No dia a dia
O que é, em palavras simples
Por que as pessoas costumam aceitar uma ordem econômica que as prejudica, sem revolta? Antonio Gramsci, pensando na prisão onde o regime fascista o trancou, deu uma resposta que mudou a forma de entender o poder. As classes dominantes não se mantêm só pela força (polícia, exército, lei), e sim, principalmente, pelo consenso: elas conseguem fazer com que sua visão de mundo, seus valores e o que consideram bom senso sejam aceitos como naturais por toda a sociedade, inclusive por quem é prejudicado pelo sistema. Isso acontece pela cultura, pela escola, pela igreja, pela mídia, por tudo que molda como pensamos. Gramsci chamou esse domínio pelas ideias de hegemonia. A consequência é poderosa: para mudar a economia, não basta tomar o poder político ou os meios de produção; é preciso disputar antes a cultura e o senso comum, onde a ordem se sustenta de verdade.
No seu bolso
Duas formas de dominar
Coerção
- ›Polícia, exército, lei
- ›O Estado como força
- ›Domínio imposto
Hegemonia (Gramsci)
- ›Escola, mídia, cultura
- ›A ordem parece natural
- ›Domínio consentido
Indo mais fundo
Como funciona
Hegemonia: poder pela cultura
O conceito de hegemonia cultural, desenvolvido nos Cadernos do Cárcere (escritos entre 1929 e 1935), é a grande contribuição de Gramsci. Ele observava que o marxismo clássico explicava mal por que as revoluções não aconteciam nos países capitalistas avançados, como Marx esperava. A resposta de Gramsci: nesses países, a classe dominante construiu uma hegemonia sólida na sociedade civil (escolas, jornais, igrejas, associações), de modo que seu domínio é consentido, não apenas imposto. O Estado é só a casca de força; o núcleo do poder está na capacidade de moldar o que as pessoas aceitam como natural.
Guerra de posição e intelectuais orgânicos
Daí derivam dois conceitos influentes. A guerra de posição: em sociedades de hegemonia forte, a transformação não vem de um assalto frontal ao poder (a guerra de movimento), e sim de uma disputa longa e paciente pelas instituições da cultura e da sociedade civil. E os intelectuais orgânicos: cada classe produz seus próprios pensadores, que articulam e difundem sua visão de mundo; disputar a hegemonia é, em parte, formar intelectuais capazes de dar voz e coerência aos interesses das classes subalternas.
Visão técnica
A leitura da escola Marxista
Gramsci é, a rigor, mais um teórico político e cultural do que um economista, mas sua influência sobre a economia política é grande demais para ignorar, em atribuição indireta fiel à obra. Ao deslocar o foco da base econômica para a superestrutura (a cultura, as ideias, as instituições), ele ofereceu ao marxismo uma resposta para a estabilidade do capitalismo e abriu caminho para análises que levam a sério o papel das ideias na economia, algo que dialoga, de longe, com a economia institucional e comportamental. O conceito de hegemonia transbordou o marxismo e virou ferramenta de análise cultural, de estudos de mídia e de ciência política em geral, usado inclusive por quem não compartilha suas premissas. A crítica de praxe vem de dois lados. Marxistas mais ortodoxos o acusam de culturalismo, de dar peso excessivo às ideias e de menos à economia, invertendo a ênfase de Marx. E críticos liberais apontam que a tese da hegemonia pode virar uma explicação imune à refutação: se as pessoas concordam com a ordem, é falsa consciência manipulada; se discordam, é resistência, o que torna a teoria difícil de testar. A biografia dá peso moral à obra: deputado comunista, Gramsci foi preso por Mussolini em 1926, e o promotor pediu que se impedisse aquele cérebro de funcionar por vinte anos; ele escreveu mesmo assim, doente, milhares de páginas, e morreu pouco depois de libertado, em 1937. No grafo deste pilar, Gramsci liga o marxismo de Marx ao terreno da cultura, da ideologia e do poder.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Achar que mudar a economia é só tomar o poder
Usar a hegemonia como explicação imune à refutação
Veja também
Conceitos conectados
Capitalismo
O sistema econômico baseado em propriedade privada, trabalho assalariado e mercados, em que a produção é guiada pela busca de lucro, não por um plano central.
Karl Marx
O filósofo alemão (1818-1883) que fez a crítica mais influente do capitalismo: O Capital analisa o sistema pela lente do conflito entre quem trabalha e quem emprega.
Rosa Luxemburgo
A polaco-alemã (1871-1919) que levou Marx ao mercado mundial: A Acumulação do Capital de 1913, a tese de que o capitalismo precisa de um fora não capitalista, e a liberdade de quem pensa diferente.
Perguntas frequentes
O que é hegemonia cultural? +
O conceito de Antonio Gramsci para o modo como as classes dominantes governam principalmente pelo consenso, e não pela força: fazem sua visão de mundo ser aceita como natural por toda a sociedade, pela cultura, pela escola e pela mídia, inclusive por quem o sistema prejudica.
O que é a guerra de posição de Gramsci? +
A estratégia de transformação social que, em vez de um assalto frontal ao poder, disputa de forma longa e paciente as instituições da cultura e da sociedade civil (escolas, mídia, associações), onde a hegemonia se sustenta. Mudar a economia passaria, antes, por mudar o senso comum.
Fontes e referências
- Acadêmica Cadernos do Cárcere (Quaderni del carcere) - Antonio Gramsci (1935)
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