No dia a dia
O que é, em palavras simples
Uma padaria vende R$ 50 mil por mês e paga R$ 40 mil de farinha, aluguel, salários e impostos. Lucro de R$ 10 mil, certo? Para o contador, sim. Para o economista, falta uma conta: quanto a dona da padaria ganharia se empregasse o mesmo dinheiro e as mesmas horas na melhor alternativa? Se ela largou um emprego de R$ 12 mil para faturar esses R$ 10 mil, a padaria dá prejuízo econômico de R$ 2 mil por mês, ainda que o caixa feche no azul. O lucro econômico desconta o custo de oportunidade, e é por isso que negócios contabilmente lucrativos fecham: o dono descobriu que sobra menos ali do que sobraria em outro lugar.
No seu bolso
O mesmo negócio, duas réguas
Lucro contábil
- ›Receita menos custos pagos
- ›O que aparece no balanço
- ›Pode esconder prejuízo econômico
Lucro econômico
- ›Desconta também o custo de oportunidade
- ›A régua da decisão de continuar
- ›Zero significa lucro normal, não falência
Indo mais fundo
Como funciona
Contábil, econômico e normal
O lucro contábil subtrai da receita os custos explícitos, os que geram nota fiscal. O lucro econômico subtrai também os custos implícitos: o salário que o dono não recebe, o rendimento que o capital teria em outra aplicação. Quando o lucro econômico é zero, o negócio paga exatamente o que todos os recursos ganhariam na melhor alternativa: é o lucro normal, e significa que vale a pena continuar, não que se está quebrando.
Por que a concorrência come o lucro
Em um mercado de concorrência perfeita, lucro econômico positivo atrai entrantes, a oferta cresce, os preços caem e o lucro extraordinário desaparece. Lucros persistentemente altos, portanto, contam uma história: barreiras à entrada, marca, tecnologia exclusiva ou poder de mercado. É a primeira pergunta que um analista faz diante de margens gordas: o que impede a concorrência de copiá-las?
Como se calcula
A fórmula
Lucro econômico = Receita − Custos explícitos − Custos implícitos
- Receita
- Receita total - tudo o que entra com as vendas
- Explícitos
- Custos explícitos - gastos pagos de fato: insumos, salários, aluguel, impostos
- Implícitos
- Custos implícitos - o que os recursos renderiam na melhor alternativa (custo de oportunidade)
Visão técnica
Visão técnica
De onde vem o lucro é uma das perguntas que mais dividem as escolas econômicas. Na visão neoclássica, em equilíbrio competitivo o lucro econômico tende a zero, e o que persiste é remuneração de fatores; o lucro extraordinário é sinal de fricção ou poder de mercado. Frank Knight (1921) deu ao lucro um papel mais nobre: ele é o prêmio pela incerteza não mensurável, aquela contra a qual não existe seguro, e por isso pertence ao empresário que decide sem mapa. Joseph Schumpeter o tornou o motor do capitalismo: o lucro é temporário por natureza, criado pela inovação e destruído pela imitação, no ciclo de destruição criativa. Na tradição austríaca da função empresarial, ele é o sinal de que alguém enxergou um desajuste de preços antes dos demais. E na leitura marxista, o lucro tem origem na mais-valia, o valor produzido pelo trabalho além do que é pago como salário, o que o torna índice de exploração e não de serviço. A régua prática do investidor atravessa todas as escolas: lucro só tem significado comparado ao custo de oportunidade do capital, lição que o conceito de lucro econômico carrega desde a primeira linha.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Ler lucro econômico zero como fracasso
Discutir lucro sem dizer a escola
Pré-requisitos
Conceitos conectados
Veja também
Conceitos conectados
Mais-valia
Na teoria de Marx, o valor que o trabalhador produz além do que recebe em salário e que é apropriado pelo dono do capital: a fonte do lucro.
Função empresarial
Na visão austríaca de Israel Kirzner, o papel do empreendedor é o estado de alerta que descobre oportunidades de lucro ainda despercebidas, movendo o mercado.
Joseph Schumpeter
O austríaco (1883-1950) que pôs o empreendedor e a inovação no centro do capitalismo: o sistema avança destruindo o velho, e o monopólio de hoje é a inovação de ontem.
Frank Knight
O americano (1885-1972) que separou o risco calculável da incerteza radical e fez do lucro o prêmio de quem decide sem mapa. Patriarca da Escola de Chicago e o maior cético dela.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre lucro contábil e lucro econômico? +
O contábil desconta da receita apenas os custos pagos (explícitos). O econômico desconta também os custos implícitos: o que o dono e o capital ganhariam na melhor alternativa. Um negócio pode ter lucro contábil e prejuízo econômico ao mesmo tempo, e é o econômico que orienta a decisão de continuar.
Por que lucros muito altos atraem concorrência? +
Lucro econômico positivo sinaliza que aquele mercado paga mais que as alternativas, o que atrai entrantes; a oferta maior derruba preços e margens até restar o lucro normal. Margens altas e duradouras indicam alguma barreira à entrada: marca, tecnologia, escala ou poder de mercado.
Fontes e referências
- Acadêmica Profits (The Concise Encyclopedia of Economics) - Lester C. Telser (2008)
- Acadêmica Risk, Uncertainty and Profit - Frank Knight (1921)
- Acadêmica Teoria do Desenvolvimento Econômico - Joseph Schumpeter (1911)
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