No dia a dia
O que é, em palavras simples
Os países ricos pregam livre comércio à periferia; Ha-Joon Chang foi conferir como eles próprios enriqueceram, e encontrou tarifas, subsídios, cópia de tecnologia e bancos estatais em todos: Grã-Bretanha, Estados Unidos, Alemanha, Japão, todos protegeram a indústria nascente até ela aguentar o jogo, e então chutaram a escada (Kicking Away the Ladder, 2002, recuperando a expressão do alemão Friedrich List). Nascido na Coreia do Sul que viveu exatamente essa rota, professor em Cambridge e best-seller mundial (23 Coisas Que Não Nos Contaram Sobre o Capitalismo), Chang é a voz mais lida da economia do desenvolvimento heterodoxa.
No seu bolso
-
01
A pregação
Livre comércio receitado à periferia
-
02
A biografia dos ricos
Tarifas, subsídios e cópia na subida
-
03
A escada chutada
Regras globais proibindo a rota usada
-
04
O caso coreano
Proteção com disciplina de desempenho
Indo mais fundo
Como funciona
A tese histórica
O método de Chang é a história comparada das políticas: as tarifas americanas do século 19 estavam entre as mais altas do mundo enquanto os Estados Unidos alcançavam a Grã-Bretanha; a Coreia do pós-guerra (o caso que ele viveu e que a dissertação de mestrado do editor deste portal comparou ao Brasil) protegeu, subsidiou e disciplinou suas indústrias até a Samsung e a Hyundai aguentarem o mercado mundial. A conclusão: a indústria nascente de List e Hamilton não é heresia, é a biografia dos ricos, e proibi-la à periferia (via OMC, acordos e condicionalidades) é chutar a escada depois da subida.
O mercado como construção
O segundo golpe de Chang mira o próprio conceito de mercado livre: todo mercado é construído por regras (o que pode ser vendido, por quem, sob que condições, do trabalho infantil proibido aos remédios controlados), e chamar um arranjo particular de livre só esconde as escolhas embutidas. É a tese de Polanyi em versão pop, e a ponte com os nossos termos de variedades de capitalismo e instituições. O registro crítico de praxe: os ortodoxos respondem que proteção sem disciplina vira a substituição de importações que fracassou na América Latina, e que a Coreia funcionou pela cobrança de desempenho, não pela tarifa, o debate exato do nosso termo de Prebisch.
Visão técnica
A leitura da escola Institucional
Sua frase de abertura mais citada fixa o método:
"O mercado livre não existe. Todo mercado tem regras e limites que restringem a liberdade de escolha." (Ha-Joon Chang, 23 Coisas Que Não Nos Contaram Sobre o Capitalismo, 2010)
O programa changiano, em atribuição indireta fiel à obra: Kicking Away the Ladder (2002) reconstrói, com história das políticas, o argumento da indústria nascente (List, 1841; Hamilton, 1791) contra o anacronismo de julgar a escada pelos que já subiram, e a agenda institucional (Globalisation, Economic Development and the Role of the State) sustenta que as instituições de padrão global exigidas da periferia (proteção forte de patentes, abertura de capitais, bancos centrais independentes) chegaram nos ricos depois do desenvolvimento, não antes, invertendo a sequência receitada. A leitura madura do caso coreano, central na obra e na biografia, é a ponte com a literatura: o que distinguiu a Coreia da substituição de importações latino-americana foi a disciplina de desempenho (proteção condicionada a exportar, com prazo e cobrança), a síntese que o nosso termo de Prebisch chama de versão corrigida do programa, e que Alice Amsden e Robert Wade documentaram em paralelo.
O registro crítico do protocolo: os ortodoxos contestam a leitura histórica (tarifas explicam menos que instituições e capital humano, respondem), apontam os fracassos da proteção sem cobrança e lembram que correlação histórica não é receita transferível, a réplica metodológica que os nossos termos de evidência equipam o leitor a avaliar. No grafo deste pilar, Chang fecha o triângulo do desenvolvimento com Prebisch (a tese original) e Acemoglu (as instituições com identificação): três programas que disputam a mesma pergunta, por que alguns alcançam e outros não, com métodos e respostas distintos, o pluralismo desta casa em estado puro.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Ler Chang como defesa de qualquer proteção
Confundir crítica do rótulo com negação do mercado
Veja também
Conceitos conectados
Protecionismo
A política de proteger a produção nacional da concorrência estrangeira, com tarifas e barreiras: o eterno rival do livre comércio.
Desenvolvimento econômico
A transformação que melhora de forma duradoura a vida de uma população: mais do que crescer o PIB, é mudar a estrutura econômica e ampliar liberdades.
Raúl Prebisch
O argentino (1901-1986) que fundou o estruturalismo latino-americano: o mundo dividido em centro e periferia, e a tese de que exportar matéria-prima empobrece relativamente.
Perguntas frequentes
O que significa "chutar a escada"? +
A tese de Chang (recuperando Friedrich List): os países ricos subiram com tarifas, subsídios e cópia de tecnologia, e depois de ricos passaram a proibir essa rota à periferia, via regras globais. A história das políticas dos próprios ricos desmente a receita que eles pregam.
O caso coreano prova que proteção funciona? +
Prova que proteção com disciplina pode funcionar: a Coreia condicionou o apoio a desempenho exportador, com prazo e cobrança, o que a distingue da proteção sem cobrança que fracassou alhures. O debate com os ortodoxos (instituições e capital humano como causas rivais) segue aberto, e o portal o registra.
Fontes e referências
- Acadêmica Chutando a Escada (Kicking Away the Ladder) - Ha-Joon Chang (2002)
- Acadêmica 23 Coisas Que Não Nos Contaram Sobre o Capitalismo - Ha-Joon Chang (2010)
Sua conta gratuita
Salve termos, marque trechos e acompanhe seu progresso.
Crie uma conta grátis para favoritar conceitos, guardar trechos e ganhar pontos enquanto aprende economia.
Receba o dicionário no e-mail
Um conceito de economia explicado por semana.
Confirmação por e-mail (double opt-in). Sem spam, cancele quando quiser.