No dia a dia
O que é, em palavras simples
Um município distribui material escolar e, no ano seguinte, as notas sobem. O programa funcionou? Impossível saber: talvez as escolas atendidas já estivessem melhorando, talvez a economia local tenha ajudado. O ensaio controlado randomizado resolve o problema com uma ideia emprestada da medicina: sortear. Entre as escolas elegíveis, metade recebe o programa (tratamento) e metade ainda não (controle). Como o sorteio não escolhe ninguém por mérito, renda ou sorte na vida, os dois grupos começam estatisticamente iguais, e qualquer diferença que apareça depois só pode ter uma explicação: o programa.
No seu bolso
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01
População elegível
Escolas, famílias ou vilarejos que poderiam receber o programa
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02
Sorteio
O acaso, e não o mérito ou a renda, divide os grupos
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03
Tratamento x controle
Um grupo recebe agora; o outro mostra o contrafactual
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04
Comparação
A diferença entre os grupos é o efeito causal do programa
Indo mais fundo
Como funciona
Por que o sorteio é a peça-chave
O inimigo de toda avaliação é o viés de seleção: quem procura um programa (ou é escolhido para ele) já era diferente de quem não procura. Comparar participantes com não participantes mistura o efeito do programa com as diferenças que já existiam. A randomização corta esse nó pela raiz: ninguém se seleciona, o acaso distribui, e o grupo de controle passa a mostrar exatamente o que teria acontecido com os tratados se o programa não existisse, o contrafactual que nenhuma comparação ingênua oferece.
Da medicina à política pública
Nos anos 1990 e 2000, uma geração de economistas levou o método dos laboratórios farmacêuticos para o campo: microcrédito, mosquiteiros, reforço escolar, transferências de renda, tudo passou a ser testado com sorteio em vilarejos e escolas reais. O laboratório J-PAL, fundado no MIT, transformou a prática em escala industrial, com centenas de avaliações em dezenas de países, e os achados (alguns surpreendentes, como o efeito modesto do microcrédito) mudaram programas que custam bilhões.
Visão técnica
Visão técnica
O Prêmio Nobel de 2019 a Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer consagrou a abordagem experimental no combate à pobreza, citando explicitamente a estratégia de fatiar grandes perguntas em experimentos menores e respondíveis. O poder do método está na validade interna: dentro do experimento, a estimativa do efeito causal é tão limpa quanto a estatística permite. As críticas, lideradas por nomes como Angus Deaton, miram o resto: a validade externa (o que funcionou num distrito de Quênia funciona no semiárido brasileiro?), os efeitos de equilíbrio geral que só aparecem em escala (treinar cem pessoas melhora o emprego delas; treinar um país inteiro muda os salários de todos), as questões éticas de sortear quem recebe ajuda e o viés de pauta: pesquisadores respondem o que é randomizável, não necessariamente o que mais importa. A síntese honesta do campo: o RCT é a régua mais confiável onde cabe, e não cabe em toda pergunta (ninguém randomiza a taxa de juros). Boas práticas atuais incluem pré-registro do plano de análise e replicação em contextos múltiplos antes de generalizar.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Generalizar um experimento como lei universal
Achar que tudo se randomiza
Veja também
Conceitos conectados
Viés de seleção
O erro de tirar conclusões de uma amostra que se selecionou sozinha: os dados são verdadeiros, mas quem entrou (e quem sumiu) deles distorce tudo.
Esther Duflo
A francesa (1972-) que levou o método experimental ao combate à pobreza: testar políticas como se testam remédios. Nobel de 2019, a mais jovem da história do prêmio.
Abhijit Banerjee
O indiano (1961-) que trocou as grandes teorias da pobreza por perguntas pequenas e respondíveis: cofundador do J-PAL, coautor de Poor Economics e Nobel de 2019 com Esther Duflo e Michael Kremer.
Pré-requisitos
Conceitos conectados
Perguntas frequentes
O que é um ensaio controlado randomizado (RCT)? +
É uma avaliação em que o acesso a um programa é sorteado entre elegíveis: o grupo sorteado recebe (tratamento) e o restante serve de comparação (controle). Como o sorteio iguala os grupos no ponto de partida, a diferença de resultados ao final mede o efeito causal do programa, sem o viés de quem se autosseleciona.
Quais as limitações dos RCTs? +
Validade externa (o resultado vale naquele contexto; generalizar exige replicação), efeitos de escala que o piloto não captura, custo e tempo, e perguntas que não se randomizam, como juros e câmbio. A crítica acadêmica, associada a Angus Deaton, lembra que o método responde melhor perguntas pequenas e bem fatiadas.
Fontes e referências
- Fonte Press release: The Prize in Economic Sciences 2019 - Nobel Prize (2019)
- Acadêmica Poor Economics - Abhijit Banerjee e Esther Duflo (2011)
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