No dia a dia
O que é, em palavras simples
Olhe para o seu teclado: as letras começam por Q, W, E, R, T, Y. Esse arranjo foi pensado nos anos 1870 para as máquinas de escrever mecânicas, e não é o mais eficiente para digitar. Mesmo assim, segue aí, em todos os celulares e computadores. Por quê? Porque todo mundo aprendeu nele, todas as máquinas o adotaram, e mudar custaria mais do que vale. A isso a economia chama dependência de trajetória: o presente fica preso a uma escolha do passado, mesmo que hoje houvesse opção melhor.
No seu bolso
O que decide qual padrão vence
Mercado idealizado
- ›Vence sempre o mais eficiente
- ›A história não importa
Dependência de trajetória
- ›Vence quem ganha escala primeiro
- ›O passado tranca o presente (lock-in)
Indo mais fundo
Como funciona
Como um caminho se fecha
O mecanismo combina duas coisas. Primeiro, um evento inicial, às vezes fortuito, que dá vantagem a uma opção. Segundo, retornos crescentes de adoção: quanto mais gente usa um padrão, mais vantajoso fica usá-lo também, e mais caro fica trocar. Aos poucos, a opção se consolida e tranca as alternativas, no chamado lock-in. Não foi a melhor que venceu, foi a primeira a ganhar escala.
Das tecnologias às instituições
A ideia, nascida da história da tecnologia, foi levada para o coração da economia institucional por Douglass North. Para ele, as instituições de um país, suas leis, normas e hábitos, também são dependentes da trajetória: arranjos herdados do passado moldam o que é possível hoje, e por isso reformas profundas são tão difíceis. A história importa, e não como mero pano de fundo.
Visão técnica
A leitura da escola Institucional
O conceito foi formalizado por Paul David no artigo Clio and the Economics of QWERTY (1985), que usou o teclado como caso emblemático de lock-in tecnológico:
"Uma sequência de mudanças econômicas é dependente da trajetória quando influências importantes sobre o resultado final podem ser exercidas por eventos temporalmente remotos, inclusive acontecimentos dominados pelo acaso, e não por forças sistemáticas." (Paul David, Clio and the Economics of QWERTY, 1985)
A dependência de trajetória desafia a hipótese de que os mercados sempre convergem para a solução mais eficiente. Com retornos crescentes de adoção, externalidades de rede e altos custos de troca, um padrão inferior pode prevalecer e persistir. Douglass North incorporou a ideia à análise institucional: a matriz de instituições de uma sociedade evolui de forma incremental e amarrada ao passado, o que ajuda a explicar por que países com histórias diferentes seguem em trajetórias econômicas divergentes, mesmo diante de oportunidades parecidas. O conceito dialoga de perto com custos de transação e com a noção de que instituições são as regras do jogo.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Achar que o que prevaleceu é sempre o melhor
Confundir com simples hábito
Veja também
Conceitos conectados
Custos de transação
Os custos de negociar, fiscalizar e fazer cumprir um contrato: o atrito que explica por que existem empresas, e não apenas o mercado.
Instituições
As regras do jogo de uma sociedade, formais (leis) e informais (costumes), que moldam incentivos e ajudam a explicar por que alguns países prosperam.
Economia institucional
A escola que põe as instituições, as regras formais e informais que organizam a sociedade, no centro da explicação de por que alguns países prosperam e outros não.
Douglass North
O americano (1920-2015) que respondeu por que nações fracassam antes do best-seller: instituições, as regras do jogo, decidem quem prospera. Nobel de 1993.
Perguntas frequentes
O que é dependência de trajetória? +
É a ideia de que o resultado de um processo econômico depende do caminho percorrido, e não só das condições atuais. Escolhas do passado, às vezes fruto do acaso, podem travar o presente num padrão difícil de mudar, mesmo que exista opção melhor.
Por que o teclado QWERTY é o exemplo clássico? +
Porque foi desenhado para máquinas mecânicas do século 19 e não é o mais eficiente, mas se tornou universal. Como todos aprenderam nele e todas as máquinas o adotaram, trocá-lo ficou caro demais, e ele persistiu. É o caso usado por Paul David em 1985.
Fontes e referências
- Acadêmica Clio and the Economics of QWERTY (American Economic Review) - Paul A. David (1985)
- Acadêmica Instituições, Mudança Institucional e Desempenho Econômico - Douglass North (1990)
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