No dia a dia
O que é, em palavras simples
Mais da metade da humanidade vive em cidades, e elas concentram a maior parte da produção econômica. Por quê? Se a terra é mais cara, o trânsito é pior e tudo é mais apertado, o que faz tanta gente e tanta empresa se amontoarem no mesmo lugar? A economia urbana responde a essa pergunta: cidades existem porque a proximidade gera ganhos (mão de obra, ideias, fornecedores, clientes, tudo perto), e esses ganhos compensam os custos de morar colado num monte de gente. O mesmo campo estuda o outro lado da moeda: por que a terra urbana custa o que custa, por que o trânsito trava, por que bairros se valorizam e expulsam quem morava ali, e por que algumas regiões de um país ficam ricas enquanto outras ficam para trás.
No seu bolso
Indo mais fundo
Como funciona
A força que junta e os custos que separam
A cidade é um equilíbrio entre uma força de atração e várias forças de repulsão. A atração são as economias de aglomeração: juntar pessoas e empresas barateia o acesso a trabalhadores, fornecedores e conhecimento. As forças contrárias são os custos da concentração: terra e aluguel caros, deslocamentos longos, congestionamento, poluição. Onde a atração supera os custos, a cidade cresce; o tamanho e o formato dela saem desse cabo de guerra.
Os grandes temas
A economia urbana e regional reúne perguntas conectadas: por que firmas se aglomeram (aglomeração), quanto vale a terra e por quê (renda da terra), por que o trânsito é uma externalidade (custo de congestionamento), por que a valorização expulsa moradores (gentrificação) e por que regiões de um mesmo país divergem (desigualdade regional). São facetas de um único fenômeno: o espaço importa para a economia.
Visão técnica
Visão técnica
A economia urbana e regional trata o espaço como uma variável econômica de primeira ordem, e não como pano de fundo. Seu ponto de partida é um paradoxo: se houvesse retornos constantes de escala e nenhuma vantagem na proximidade, a atividade econômica se espalharia uniformemente para economizar nos custos de transporte e de terra, e cidades grandes não existiriam. Que elas existam, e concentrem produtividade e salários acima da média, é a evidência de que há retornos crescentes e economias de aglomeração operando: forças centrípetas (compartilhamento de insumos e infraestrutura, casamento mais fino entre vagas e trabalhadores, e transbordamento de conhecimento, os três "S" de sharing, matching, learning de Duranton e Puga) que se contrapõem a forças centrífugas (preço da terra, congestionamento, deseconomias).
O campo articula tradições complementares. A teoria da localização e da renda da terra, de von Thünen a Alonso, explica o gradiente de preços e usos do solo a partir da acessibilidade. A nova geografia econômica de Paul Krugman (1991), que lhe rendeu o Nobel de 2008, formalizou como a interação entre retornos crescentes, custos de transporte e mobilidade dos fatores gera endogenamente a aglomeração e o padrão centro-periferia, sem precisar supor diferenças geográficas prévias. E a economia regional, de Myrdal e Hirschman a Furtado, mostra que essas mesmas forças, deixadas ao mercado, tendem a concentrar o desenvolvimento e ampliar desigualdades territoriais. Jane Jacobs, por sua vez, deslocou o olhar para a diversidade urbana como motor da inovação, argumentando que as cidades são a fonte do crescimento econômico, e não seu mero resultado. O fio comum é que a proximidade é, ao mesmo tempo, a maior vantagem das cidades e a origem de seus problemas mais difíceis (terra cara, congestionamento, segregação), de modo que política urbana é, em larga medida, a gestão dessa tensão.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Tratar a cidade como só problema (ou só solução)
Ignorar o espaço na análise econômica
Veja também
Conceitos conectados
Celso Furtado
O paraibano (1920-2004) que explicou o Brasil pela economia: o subdesenvolvimento não é atraso na fila, é uma formação histórica própria. Fundador da SUDENE, expoente da CEPAL.
Albert Hirschman
O alemão-americano (1915-2012) impossível de classificar: saída e voz, os encadeamentos do desenvolvimento e a retórica da intransigência. O economista das possibilidades.
Gunnar Myrdal
O sueco (1898-1987) da causação circular cumulativa: vantagens e desvantagens se retroalimentam, e o equilíbrio é a exceção. Dividiu o Nobel de 1974 com Hayek, seu oposto.
Paul Krugman
O americano (1953-) que explicou por que países parecidos comerciam entre si (escala, não diferença) e virou o colunista de economia mais lido do mundo. Nobel de 2008.
Economia da aglomeração
Os ganhos de produtividade que surgem quando pessoas e empresas se concentram num mesmo lugar: mais mão de obra, mais fornecedores e, sobretudo, ideias que circulam, segundo Marshall, "no ar".
Desigualdade regional
Por que, dentro de um mesmo país, algumas regiões ficam ricas e outras para trás: as forças de mercado tendem a concentrar o desenvolvimento, e reverter isso costuma exigir ação deliberada.
Renda da terra
O ganho que o dono da terra recebe apenas por possuí-la, sem trabalhar nem investir: Ricardo o explicou pela diferença de qualidade e localização, e daí veio a ideia de tributar a terra.
Gentrificação
O processo em que a valorização de um bairro popular atrai moradores e negócios de maior renda e, no caminho, encarece tudo e expulsa os antigos moradores que não conseguem mais pagar para ficar.
Custo de congestionamento
O custo que cada carro a mais impõe a todos os outros ao piorar o trânsito, um custo que o motorista não paga, o que faz a via lotar além do socialmente eficiente, e justifica o pedágio urbano.
Perguntas frequentes
O que é economia urbana? +
É o campo que estuda por que as cidades existem, crescem e concentram a produção, e os custos disso: preço da terra, congestionamento, gentrificação e desigualdade regional. A ideia central é que a proximidade gera ganhos (as economias de aglomeração) que compensam, até certo ponto, os custos de viver amontoado.
Por que tanta gente e tanta empresa se concentram nas cidades? +
Porque a proximidade barateia o acesso a trabalhadores, fornecedores, clientes e conhecimento, gerando produtividade e salários acima da média. Essa força de atração (economias de aglomeração) se contrapõe aos custos da concentração (terra cara, trânsito). Onde a atração vence, a cidade cresce.
Fontes e referências
- Acadêmica Prêmio Nobel de Economia 2008 (Paul Krugman, geografia econômica) - The Nobel Prize (2008)
- Primária IBGE: cidades, arranjos populacionais e regiões - IBGE
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