). A terceira é a escolha distintiva: a comunidade como mecanismo coordenador próprio, com história, forças e fraquezas específicas, e capítulo inteiro (o quinto). É a dimensão que a tradição de Elinor Ostrom documentou nos comuns, que Karl Polanyi via enraizando toda economia real, e que praticamente nenhum manual de sistemas comparados trata como categoria de primeira classe. Ao dá-la aos estudantes de graduação como terço constitutivo de qualquer sistema, Clark faz mais pelo pluralismo do que muitos tratados militantes.
O capítulo 2 completa a moldura com a pergunta que os manuais costumam esconder atrás de uma única função de bem-estar: avaliar sistemas econômicos exige critérios, e os critérios são plurais. O livro discute como sistemas prosperam e como fracassam, assumindo que eficiência, equidade, estabilidade e liberdade não se reduzem umas às outras, a mesma lição que o nosso pilar de escolas do pensamento ensina pelo caminho das correntes.
O coração do livro: capitalismos no plural, períodizados
A segunda parte (capítulos 6 a 13) é o coração da obra e a razão desta resenha: oito sistemas nacionais (Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Suécia, Rússia, China e Japão), cada um narrado em períodos institucionais datados, com a transição entre períodos como objeto central. A tipologia que emerge da periodização é o instrumento mais útil do livro:
Capitalismo competitivo: o mercado descentralizado do século 19 (Estados Unidos 1815-1896; Reino Unido 1800-1932), o mais próximo do tipo ideal da concorrência;
Capitalismo organizado: a coordenação por grandes bancos, cartéis e associações (Alemanha 1946-1998; Japão 1868-1934; Suécia 1870-1931; Estados Unidos 1897-1932);
Capitalismo regulado: o New Deal americano e seus herdeiros (Estados Unidos 1933-1979);
Capitalismo de bem-estar: a proteção social como eixo do sistema (Suécia 1932-1991; Reino Unido 1933-1978; França 1983-1995);
Capitalismo planejado: o planejamento indicativo dirigindo o investimento privado (França 1945-1982; Japão 1946-1990);
Capitalismo estatal: o Estado como acionista e estrategista (França 1815-1944; Alemanha 1871-1932; Rússia desde 1992; China desde 1979);
Capitalismo neoliberal: a reversão pró-mercado pós-1980 (Estados Unidos 1980-2008; Reino Unido 1979-1996).
Duas decisões de periodização merecem registro crítico, pelo que revelam de coragem analítica. Primeira: o fascismo aparece como período econômico dos sistemas alemão (1933-1945) e japonês (1935-1945), tratado como configuração institucional analisável, e não como parêntese inominável, escolha rara em manuais e necessária para entender como sistemas mudam sob coerção. Segunda: Rússia e China pós-comunistas são classificadas como capitalismo estatal, recusando tanto o triunfalismo da transição para o mercado quanto o rótulo cômodo de socialismo de mercado, e antecipando o debate sobre o capitalismo político chinês que dominaria a década seguinte.
O efeito pedagógico da periodização comparada é poderoso: o mesmo país atravessa três ou quatro capitalismos em dois séculos, e a pergunta deixa de ser qual sistema é melhor para virar o que faz um sistema durar, e o que o faz mudar: guerras, depressões, coalizões distributivas, ideias. É a dependência de trajetória de Douglass North e o duplo movimento de Polanyi convertidos em narrativa de curso, e o leitor do nosso termo de variedades de capitalismo encontrará aqui a profundidade histórica que o tipo ideal de Hall e Soskice, deliberadamente estático, não oferece.
Linha do tempo
1815-1896
EUA: capitalismo competitivo
O mercado descentralizado do século 19, antes das grandes corporações.
1897-1932
EUA: capitalismo organizado
Trustes, fusões e a primeira era das corporações gigantes.
1933-1979
EUA: capitalismo regulado
New Deal, sindicatos fortes e o pacto do pós-guerra.
1980-2008
EUA: capitalismo neoliberal
Desregulação, finanças no comando, até a crise de 2008.
2008-?
Uma nova direção?
A pergunta com que Clark encerra cada capítulo nacional.
“
Uma exploração atual e acessível dos efeitos da política e da cultura sobre a natureza dos sistemas econômicos nacionais.
Oxford University Press, descrição editorial de The Evolution of Economic Systems (2016)
O Brasil na estante: o capítulo 14
Para o leitor deste portal, o capítulo 14 é o convite direto: Clark dedica a seção das nações recém-industrializadas a quatro casos (Brasil, Índia, Irã e Coreia do Sul), levando a moldura das três dimensões e da periodização ao mundo em desenvolvimento.
A própria seleção é uma tese silenciosa e instigante: quatro países que industrializaram tarde por quatro rotas institucionais radicalmente distintas: a substituição de importações latino-americana (o Brasil dos nossos termos de substituição de importações e Celso Furtado), a via indiana do licenciamento e da abertura tardia, a economia política da renda petroleira iraniana e o desenvolvimentismo exportador coreano. Postos lado a lado, os quatro casos perguntam exatamente o que a literatura de variedades de capitalismo demorou a perguntar: os tipos construídos para o Atlântico Norte dão conta da periferia? A literatura posterior (as economias hierárquicas de mercado latino-americanas, na classificação de Ben Ross Schneider) responderia que não sem adaptação, e o capítulo de Clark funciona como a ponte pedagógica para esse debate, que o nosso termo de variedades registra.
O Brasil é tratado como sistema econômico com trajetória própria, no mesmo aparato analítico das oito potências, e não como nota de rodapé exótica, o que já o distingue da maioria dos manuais do gênero.
Globalização: o teste final da variedade
O capítulo 15 fecha a obra com a pergunta que atravessa o campo desde os anos 1990: a globalização converge os sistemas nacionais para um modelo único ou a variedade resiste? O livro aplica à globalização a mesma régua simétrica dos capítulos de moldura (forças potenciais e fraquezas potenciais), recusando tanto o hino quanto o panfleto. A estrutura ecoa o trilema que Dani Rodrik formalizaria para a economia mundial e dialoga com os nossos termos de globalização e trindade impossível: integração profunda, soberania das variedades nacionais e democracia não cabem inteiras no mesmo arranjo, e cada sistema escolhe sua combinação.
Apreciação crítica: forças
A periodização comparada como método. Nenhum tipo ideal estático ensina o que a sequência americana (competitivo, organizado, regulado, neoliberal) ensina: capitalismos são configurações históricas que nascem, funcionam, entram em crise e são substituídas. É a melhor vacina pedagógica contra o essencialismo de "o capitalismo é X".
A terceira dimensão. Elevar a comunidade a mecanismo coordenador de primeira classe, ao lado de mercado e Estado, incorpora ao manual o que Ostrom e Polanyi provaram e que o eixo binário esconde. Poucos livros-texto do gênero o fazem.
Fascismo e capitalismo estatal nomeados. Tratar o fascismo como período econômico analisável e classificar Rússia e China contemporâneas como capitalismo estatal são decisões taxonômicas corajosas que envelheceram bem: o debate sobre o capitalismo político chinês é hoje central, e o livro o antecipou em sala de aula.
A periferia com assento. Brasil, Índia, Irã e Coreia do Sul no mesmo aparato analítico das potências, com a pergunta implícita sobre os limites da tipologia atlântica.
Síntese interdisciplinar honesta. O livro declara as literaturas que sintetiza (economia política comparada, variedades de capitalismo, institucionalismos, sociologia econômica) e as serve ao estudante sem jargão, a função-manual cumprida com distinção.
Apreciação crítica: limites
Nível e propósito. É um manual de graduação: quem busca a fronteira de pesquisa do campo (as complementaridades institucionais formalizadas, os testes empíricos das variedades) deve ir de Clark a Hall e Soskice e à literatura posterior, não o contrário. A síntese acessível cobra o preço da síntese.
O corte temporal. A obra fecha em meados dos anos 2010: o Brexit, a guinada protecionista americana, a consolidação do capitalismo de vigilância das plataformas e a guerra na Europa, episódios que testariam (e em geral confirmariam) suas categorias, ficam fora. Os capítulos terminam perguntando por uma nova direção; a década seguinte respondeu, e uma segunda edição faria justiça ao aparato.
O formato. A edição exclusivamente digital de layout fixo serve mal ao gênero manual, que vive de anotação e consulta, queixa prática que o leitor deve conhecer antes de adquirir.
A seleção dos doze. Toda seleção exclui: a África inteira ausente, a América Latina reduzida ao Brasil, nenhuma economia árabe além do caso iraniano. Para um livro cujo subtítulo promete a economia global, o mapa tem hemisférios em branco, ainda que a honestidade pedagógica (profundidade em doze casos contra superficialidade em quarenta) defenda a escolha.
Para quem é este livro
Leia se: você quer a ponte entre o nosso termo de variedades de capitalismo e a literatura acadêmica; ensina ou estuda sistemas econômicos comparados; ou quer a vacina histórica contra os debates de capitalismo no singular. Pule (por ora) se: você busca a fronteira de pesquisa do campo ou um tratamento da última década, que o corte temporal não cobre.
CLARK, Barry. The evolution of economic systems: varieties of capitalism in the global economy. New York: Oxford University Press, 2016. E-book.
ESPING-ANDERSEN, Gøsta. The three worlds of welfare capitalism. Princeton: Princeton University Press, 1990.
HALL, Peter A.; SOSKICE, David (org.). Varieties of capitalism: the institutional foundations of comparative advantage. Oxford: Oxford University Press, 2001.
NORTH, Douglass C. Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
OSTROM, Elinor. Governing the commons: the evolution of institutions for collective action. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
OXFORD LEARNING LINK. Evolution of economic systems: student and instructor resources. Disponível em: https://learninglink.oup.com/access/clark. Acesso em: 9 jun. 2026.
POLANYI, Karl. The great transformation. New York: Farrar & Rinehart, 1944.
SCHNEIDER, Ben Ross. Hierarchical capitalism in Latin America: business, labor, and the challenges of equitable development. New York: Cambridge University Press, 2013.
Perguntas frequentes
Vale a pena ler The Evolution of Economic Systems sem formação em economia?
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Sim: o livro foi desenhado para graduação, com a política e a cultura como portas de entrada, e a moldura de três dimensões (mercado, Estado, comunidade) é acessível. O apoio do nosso dicionário (variedades de capitalismo, capitalismo, economia planificada) cobre o vocabulário técnico.
Qual a diferença entre o livro de Clark e o de Hall e Soskice?
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Hall e Soskice (2001) é a coletânea de pesquisa que fundou o campo, com dois tipos ideais estáticos (economias liberais e coordenadas). Clark é o manual histórico: multiplica os tipos (sete capitalismos), períodiza oito países em dois séculos e inclui a periferia. Um prepara para o outro.
O livro cobre o Brasil de verdade?
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O Brasil divide o capítulo 14 com Índia, Irã e Coreia do Sul, como caso de industrialização tardia analisado no mesmo aparato dos países centrais. É tratamento de capítulo compartilhado, não de monografia.
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