No dia a dia
O que é, em palavras simples
Toda reunião do Copom gira, saiba-se ou não, em torno de uma ideia de Knut Wicksell: existe um juro natural, o nível que equilibra poupança e investimento sem acelerar nem derrubar os preços, e o trabalho do banco central é não deixar o juro de mercado se afastar dele. Abaixo do natural, crédito farto infla os preços num processo cumulativo; acima, a economia esfria. O professor sueco que escandalizou seu tempo (foi preso por blasfêmia e defendia ideias impublicáveis sobre população) deu à política monetária moderna sua estrela-guia invisível.
No seu bolso
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01
Dois juros
O de mercado (bancos) e o natural (capital)
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02
Hiato
Juro de mercado abaixo do natural
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03
Processo cumulativo
Crédito, demanda e preços subindo sem freio
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04
A regra moderna
Bancos centrais perseguindo o r* invisível
Indo mais fundo
Como funciona
O processo cumulativo
Em Juros e Preços (1898), Wicksell respondeu ao enigma que a teoria quantitativa deixava: como exatamente a moeda mexe nos preços numa economia de crédito bancário? Resposta: pela diferença entre dois juros. Se os bancos cobram menos que o retorno natural do capital, empresários tomam crédito para investir, a demanda sobe, os preços sobem, e nada no processo o detém enquanto a diferença persistir, o processo cumulativo, sem necessidade de "quantidade de moeda" fixa em lugar nenhum. É a ponte entre a quantitativa antiga e a política de juros moderna.
As duas descendências
Do mesmo tronco saíram rivais: a escola austríaca (Mises e Hayek leram o juro abaixo do natural como a semente das crises, o termo de ciclo econômico conta) e a escola de Estocolmo que desaguou no próprio Keynes (poupança e investimento se ajustando por renda e expectativa). E uma terceira, a que governa: o regime de metas de inflação é wickselliano operacional, com o banco central calibrando o juro em torno de um natural que não observa, apenas estima, o r-estrela das atas que o nosso termo de juros menciona.
Visão técnica
A leitura da escola Neoclássica
O aparato wickselliano, em atribuição indireta fiel a Geldzins und Güterpreise (1898): numa economia de crédito puro, o nível de preços não tem âncora quantitativa própria; a âncora é a relação entre a taxa monetária (que os bancos fixam) e a taxa natural (o retorno marginal do capital), com a divergência gerando inflação ou deflação cumulativas e a convergência, estabilidade, a regra de política avant la lettre: mover o juro de mercado para fechar o hiato. A formalização contemporânea é literal: os modelos novo-keynesianos definem a taxa natural de juros (r*) como a wickselliana, e a regra de Taylor é a heurística de persegui-la; a literatura de estagnação secular (Summers) discute um r* deprimido; e os debates pós-2008 sobre juros baixos demais por tempo demais reabilitaram simultaneamente as duas leituras rivais do mesmo tronco (a austríaca, do crédito que planta crises, e a keynesiana, do natural afundado).
O segundo Wicksell pertence a outro termo deste pilar: o princípio da unanimidade e do benefício na tributação (Finanztheoretische Untersuchungen, 1896), a tese de que gasto e imposto devem ser aprovados juntos e com consenso amplo, é a fundação declarada da economia constitucional de Buchanan, que o citava como ancestral direto. O personagem fecha o retrato: professor tardio (doutorou-se aos 44), polemista processado e preso por sátira religiosa, neomalthusiano militante num tempo em que isso custava a carreira, e o caso raro de economista cuja influência cresceu por um século em linha reta: cada era de política monetária redescobre que está discutindo, com vocabulário novo, o hiato entre os dois juros de 1898.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Tratar o juro natural como número observável
Esquecer que dois rivais saíram do mesmo tronco
Veja também
Conceitos conectados
Taxa de juros
O preço do dinheiro no tempo: o quanto se paga para tomar emprestado, ou se ganha para emprestar, ao longo de um período.
Friedrich Hayek
O austríaco (1899-1992) que fez do conhecimento o centro da economia: nenhum planejador reúne a informação que os preços coordenam. Rival de Keynes, Nobel de 1974.
James Buchanan
O americano (1919-2013) que aplicou a economia aos políticos: a escolha pública, as falhas de governo e a economia constitucional. Nobel de 1986.
Perguntas frequentes
O que é o juro natural de Wicksell? +
O nível de juros que equilibra poupança e investimento sem pressionar os preços: abaixo dele, o crédito farto alimenta inflação cumulativa; acima, deflação. É o r* (juro neutro) que os bancos centrais modernos, Copom incluído, estimam e perseguem sem nunca observar diretamente.
Por que Wicksell importa para escolas rivais? +
Porque do processo cumulativo de 1898 saíram duas linhagens opostas: a austríaca (Mises e Hayek: juro abaixo do natural planta as crises) e a sueca-keynesiana (ajuste por renda e expectativas). E uma terceira que governa: o regime de metas é a engenharia wickselliana em operação.
Fontes e referências
- Acadêmica Juros e Preços (Geldzins und Güterpreise) - Knut Wicksell (1898)
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