No dia a dia
O que é, em palavras simples
Em 1871, um professor de Manchester abriu seu livro com uma heresia: o valor das coisas não vem do trabalho que custaram, como diziam os clássicos de Smith a Marx, vem inteiramente da utilidade que a última unidade tem para quem a quer. William Stanley Jevons publicou A Teoria da Economia Política no mesmo ano em que Carl Menger, em Viena, chegava à mesma ideia por outro caminho (e Léon Walras fecharia o trio em 1874): é a revolução marginalista, a refundação da economia sobre a utilidade marginal que o nosso dicionário conta em termo próprio. Jevons foi o estopim de língua inglesa: o primeiro a dizer, com todas as letras e com equações, que a economia é um cálculo de prazer e dor.
No seu bolso
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01
The Coal Question (1865)
Eficiência que aumenta o consumo
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02
A Teoria (1871)
O valor depende da utilidade
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03
O trio marginalista
Jevons, Menger e Walras em paralelo
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04
Legado duplo
A marginal nos manuais; o rebote no clima
Indo mais fundo
Como funciona
O grau final de utilidade
O aparato de Jevons é o que os manuais ensinam até hoje com outro nome: o grau final de utilidade (nosso utilidade marginal) decresce conforme a quantidade consumida aumenta, e a troca para quando as razões entre os graus finais igualam as razões entre os preços. Com isso, o diamante caro e a água barata deixam de ser paradoxo: ninguém paga pela utilidade total da água, paga pela última unidade, que é abundante. A linguagem era deliberadamente matemática: para Jevons, se a economia trata de quantidades, deve ser tratada como ciência de quantidades, manifesto que fez dele um fundador também da econometria avant la lettre e da lógica formal (inventou até uma máquina lógica, o piano de Jevons).
O paradoxo de Jevons
Antes da teoria do valor, Jevons já era célebre por The Coal Question (1865), e por uma observação que voltou ao centro do debate climático: tornar o uso do carvão mais eficiente não reduz o consumo total, aumenta, porque o barateamento expande os usos. É o paradoxo de Jevons, ou efeito rebote: a aposta de que eficiência energética sozinha resolve a demanda por energia tropeça nele desde 1865.
Visão técnica
A leitura da escola Neoclássica
A frase de abertura que datou a revolução:
"A reflexão e a investigação repetidas levaram-me à opinião um tanto inovadora de que o valor depende inteiramente da utilidade." (William Stanley Jevons, A Teoria da Economia Política, 1871, tradução nossa)
O programa jevoniano, em atribuição indireta fiel à obra: a mecânica da utilidade e do auto-interesse (expressão dele) reconstrói a troca como maximização de prazer sob restrição, com o cálculo diferencial fazendo o serviço que a teoria do valor-trabalho fazia por agregados, e as equações de troca antecipando o equilíbrio que Walras generalizaria. A tríade de 1871-1874 (Jevons, Menger, Walras) chegou à mesma marginal por três métodos (o cálculo hedonista inglês, a subjetividade austríaca sem matemática, o sistema de equações de Lausanne), e a descoberta simultânea é um dos episódios clássicos da história da ciência econômica, contado no nosso artigo sobre a revolução marginalista.
O registro crítico do protocolo, em três pontos. Primeiro: o utilitarismo hedonista de Jevons (prazer e dor mensuráveis) foi abandonado pela própria escola que ele fundou, que de Pareto em diante se contentou com preferências ordinais; a marginal sobreviveu, o hedonismo não. Segundo: sua incursão pelos ciclos econômicos via manchas solares (a colheita seguindo o sol, o crédito seguindo a colheita) envelheceu como advertência metodológica sobre correlações espúrias, e o nosso termo de correlação e causalidade a usa de bom grado. Terceiro: The Coal Question errou a previsão central (a Grã-Bretanha não estagnou com o fim do carvão barato, trocou de matriz), mas legou o paradoxo que a economia da energia confirma em escalas que vão do LED ao motor a combustão. Morto aos 46 anos, afogado, Jevons deixou a revolução para os outros consolidarem: Marshall, que o leu a contragosto, e Edgeworth, que o levou ao limite. No grafo deste pilar, ele forma com Menger e Walras o trio fundador, e se opõe frontalmente à teoria do valor-trabalho que o nosso acervo documenta do outro lado da trincheira.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Tratar o paradoxo de Jevons como lei universal
Confundir a revolução com consenso instantâneo
Veja também
Conceitos conectados
Utilidade marginal
A satisfação extra de consumir mais uma unidade de algo: ela tende a diminuir a cada unidade, o que ajuda a explicar como se formam os preços.
Léon Walras
O francês (1834-1910) que matematizou a economia inteira de uma vez: o equilíbrio geral, todos os mercados se resolvendo juntos. O projeto que definiu a teoria do século 20.
Carl Menger
O austríaco (1840-1921) que fundou a escola de Viena: o valor é subjetivo, nasce na margem e nas escolhas individuais. Um dos três pais da revolução marginalista.
Conceito oposto
Conceitos conectados
Perguntas frequentes
Quem foi William Stanley Jevons? +
O economista inglês que disparou a revolução marginalista em 1871, sustentando que o valor depende inteiramente da utilidade da última unidade, e um pioneiro do método matemático na economia. Também formulou, em 1865, o paradoxo de Jevons sobre eficiência e consumo de energia.
O que é o paradoxo de Jevons? +
A observação de que ganhos de eficiência no uso de um recurso tendem a aumentar, e não reduzir, o consumo total dele, porque barateiam o uso e multiplicam as aplicações. Formulado para o carvão britânico em 1865, é hoje peça central do debate sobre eficiência energética e clima.
Fontes e referências
- Acadêmica The Theory of Political Economy - William Stanley Jevons (1871)
- Acadêmica The Coal Question - William Stanley Jevons (1865)
- Fonte William Stanley Jevons (termo biográfico) - Econlib (2008)
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