No dia a dia
O que é, em palavras simples
Há coisas que fazem bem mas que as pessoas tendem a consumir de menos se ficar só por conta delas: estudar, se vacinar, usar cinto de segurança, poupar para a aposentadoria. O Estado então incentiva (ou até obriga) o consumo desses chamados bens meritórios, por achar que é para o bem das próprias pessoas e da sociedade. É um conceito útil para justificar educação obrigatória ou campanhas de vacinação, mas também polêmico: até onde o Estado deve decidir o que é bom para você? A linha entre cuidar e tutelar é justamente o debate.
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Como funciona
Por que existem
Duas justificativas. Uma é a externalidade: sua vacina protege os outros, sua educação beneficia a sociedade, então o valor social supera o privado, e sem incentivo se consome abaixo do ideal. A outra, mais polêmica, é o paternalismo: a ideia de que as pessoas, por miopia ou falta de informação, subestimam o próprio benefício futuro (poupar, estudar), e o Estado "corrige" essa escolha.
O nó da liberdade
A parte da externalidade é consensual entre economistas. A parte paternalista não: impor o que é "bom para você" tensiona a soberania do consumidor, princípio caro à economia. O debate moderno tenta um meio-termo com o "paternalismo libertário" (nudges), que empurra para a boa escolha sem proibir, mantendo a liberdade.
Visão técnica
Visão técnica
O conceito de bens meritórios (merit goods) foi introduzido por Richard Musgrave e é um dos mais teoricamente desconfortáveis da economia do setor público, porque colide com um pilar da disciplina: a soberania do consumidor (a premissa de que cada um é o melhor juiz do próprio bem-estar). Musgrave distinguiu o bem meritório do bem público clássico justamente nisso: a intervenção não se justifica (só) por falha de mercado no sentido técnico, mas por um juízo de que as preferências individuais reveladas estão "erradas" ou incompletas. Isso abre uma porta teórica delicada, pois, levado ao extremo, qualquer imposição estatal poderia ser rotulada de "bem meritório".
A economia moderna tende a reconstruir o conceito sobre bases menos paternalistas e mais defensáveis. Boa parte do que se chama bem meritório é, na verdade, externalidade positiva (educação e vacinação geram benefícios sociais que o indivíduo não internaliza) ou falha de informação, casos em que a intervenção tem fundamento eficientista padrão, sem precisar contestar as preferências. Outra parte conecta-se à economia comportamental: vieses como o viés do presente e a racionalidade limitada fazem as pessoas subinvestirem no próprio futuro (poupança, saúde preventiva), o que o "paternalismo libertário" de Thaler e Sunstein propõe corrigir com nudges (arquitetura de escolha) em vez de imposição, preservando a liberdade. O conceito de bens meritórios permanece, assim, no cruzamento entre eficiência, comportamento e filosofia política: é a ferramenta que nomeia a tensão entre respeitar a escolha individual e promover o bem-estar que a própria pessoa, em tese, desejaria, e que cada sociedade resolve de um jeito ao decidir o que torna obrigatório, o que incentiva e o que deixa livre.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Usar "bem meritório" para justificar qualquer imposição
Confundir com bem público
Veja também
Conceitos conectados
Externalidade
O efeito de uma atividade sobre quem não participou dela: um custo (poluição) ou um benefício (vacina) que não entra no preço.
Bem público
Um bem cujo uso por uma pessoa não impede o de outra e do qual é difícil excluir quem não paga: como a iluminação pública ou a defesa nacional.
Richard Thaler
O americano (1945-) que transformou as anomalias humanas em programa econômico: contabilidade mental, nudges e a economia comportamental aplicada. Nobel de 2017.
Funções do Estado na economia
As três grandes tarefas econômicas que cabem ao Estado, segundo Musgrave: corrigir falhas de mercado (alocação), reduzir desigualdades (distribuição) e suavizar as crises (estabilização).
Perguntas frequentes
O que são bens meritórios? +
São bens que o Estado incentiva ou impõe por julgar que as pessoas, sozinhas, os consumiriam de menos, como educação, vacinas, poupança previdenciária e cinto de segurança. A justificativa é parte externalidade (beneficiam a sociedade) e parte paternalista (corrigir a subvalorização do próprio benefício).
Por que o conceito é polêmico? +
Porque a parte paternalista colide com a soberania do consumidor, a ideia de que cada um é o melhor juiz do próprio bem-estar. Impor o que é "bom para você" tensiona a liberdade. A economia moderna tende a apoiar a intervenção em externalidade, falha de informação ou viés comportamental, e a preferir nudges à proibição.
Fontes e referências
- Acadêmica The Theory of Public Finance (conceito de merit goods) - Richard Musgrave (1959)
- Acadêmica Nudge (paternalismo libertário) - Richard Thaler e Cass Sunstein (2008)
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