No dia a dia
O que é, em palavras simples
Um programa social é lançado e, um ano depois, os participantes estão melhor. Sucesso? Impossível saber sem responder: melhor comparado com quê? Talvez todos estivessem melhorando, com ou sem programa. O grupo de controle existe para responder: pessoas iguais às tratadas que não receberam a intervenção. A diferença entre os dois grupos, e só ela, é o efeito. E o jeito mais limpo de garantir grupos iguais é o sorteio: o experimento randomizado, padrão-ouro da medicina que a economia adotou em escala.
No seu bolso
A diferença que revela o efeito
Grupo tratado
- ›Recebe o programa por sorteio
- ›Evolui com tratamento
Grupo de controle
- ›Igual em tudo, sem o programa
- ›Mostra o que teria acontecido
Indo mais fundo
Como funciona
Por que o sorteio é mágico
Se quem participa do programa se voluntariou, os grupos já nasceram diferentes (motivação, recursos, informação), e a comparação mistura o efeito do programa com o efeito de ser voluntário, o viés de seleção. O sorteio corta esse nó: ao distribuir o tratamento ao acaso entre inscritos, garante que os grupos sejam estatisticamente idênticos em tudo, inclusive no que ninguém mediu. Qualquer diferença posterior só pode vir do tratamento.
A economia que virou laboratório
Os experimentos randomizados (RCTs) transformaram a economia do desenvolvimento: em vez de debater em tese se microcrédito funciona, sorteiam-se aldeias e mede-se. Esther Duflo, Abhijit Banerjee e Michael Kremer receberam o Nobel de 2019 por essa abordagem, que testou de mosquiteiros a reforço escolar e derrubou intuições dos dois lados do debate (o microcrédito, por exemplo, mostrou efeitos bem mais modestos que a lenda). No Brasil e no mundo, avaliações randomizadas viraram régua de política pública séria.
Visão técnica
Visão técnica
O experimento randomizado controlado é a implementação direta do modelo de resultados potenciais: a randomização torna o tratamento independente dos potenciais resultados, de modo que a média do grupo de controle estima o contrafactual dos tratados, e a diferença de médias, o efeito causal médio, com a incerteza quantificável pela própria aleatorização (a lógica de R. A. Fisher, que formalizou o desenho experimental nos anos 1920-30). A migração para a economia, das fazendas experimentais de Fisher aos RCTs de campo do J-PAL fundado por Duflo e Banerjee, escalou o método a centenas de avaliações com governos e ONGs, premiadas no Nobel de 2019 pela abordagem experimental ao combate à pobreza global.
A maturidade do método inclui seu manual de limitações, debatido com franqueza na própria literatura. Validade externa: o efeito numa amostra de aldeias específicas sob implementação cuidadosa não se transplanta automaticamente a outra escala ou contexto (efeitos de equilíbrio geral aparecem quando o programa é universalizado). Efeitos de comportamento sob observação, atritos éticos (negar tratamento ao controle exige desenho responsável, como listas de espera) e a crítica de cientistas como Angus Deaton: sem teoria do mecanismo, o RCT diz que funcionou ali, não por que nem onde mais funcionará. A síntese contemporânea combina as forças: desenhos randomizados para credibilidade interna, teoria e replicação em contextos múltiplos para transportabilidade, e métodos quase-experimentais onde sortear é impossível. Para o leitor, a herança prática é uma pergunta-reflexo diante de qualquer alegação de eficácia, de remédio a política pública: qual era o grupo de controle, e como ele foi formado?
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Comparar voluntários com não voluntários
Transplantar o resultado sem contexto
Veja também
Conceitos conectados
Nudge (empurrão)
O conceito de Thaler e Sunstein: pequenas mudanças no modo de apresentar as opções que guiam a melhores decisões, sem proibir nada nem alterar incentivos econômicos.
Viés de seleção
O erro de tirar conclusões de uma amostra que se selecionou sozinha: os dados são verdadeiros, mas quem entrou (e quem sumiu) deles distorce tudo.
Experimento natural
A situação em que a vida divide as pessoas em grupos como um sorteio faria: a fronteira, a regra, o acaso histórico que permite medir causa sem laboratório.
Esther Duflo
A francesa (1972-) que levou o método experimental ao combate à pobreza: testar políticas como se testam remédios. Nobel de 2019, a mais jovem da história do prêmio.
Irving Fisher
O americano (1867-1947) que fundou a macroeconomia monetária: equação de trocas, juro real, deflação de dívidas. E o autor da previsão mais infeliz da história das finanças.
Abhijit Banerjee
O indiano (1961-) que trocou as grandes teorias da pobreza por perguntas pequenas e respondíveis: cofundador do J-PAL, coautor de Poor Economics e Nobel de 2019 com Esther Duflo e Michael Kremer.
Perguntas frequentes
Para que serve o grupo de controle? +
Para revelar o contrafactual: o que teria acontecido sem o tratamento. Sem ele, "melhorou depois do programa" não distingue o efeito do programa da melhora que ocorreria de qualquer forma. A diferença entre tratados e controle é a medida do efeito.
Por que sortear quem recebe o tratamento? +
Porque o sorteio cria grupos estatisticamente idênticos em tudo, inclusive no que não se consegue medir (motivação, saúde, contexto). Assim, qualquer diferença posterior só pode vir do tratamento. É o padrão-ouro que a economia adotou da medicina, premiado no Nobel de 2019.
Fontes e referências
- Acadêmica Poor Economics - Abhijit Banerjee e Esther Duflo (2011)
- Acadêmica Prêmio Nobel de Economia 2019: Banerjee, Duflo e Kremer - Nobel Prize (2019)
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