No dia a dia
O que é, em palavras simples
A teoria do equilíbrio promete que desvios se corrigem: regiões pobres atraem capital barato, alcançam as ricas, o sistema converge. Gunnar Myrdal observou o mundo real e descreveu o contrário: a causação circular cumulativa. Pobreza gera baixa escolaridade, que gera baixa produtividade, que gera pobreza; regiões ricas sugam capital e talentos das pobres (os efeitos regressivos), e o fosso se alarga sozinho. Quem já viu a diferença entre o bairro que só melhora e o que só piora conhece o mecanismo. O Nobel de 1974, numa ironia histórica deliberada, foi dividido entre Myrdal, social-democrata planejador, e Hayek, seu oposto exato.
No seu bolso
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01
Choque inicial
Uma vantagem ou desvantagem qualquer
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02
Variáveis juntas
Renda, escola, saúde movem na mesma direção
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03
Amplificação
Efeitos regressivos sugam capital e talento
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04
Círculo cumulativo
O fosso se alarga sem política deliberada
Indo mais fundo
Como funciona
Do dilema americano à Ásia
An American Dilemma (1944), encomendado para explicar a questão racial americana, aplicou o aparato: discriminação e pobreza negra se retroalimentavam num círculo que só intervenção deliberada quebraria, e o livro foi citado pela Suprema Corte na decisão que derrubou a segregação escolar (Brown v. Board, 1954), talvez o maior impacto jurídico de uma obra econômica. Asian Drama (1968) levou a lente ao desenvolvimento asiático com a honestidade que virou marca: os Estados moles (soft states), incapazes de impor obrigações às elites, travavam o círculo virtuoso, diagnóstico institucional décadas antes do vocabulário.
O metodólogo incômodo
Myrdal foi também o crítico interno da pretensão de neutralidade: toda economia carrega valores, sustentou a vida inteira, e a honestidade científica está em declará-los, não em escondê-los atrás da técnica, tese que é protocolo desta casa. A dupla sueca (com Alva Myrdal, Nobel da Paz, a única dupla de cônjuges com Nobels distintos) desenhou peças do Estado de bem-estar sueco que o termo respectivo descreve.
Visão técnica
A leitura da escola Institucional
O aparato da causação circular cumulativa, em atribuição indireta fiel a Economic Theory and Underdeveloped Regions (1957): sistemas sociais não tendem ao equilíbrio, porque as variáveis se movem juntas e na mesma direção (o choque inicial é amplificado, não amortecido), com os efeitos regressivos (backwash: migração seletiva, fuga de capital e de demanda das regiões atrasadas) dominando os propagadores (spread) na ausência de política deliberada. A tese antecipa formalmente as economias de aglomeração e a nova geografia econômica que Krugman matematizaria décadas depois (com o reconhecimento de linhagem registrado na literatura), os modelos de armadilha de pobreza e histerese, e a agenda de North e Hirschman: instituições e encadeamentos decidindo se o círculo gira para cima ou para baixo.
O Nobel partilhado de 1974 pertence à história das ideias: a academia sueca premiou no mesmo ato Myrdal e Hayek, o planejador social-democrata e o crítico do planejamento, pela mesma área (teoria monetária e flutuações, e a análise da interdependência entre fenômenos econômicos e sociais), e ambos reclamaram do par, o que diz tudo sobre a década. A leitura madura encontra a convergência que os rivais não admitiram: os dois desconfiavam do equilíbrio mecânico e puseram instituições e processos no centro, divergindo sobre quem conserta o círculo (o Estado deliberado de Myrdal, a ordem espontânea de Hayek), exatamente o eixo que o grafo deste pilar permite percorrer. O registro crítico de praxe: Asian Drama subestimou o arranque asiático que começava (a Coreia do capítulo 14 do nosso Clark resenhado), erro de prognóstico que o próprio aparato explica, círculos viram, e que lembra ao leitor a régua deste portal: pensadores se julgam pelo mecanismo que legaram, não pela bola de cristal.
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Veja também
Conceitos conectados
Desenvolvimento econômico
A transformação que melhora de forma duradoura a vida de uma população: mais do que crescer o PIB, é mudar a estrutura econômica e ampliar liberdades.
Desigualdade
A distribuição desigual de renda ou riqueza numa sociedade, medida por índices como o de Gini: um número entre a igualdade total e a concentração absoluta.
Friedrich Hayek
O austríaco (1899-1992) que fez do conhecimento o centro da economia: nenhum planejador reúne a informação que os preços coordenam. Rival de Keynes, Nobel de 1974.
Perguntas frequentes
O que é a causação circular cumulativa? +
O mecanismo de Myrdal em que vantagens e desvantagens se retroalimentam: pobreza gera baixa escolaridade que gera pobreza, e regiões ricas sugam capital e talento das pobres. Sem política deliberada, o sistema amplia desvios em vez de corrigi-los, o oposto do equilíbrio dos manuais.
Por que Myrdal e Hayek dividiram o mesmo Nobel? +
A academia premiou em 1974, deliberadamente, os dois polos do debate: o planejador social-democrata e o crítico do planejamento, ambos estudiosos de moeda, flutuações e da interdependência entre economia e sociedade. Ambos reclamaram do par, e a história fez do prêmio o símbolo do pluralismo.
Fontes e referências
- Acadêmica Economic Theory and Underdeveloped Regions - Gunnar Myrdal (1957)
- Acadêmica Prêmio Nobel de Economia 1974: Myrdal e Hayek - Nobel Prize (1974)
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