No dia a dia
O que é, em palavras simples
Se o sistema capitalista mundial mantém a periferia subordinada por dentro, qual é a saída? A maioria dos economistas responde: integrar-se melhor, exportar mais, atrair investimento. Samir Amin deu a resposta oposta e ousada: desconectar-se. Para ele, tentar se desenvolver obedecendo às regras do mercado mundial é aceitar as regras escritas pelo centro, que mantêm a periferia na função de fornecedora barata. A alternativa seria a desconexão: não o isolamento total, mas submeter as relações com o exterior aos objetivos do próprio país, em vez de submeter o país às exigências do mercado global. Era uma defesa de soberania econômica radical, na contramão de toda a receita de abertura.
No seu bolso
Duas saídas para a periferia
Integração subordinada
- ›Seguir as regras do mercado mundial
- ›Exportar mais, atrair capital
- ›Função de fornecedor barato mantida
Desconexão (Amin)
- ›Projeto nacional e popular primeiro
- ›Relações externas subordinadas a ele
- ›Busca de desenvolvimento autônomo
Indo mais fundo
Como funciona
Acumulação em escala mundial
Na obra Acumulação em Escala Mundial (1970), Amin sustentou que o capitalismo só pode ser entendido como sistema global, e que a periferia não é um capitalismo incompleto, mas um capitalismo de tipo próprio, moldado para servir ao centro. O motor da subordinação é a troca desigual: a periferia exporta produtos cujo trabalho é mal remunerado e importa produtos do trabalho bem pago do centro, transferindo valor sistematicamente. O desenvolvimento periférico fica, assim, distorcido, voltado para fora e para o consumo das elites, não para as necessidades da maioria.
A desconexão
A proposta da desconexão (em francês, déconnexion) é a marca de Amin. Não significa fechar fronteiras e viver isolado, mas inverter a prioridade: organizar a economia a partir de um projeto nacional e popular, e relacionar-se com o mundo nos termos desse projeto, e não o contrário. É uma resposta política à dependência, pensada para os países do Sul, e Amin a defendeu como condição para um desenvolvimento autônomo que a integração subordinada, segundo ele, jamais permitiria.
Visão técnica
A leitura da escola Sistemas-mundo
Amin foi, ao mesmo tempo, teórico, militante e organizador do pensamento crítico do Sul global, em atribuição indireta fiel à obra. Nascido no Egito e formado em Paris, dirigiu institutos de pesquisa na África e foi uma voz central do chamado terceiro-mundismo, articulando intelectuais da periferia em torno de uma crítica ao que chamou de eurocentrismo: a ilusão, que ele combateu em livro próprio, de que o caminho europeu é o modelo universal que todos devem seguir. Sua análise convergiu com a de Wallerstein na ideia de sistema mundial, e os dois, com Frank e Giovanni Arrighi, formaram o núcleo da escola dos sistemas-mundo. A crítica de praxe é forte e vem de vários lados: a desconexão foi acusada de inviável num mundo de cadeias produtivas integradas, e as experiências reais de ruptura raramente produziram o desenvolvimento autônomo prometido; economistas liberais veem nela uma receita de empobrecimento, e mesmo parte da esquerda a considera voluntarista. Amin respondia que o custo de permanecer conectado e subordinado também é alto, e que a questão é política antes de ser técnica. A retomada dos debates sobre soberania econômica, desglobalização e multipolaridade trouxe sua obra de volta à discussão. No grafo deste pilar, Amin liga os sistemas-mundo de Wallerstein à troca desigual da tradição dependentista e ao marxismo de Marx.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Ler desconexão como autarquia
Ignorar a crítica de inviabilidade
Veja também
Conceitos conectados
Globalização
A integração crescente das economias do mundo, pelo comércio, capital, tecnologia e pessoas: encurta distâncias e acirra interdependências.
Dependência
A teoria de que o subdesenvolvimento da periferia não é um atraso a ser superado, mas o produto histórico da sua relação subordinada com os países centrais.
Centro-periferia
O conceito de Raúl Prebisch e da CEPAL: a economia mundial se divide entre um centro industrial e uma periferia que exporta matérias-primas, e essa estrutura tende a se reproduzir.
Perguntas frequentes
O que é a desconexão de Samir Amin? +
A proposta de que os países da periferia organizem a economia a partir de um projeto nacional e popular e subordinem a ele as relações com o exterior, em vez de submeter o país às regras do mercado mundial. Não é isolamento total, e sim inverter a prioridade entre o projeto interno e o mercado global.
O que Amin chamava de troca desigual? +
A transferência sistemática de valor da periferia para o centro: a periferia exporta produtos de trabalho mal remunerado e importa produtos do trabalho bem pago do centro, perdendo valor na troca. Para Amin, é o motor que mantém o desenvolvimento periférico distorcido e voltado para fora.
Fontes e referências
- Acadêmica Acumulação em Escala Mundial - Samir Amin (1970)
- Acadêmica Eurocentrismo - Samir Amin (1988)
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