No dia a dia
O que é, em palavras simples
Poucas palavras do vocabulário econômico carregam tanta carga: para uns, neoliberalismo é a receita que domou a inflação e abriu economias travadas; para outros, é o projeto que desmontou proteções sociais e aprofundou desigualdades. O núcleo histórico é identificável: a partir dos anos 1980, com Thatcher no Reino Unido e Reagan nos Estados Unidos, ganhou força uma agenda de privatizações, abertura comercial, desregulação e disciplina fiscal, em reação às décadas de forte presença estatal que vinham desde a Depressão.
No seu bolso
-
01
Mont Pèlerin (1947)
Hayek reúne os liberais no pós-guerra
-
02
Thatcher e Reagan (1980s)
A agenda chega ao poder
-
03
Consenso de Washington (1989)
O receituário codificado para a América Latina
-
04
Palavra em disputa (hoje)
Rótulo usado sobretudo pelos críticos
Indo mais fundo
Como funciona
De onde vem o termo
A palavra nasceu nos anos 1930 entre liberais que queriam renovar o liberalismo clássico após a Depressão, e ganhou organização em 1947, quando Friedrich Hayek reuniu economistas e intelectuais na Suíça para fundar a Sociedade Mont Pèlerin, da qual Milton Friedman participou. Dali saíram as ideias que, décadas depois, alimentariam as reformas dos anos 1980 e 1990.
O pacote de políticas
Na América Latina, a agenda foi codificada em 1989 no chamado Consenso de Washington: disciplina fiscal, abertura comercial, privatização, desregulação e câmbio competitivo, receituário aplicado em graus variados nas reformas dos anos 1990, inclusive no Brasil. Os resultados alimentam o debate até hoje: estabilização e modernização para os defensores; desindustrialização, volatilidade e custo social para os críticos. Curiosamente, quase ninguém se declara neoliberal: o termo é usado sobretudo por adversários.
Visão técnica
Visão técnica
O marco fundacional é a Sociedade Mont Pèlerin (1947). Seu documento de princípios, assinado por Hayek, Mises, Friedman e outros, abre com um diagnóstico de época que explica o projeto:
"Os valores centrais da civilização estão em perigo." (Statement of Aims, Sociedade Mont Pèlerin, 1947)
O texto via na expansão do poder estatal, do planejamento e nas restrições à propriedade privada uma ameaça à liberdade, e propunha redefinir as funções do Estado para distinguir o totalitarismo da ordem liberal. Analiticamente, vale separar três camadas que o uso corrente mistura: a tradição intelectual (Hayek, Friedman, a crítica ao planejamento e à discricionariedade), o pacote de políticas dos anos 1980-90 (privatização, abertura, metas de inflação, regras fiscais) e o uso polêmico do termo como rótulo para tudo que se associe a mercado. A literatura acadêmica diverge até sobre a utilidade do conceito: parte o considera categoria analítica válida para um programa identificável; parte o vê como significante vago, que mais acusa do que descreve. O fato de quase nenhum economista se autodeclarar neoliberal, enquanto a palavra domina a crítica, é em si um dado: trata-se de um conceito essencialmente contestado, cujo emprego já sinaliza a posição de quem fala. Para o leitor, a defesa é operacional: ao encontrar o termo, perguntar quais políticas concretas estão em discussão.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Usar o termo como xingamento genérico
Confundir com o liberalismo clássico
Veja também
Conceitos conectados
Monetarismo
A escola de Milton Friedman: a quantidade de moeda é a chave da inflação, e a política monetária, mais que a fiscal, é o instrumento central da economia.
Escola austríaca
A tradição de Menger, Mises e Hayek: a economia parte da ação individual, o valor é subjetivo e o mercado funciona como um processo de descoberta de informação dispersa.
Liberalismo econômico
A doutrina clássica de que a economia funciona melhor com liberdade de iniciativa e trocas, reservando ao Estado funções limitadas: justiça, segurança e obras públicas.
Milton Friedman
O economista americano (1912-2006) que liderou a contrarrevolução ao keynesianismo: a inflação como fenômeno monetário, a taxa natural de desemprego e a defesa do mercado.
Friedrich Hayek
O austríaco (1899-1992) que fez do conhecimento o centro da economia: nenhum planejador reúne a informação que os preços coordenam. Rival de Keynes, Nobel de 1974.
Ludwig von Mises
O austríaco (1881-1973) que, em 1920, lançou o desafio que assombrou o século: sem preços de mercado, a economia planejada não tem como calcular o que produzir. Mestre de Hayek e teórico da ação humana.
Perguntas frequentes
O que é neoliberalismo, afinal? +
Em sentido estrito, a tradição intelectual fundada em torno da Sociedade Mont Pèlerin (1947) e o pacote de políticas dos anos 1980-90: privatização, abertura, desregulação e disciplina fiscal. Em sentido frouxo, virou rótulo polêmico para qualquer agenda pró-mercado.
Por que ninguém se diz neoliberal? +
O termo foi adotado sobretudo pelos críticos, e seu uso já sinaliza posição. Economistas favoráveis à agenda preferem se dizer liberais ou ortodoxos. Por isso, no debate, vale sempre perguntar quais políticas concretas estão sendo chamadas de neoliberais.
Fontes e referências
- Primária Statement of Aims - Mont Pelerin Society (1947)
- Acadêmica Capitalismo e Liberdade - Milton Friedman (1962)
Sua conta gratuita
Salve termos, marque trechos e acompanhe seu progresso.
Crie uma conta grátis para favoritar conceitos, guardar trechos e ganhar pontos enquanto aprende economia.
Receba o dicionário no e-mail
Um conceito de economia explicado por semana.
Confirmação por e-mail (double opt-in). Sem spam, cancele quando quiser.