No dia a dia
O que é, em palavras simples
Como regular uma empresa que sabe dos próprios custos muito mais que o regulador, e que tem todo incentivo a esconder? Essa pergunta, que parecia condenar a regulação ao cabo de guerra ou à captura, ganhou engenharia com Jean Tirole: cardápios de contratos que fazem o monopolista revelar o que esconde, regras que separam eficiência de poder, e a primeira teoria séria dos mercados de duas pontas, as plataformas que cobram zero de um lado (você) e tudo do outro (anunciantes, lojistas). O Nobel de 2014 premiou, nas palavras do comitê, a análise do poder de mercado e da regulação, e o antitruste das big techs fala o idioma dele.
No seu bolso
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01
Informação assimétrica
A firma sabe; o regulador, não
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02
Cardápio de contratos
O desenho que extrai a verdade
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03
Duas pontas (2003)
Plataformas: preço zero como estrutura
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04
Nobel (2014)
O manual de domar gigantes
Indo mais fundo
Como funciona
A caixa de ferramentas
Com Jean-Jacques Laffont (a parceria fundadora, interrompida pela morte precoce do parceiro), Tirole reescreveu a regulação como problema de informação: o regulador desenha um menu (preço alto com lucro apertado, ou preço baixo com folga) e deixa a firma se autosselecionar, extraindo a verdade pelo desenho, a aplicação regulatória do rastreamento que o nosso termo de seleção adversa descreve. A teoria da organização industrial moderna (o manual de 1988 que formou o campo), as finanças corporativas e a teoria dos incentivos completam a caixa.
As duas pontas e as big techs
A contribuição mais visível ao século 21: os mercados de duas pontas (com Rochet, 2003): plataformas vivem de equilibrar dois lados que se atraem mutuamente, e o preço zero de um lado não é predação nem caridade, é estrutura. A consequência incômoda para o antitruste: as regras clássicas (preço abaixo do custo = predação) quebram em plataformas, e cada processo contra big techs hoje disputa, tecnicamente, o aparato de Tirole. O Economia do Bem Comum (2017) entrega a versão pública: o economista como engenheiro de instituições que alinham interesse privado e bem comum.
Visão técnica
A leitura da escola Neoclássica
O programa tiroliano, em atribuição indireta fiel à obra: a síntese Laffont-Tirole (A Theory of Incentives in Procurement and Regulation, 1993) converte a regulação em mecanismo sob informação assimétrica, com os resultados que governam agências mundo afora: o trade-off entre extração de renda e incentivo ao esforço, o cardápio de contratos como solução, e a teoria da captura como restrição de desenho (reguladores também respondem a incentivos, a ponte com a escolha pública deste dicionário). A organização industrial pós-Tirole (o manual de 1988) refundou o campo de Bain sobre teoria dos jogos: condutas (predação, bundling, acordos verticais) analisadas como estratégias de equilíbrio, caso a caso, aposentando tanto o estruturalismo automático quanto o laissez-faire de Chicago.
Os mercados de duas pontas (Rochet-Tirole, 2003) são a peça com maior consequência prática corrente: a precificação assimétrica entre lados como característica de equilíbrio, não abuso, exige do antitruste a análise conjunta da plataforma, e o debate global sobre big techs (de processos americanos ao DMA europeu e aos casos brasileiros) é tecnicamente uma disputa sobre como aplicar esse aparato, com o trade-off schumpeteriano do nosso termo (prêmio de inovação x entrincheiramento) ao fundo. O registro crítico de praxe: a engenharia de mecanismos pressupõe reguladores com capacidade e informação que nem toda jurisdição tem (a objeção institucionalista), e o próprio Tirole responde com o desenho da governança regulatória como parte do problema. No grafo deste pilar, Tirole herda Bain (as estruturas) via teoria dos jogos, aplica Akerlof-Stiglitz (a informação) à regulação, e fornece ao leitor a chave dos processos que definirão a economia digital da década.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Aplicar antitruste clássico a plataformas
Esquecer a capacidade do regulador na equação
Veja também
Conceitos conectados
Monopólio
A situação em que um único vendedor controla a oferta de um bem sem substitutos próximos, ganhando poder para impor preços acima do que a concorrência permitiria.
Assimetria de informação
A situação em que uma parte de um negócio sabe mais que a outra: o vendedor que conhece o defeito, o tomador que conhece o próprio risco.
Teoria dos jogos
O estudo das decisões em que o resultado de cada um depende do que os outros fazem: a lógica por trás de conflitos, cooperação e estratégia.
Perguntas frequentes
O que Jean Tirole trouxe à regulação? +
A engenharia da informação: como a firma regulada sabe mais que o regulador, a solução é desenhar cardápios de contratos que a façam revelar custos ao escolher, extraindo a verdade pelo desenho (com Laffont). É o manual das agências reguladoras modernas, premiado com o Nobel de 2014.
O que são mercados de duas pontas? +
Plataformas que vivem de equilibrar dois lados que se atraem (usuários e anunciantes, portadores de cartão e lojistas): o preço zero de um lado é estrutura de equilíbrio, não predação. A teoria de Rochet e Tirole (2003) é a chave técnica dos processos contra as big techs.
Fontes e referências
- Acadêmica Economia do Bem Comum - Jean Tirole (2017)
- Acadêmica Prêmio Nobel de Economia 2014: Jean Tirole - Nobel Prize (2014)
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