No dia a dia
O que é, em palavras simples
Estados Unidos, Alemanha, Suécia e Japão são todos países capitalistas, e organizam suas economias de maneiras profundamente diferentes. Onde o americano resolve pelo mercado (contratar, demitir, financiar), o alemão resolve negociando com sindicatos e bancos de relacionamento; o sueco taxa alto e protege a todos; o japonês construiu sua indústria com o Estado apontando a direção. A literatura de variedades de capitalismo nasceu para levar essa diversidade a sério: em vez de perguntar se o capitalismo funciona, pergunta qual capitalismo, para o quê.
No seu bolso
Indo mais fundo
Como funciona
Os dois polos clássicos
O marco analítico de Peter Hall e David Soskice distingue dois tipos ideais pela forma como as empresas coordenam suas relações. Nas economias liberais de mercado (Estados Unidos, Reino Unido), a coordenação é competitiva: mercados de trabalho flexíveis, financiamento por bolsa, inovação radical. Nas economias coordenadas (Alemanha, Japão, países nórdicos), a coordenação é estratégica: negociação salarial centralizada, bancos pacientes, formação profissional conjunta, inovação incremental. Cada arranjo tem vantagens institucionais comparativas: não há vencedor universal.
O mapa ampliado
Sínteses como a de Barry Clark percorrem os sistemas nacionais (britânico, francês, alemão, sueco, russo, chinês, japonês) e mostram o capitalismo mudando de figura no tempo e no espaço: competitivo no século 19, organizado e de bem-estar no pós-guerra, neoliberal a partir dos anos 1980, estatal na China contemporânea. A lição comparativa vale para o Brasil: discutir reformas copiando um pedaço da Dinamarca e outro dos Estados Unidos ignora que as instituições funcionam em conjunto, não em peças avulsas.
Visão técnica
A leitura da escola Institucional
O programa varieties of capitalism, consolidado por Hall e Soskice (Varieties of Capitalism: The Institutional Foundations of Comparative Advantage, 2001), é economia política comparada com microfundamento na firma: as instituições nacionais (relações industriais, governança corporativa, finança, formação de habilidades, relações interfirmas) formam complementaridades institucionais, em que a eficácia de cada peça depende das demais. Daí as duas predições centrais: a resistência dos modelos à convergência (reformas pontuais quebram complementaridades e podem piorar o conjunto) e as vantagens comparativas institucionais (economias liberais prosperam em inovação radical e serviços financeiros; coordenadas, em manufatura de qualidade e inovação incremental), tese com respaldo empírico em padrões de especialização.
As extensões e críticas enriqueceram o mapa: tipologias adicionais para o capitalismo mediterrâneo, o do Leste Europeu e as economias hierárquicas latino-americanas (Ben Ross Schneider), em que grupos empresariais diversificados, multinacionais e baixa qualificação se reforçam mutuamente, leitura diretamente relevante para o Brasil; a crítica da estática (o quadro explica melhor a permanência que a mudança); e a do Estado, subteorizado no modelo original, central nas variantes desenvolvimentistas asiáticas e no capitalismo de Estado chinês que sínteses como a de Clark incorporam. O valor editorial do programa para este dicionário é metodológico: ele substitui o debate binário capitalismo versus socialismo, encerrado na prática, pela pergunta comparativa adulta, qual combinação de instituições produz quais resultados, com quais custos, para quem, exatamente o tipo de pergunta que o pluralismo de escolas existe para manter aberta.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Importar instituições em peças avulsas
Ler a tipologia como ranking
Veja também
Conceitos conectados
Instituições
As regras do jogo de uma sociedade, formais (leis) e informais (costumes), que moldam incentivos e ajudam a explicar por que alguns países prosperam.
Estado de bem-estar social
O arranjo em que o Estado garante proteção social como direito: saúde, educação, previdência e amparo ao desempregado, financiados por impostos de toda a sociedade.
Mais específico
Conceitos conectados
Perguntas frequentes
O que são as variedades de capitalismo? +
É o programa de pesquisa que compara como os países capitalistas organizam suas economias: liberais de mercado (EUA, Reino Unido), coordenadas (Alemanha, Japão, nórdicos) e variantes estatais e híbridas. Cada arranjo combina instituições complementares, com forças e fraquezas próprias.
Onde o Brasil se encaixa nessa tipologia? +
A literatura latino-americana descreve economias hierárquicas: grandes grupos empresariais, multinacionais, mercado de trabalho segmentado com alta informalidade e qualificação baixa, peças que se reforçam. Entender o conjunto explica por que reformas isoladas frustram.
Fontes e referências
- Acadêmica Varieties of Capitalism: The Institutional Foundations of Comparative Advantage - Peter Hall e David Soskice (orgs.) (2001)
- Acadêmica The Evolution of Economic Systems: Varieties of Capitalism in the Global Economy - Barry Clark (2016)
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