No dia a dia
O que é, em palavras simples
Costuma-se dizer que os países pobres são subdesenvolvidos porque ainda não se desenvolveram, como se estivessem num estágio anterior, esperando a vez. André Gunder Frank virou essa ideia de cabeça para baixo com uma frase que ficou famosa: o desenvolvimento do subdesenvolvimento. Para ele, a pobreza da periferia não é um ponto de partida, é um ponto de chegada: foi produzida ativamente pelo mesmo processo histórico que enriqueceu o centro. Os países ricos não se desenvolveram apesar dos pobres, e sim em parte às custas deles, drenando recursos através de uma longa corrente que liga as metrópoles do mundo às suas satélites locais. Subdesenvolver, nessa visão, é um verbo, não um atraso.
No seu bolso
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01
Metrópole mundial
No topo da cadeia, concentra o excedente
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02
Satélite nacional
Drena a região, é drenada pelo centro
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03
Satélite local
A ponta da corrente, onde fica a pobreza
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04
Subdesenvolvimento
Produzido, não herdado
Indo mais fundo
Como funciona
Metrópole e satélite
No ensaio O Desenvolvimento do Subdesenvolvimento (1966) e no livro Capitalismo e Subdesenvolvimento na América Latina (1967), Frank propôs uma imagem em cadeia: o capitalismo forma uma rede de metrópoles e satélites, em que cada metrópole drena excedente de suas satélites. A capital mundial drena a nacional, que drena a regional, que drena a aldeia. O excedente sobe a corrente; a pobreza fica embaixo. Por isso, dizia ele, as regiões hoje mais miseráveis costumam ser as que um dia foram mais ligadas ao centro (as antigas zonas de açúcar ou de mineração), não as mais isoladas: foram desenvolvidas como satélites e depois sugadas.
A polêmica do isolamento
Uma conclusão provocadora seguia daí: os períodos em que a periferia mais cresceu por conta própria foram justamente aqueles em que o laço com o centro se afrouxou, guerras e crises que isolaram temporariamente a América Latina e a deixaram industrializar. A tese reforçava a ideia de que a ligação subordinada com o centro, e não a falta dela, é o que trava o desenvolvimento autônomo.
Visão técnica
A leitura da escola Dependência
Frank é uma figura de transição e de polêmica, em atribuição indireta fiel à obra. Formado em economia na Universidade de Chicago, rompeu com a ortodoxia que aprendeu e tornou-se um dos divulgadores mais influentes da dependência no mundo de língua inglesa, fazendo a ponte entre o pensamento latino-americano e o público acadêmico do Norte. Mais tarde, migrou para a análise dos sistemas-mundo, ao lado de Wallerstein e Samir Amin, e na fase final deu uma guinada radical: em ReOrient (1998), argumentou que a Ásia, e não a Europa, foi o centro da economia mundial durante a maior parte da história, e que a ascensão europeia foi um episódio recente e em parte acidental, uma tese que o aproximou da história econômica global e irritou tanto marxistas quanto liberais. A crítica de praxe, dura, veio de dentro da própria esquerda: Ernesto Laclau acusou Frank de confundir capitalismo com mero comércio, ao chamar de capitalista toda a cadeia metrópole-satélite desde a colônia, ignorando as relações de produção; e os casos de ascensão periférica desafiaram seu pessimismo sobre o desenvolvimento autônomo. Apesar disso, a frase desenvolvimento do subdesenvolvimento entrou no vocabulário permanente do tema, e a imagem da cadeia de drenagem ainda organiza o modo como muita gente pensa a desigualdade global. No grafo deste pilar, Frank é a ponte entre a dependência latino-americana e a análise dos sistemas-mundo.
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Mitos e erros comuns
Ler subdesenvolvimento como atraso
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Veja também
Conceitos conectados
Desenvolvimento econômico
A transformação que melhora de forma duradoura a vida de uma população: mais do que crescer o PIB, é mudar a estrutura econômica e ampliar liberdades.
Dependência
A teoria de que o subdesenvolvimento da periferia não é um atraso a ser superado, mas o produto histórico da sua relação subordinada com os países centrais.
Centro-periferia
O conceito de Raúl Prebisch e da CEPAL: a economia mundial se divide entre um centro industrial e uma periferia que exporta matérias-primas, e essa estrutura tende a se reproduzir.
Perguntas frequentes
O que significa "o desenvolvimento do subdesenvolvimento"? +
A tese de André Gunder Frank de que a pobreza da periferia não é um estágio anterior ao progresso, e sim um produto ativo do mesmo processo histórico que enriqueceu o centro, através de uma cadeia de metrópoles e satélites que drena excedente da base para o topo.
Qual a diferença entre Frank e a teoria do atraso? +
A teoria do atraso vê o país pobre como alguém que ainda não percorreu a estrada do desenvolvimento. Frank diz o oposto: a periferia foi subdesenvolvida de propósito pelo vínculo subordinado com o centro, e as regiões mais ligadas ao centro no passado costumam ser as mais pobres hoje.
Fontes e referências
- Acadêmica O Desenvolvimento do Subdesenvolvimento - André Gunder Frank (1966)
- Acadêmica Capitalismo e Subdesenvolvimento na América Latina - André Gunder Frank (1967)
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