No dia a dia
O que é, em palavras simples
Poluir sempre foi de graça: a fábrica emite gás de efeito estufa e o custo, o aquecimento global, cai sobre todos, não sobre quem emitiu. O crédito de carbono tenta corrigir isso pondo um preço nessa poluição. Cada crédito equivale a uma tonelada de CO2 que deixou de ser emitida ou foi retirada da atmosfera. Quem polui menos do que podia sobra créditos e vende; quem polui mais precisa comprar. A ideia é simples: se emitir custa dinheiro, reduzir emissões passa a valer a pena.
No seu bolso
Dois jeitos de precificar o carbono
Mercado de cotas (cap-and-trade)
- ›Governo fixa a quantidade (teto)
- ›O mercado define o preço
Imposto sobre carbono
- ›Governo fixa o preço por tonelada
- ›O mercado define a quantidade reduzida
Indo mais fundo
Como funciona
Dois caminhos para precificar
Há dois instrumentos principais. No mercado de cotas (cap-and-trade), o governo define um teto de emissões e distribui ou leiloa permissões; as empresas negociam entre si, e o preço sai do mercado. No imposto sobre carbono, o governo fixa o preço por tonelada e deixa o mercado decidir quanto reduzir. O primeiro controla a quantidade; o segundo, o preço.
Regulado e voluntário
Há também a diferença entre o mercado regulado (obrigatório, definido por lei, como o europeu) e o voluntário (empresas que compram créditos para compensar emissões por conta própria). O mercado voluntário é mais frágil: a qualidade dos créditos varia muito, e projetos que prometem mais do que entregam alimentam acusações de greenwashing.
Visão técnica
Visão técnica
O crédito de carbono é a aplicação mais visível de duas ideias clássicas da microeconomia sobre externalidades. A primeira, de Arthur Pigou, é taxar a atividade que gera o dano (o imposto sobre carbono é um "imposto pigouviano"): o preço passa a incorporar o custo social antes ignorado. A segunda, de Ronald Coase, é criar direitos de propriedade negociáveis sobre o que antes não tinha dono (o direito de emitir), de modo que o mercado aloque a redução a quem consegue fazê-la mais barato, a lógica do cap-and-trade. William Nordhaus, Nobel de Economia de 2018 por integrar o clima à análise macroeconômica, defendeu a precificação do carbono como o instrumento central de política climática.
As críticas, porém, são substantivas. Para a economia ecológica, precificar o carbono trata como mercadoria algo que talvez exija limites físicos absolutos, não apenas incentivos de preço, e pode legitimar a continuidade da poluição de quem paga. Há ainda o problema prático da qualidade e da adicionalidade dos créditos (o projeto realmente reduziu emissões que não cairiam de qualquer forma?) e a questão distributiva: um preço de carbono pesa mais sobre os pobres se não houver redistribuição. O crédito de carbono é, assim, uma ferramenta poderosa e disputada, eficiente para alguns, insuficiente ou perigosa para outros.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Achar que compensar é o mesmo que não emitir
Confundir os instrumentos
Veja também
Conceitos conectados
Externalidade
O efeito de uma atividade sobre quem não participou dela: um custo (poluição) ou um benefício (vacina) que não entra no preço.
Falha de mercado
Situações em que o mercado, por si só, não aloca os recursos de forma eficiente: externalidades, bens públicos, monopólios e assimetria de informação.
Economia ecológica
A corrente que trata a economia como subsistema da biosfera: matéria e energia são finitas, e crescer para sempre num planeta limitado é a questão, não a resposta.
Ronald Coase
O inglês (1910-2013) que fez as duas perguntas mais férteis da economia institucional: por que empresas existem? E se os direitos fossem negociáveis? Nobel de 1991.
Arthur Pigou
O inglês (1877-1959) que fundou a economia do bem-estar: externalidades, o imposto pigouviano e a fatura do poluidor. O alvo de Keynes e de Coase, e o vencedor silencioso do século.
Perguntas frequentes
O que é um crédito de carbono? +
É um título que equivale a uma tonelada de CO2 que deixou de ser emitida ou foi retirada da atmosfera. Funciona como um preço para a poluição: quem emite menos do que podia gera créditos e vende; quem emite mais precisa comprar. A ideia é tornar a redução de emissões financeiramente vantajosa.
Crédito de carbono realmente reduz emissões? +
Depende da qualidade. No mercado regulado, com teto definido por lei, o efeito é mais sólido. No mercado voluntário, muitos créditos têm qualidade duvidosa, e compensar não equivale a cortar a emissão na fonte. A precificação ajuda, mas não substitui a redução real, e exige fiscalização para não virar greenwashing.
Fontes e referências
- Primária State and Trends of Carbon Pricing - Banco Mundial
- Primária Prêmio de Ciências Econômicas de 2018 (William Nordhaus) - The Nobel Prize (2018)
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