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Teoria econômica Nível 1 Iniciante

Correlação não é causalidade

também conhecido como: correlação espúria, correlação e causalidade

Duas coisas andando juntas não significa que uma causa a outra: a regra de ouro da leitura de dados e o erro mais cometido em manchetes, debates e decisões.

Redação Blog do Brasil atualizado em 10 de junho de 2026

No dia a dia

O que é, em palavras simples

Nos meses em que a venda de sorvete sobe, os afogamentos também sobem. Sorvete causa afogamento? Claro que não: o verão causa os dois. Esse é o exemplo clássico da regra mais importante da leitura de dados: correlação (duas coisas variando juntas) não é causalidade (uma provocar a outra). Parece óbvio no sorvete, mas o mesmo erro, disfarçado, sustenta manchetes, propagandas e decisões todos os dias: quem toma vitamina vive mais (ou quem cuida da saúde faz as duas coisas?), escolas privadas ensinam melhor (ou selecionam alunos com mais recursos?).

No seu bolso

Quem dorme com sapato acorda com dor de cabeça. Antes de culpar o sapato, procure a terceira variável: a noite de excessos que causou os dois.
Anatomia do conceito

X e Y andam juntos: os três suspeitos

  • X causa Y 34%
  • Y causa X (reversa) 33%
  • Z causa os dois (confusão) 33%

Indo mais fundo

Como funciona

Os três suspeitos de sempre

Quando X e Y andam juntos, há sempre três explicações concorrentes. Causalidade direta: X causa Y. Causalidade reversa: Y causa X (países ricos têm mais médicos porque são ricos, ou ficaram ricos por tê-los?). E a terceira variável: algo escondido causa os dois, como o verão do sorvete, o chamado fator de confusão. Distinguir entre as três é o trabalho central da econometria, e nenhum gráfico de duas linhas subindo juntas o faz sozinho.

Como se estabelece causa

O padrão-ouro é o experimento: sortear quem recebe o tratamento elimina as outras explicações, porque os grupos ficam iguais em tudo, exceto no tratamento. Quando o experimento é impossível (não se sorteia quem nasce pobre), entram os desenhos quase-experimentais: experimentos naturais, comparações antes-e-depois com grupos de controle, descontinuidades de regras. A pergunta-chave do leitor diante de qualquer estudo: comparado com quê, e por que essa comparação é justa?

Visão técnica

Visão técnica

A formalização da inferência causal transformou o aforismo em arcabouço. No modelo de resultados potenciais (Neyman-Rubin), o efeito causal é a diferença entre o que aconteceu com tratamento e o que teria acontecido sem ele, um contrafactual por definição inobservável para o mesmo indivíduo; todo método causal é uma estratégia para construir o contrafactual crível, e a correlação simples falha porque tratados e não tratados diferem por seleção (quem escolhe tratamento difere de quem não escolhe). A randomização resolve por construção; os métodos quase-experimentais (instrumentos, diferenças em diferenças, descontinuidades) resolvem sob hipóteses explícitas e testáveis em parte, e a linguagem gráfica de Judea Pearl sistematiza quais controles fecham as portas dos confundidores e quais as abrem (o aviso contra controlar por colisores, o erro sofisticado).

O repertório de patologias merece catálogo: correlações espúrias por tendências comuns (duas séries que crescem no tempo correlacionam-se com quase tudo, a armadilha clássica de séries temporais que Yule já documentara em 1926), causalidade reversa, viés de variável omitida e viés de seleção, cada qual com seu antídoto de desenho. A régua editorial decorrente, e o motivo de este termo existir num portal YMYL: diante de estudo mostra que, perguntar pela fonte da variação (quem decidiu quem recebeu o quê?), pelo grupo de comparação e pela robustez. A economia adotou essa disciplina na revolução da credibilidade, e o leitor pode adotá-la no café da manhã: a maioria das manchetes causais não sobrevive às três perguntas.

No mercado

Ações de empresas que patrocinam o Super Bowl sobem? Países que consomem mais chocolate ganham mais Nobel? Correlações reais, causalidade nenhuma: o filtro vale dobrado para dados financeiros.

Atenção

Mitos e erros comuns

Aceitar o gráfico de duas linhas como prova

Séries que sobem juntas no tempo correlacionam-se com quase qualquer coisa que também sobe. Sem desenho que isole a variação relevante, o gráfico bonito é retórica, não evidência.

Descartar toda correlação como inútil

Correlação não prova causa, mas orienta hipóteses, prediz (para prever chuva basta correlação com nuvens) e, combinada a desenho de identificação, vira evidência causal. O erro está no salto automático, não na ferramenta.

Veja também

Conceitos conectados

Perguntas frequentes

Por que correlação não basta para provar causa? +

Porque duas coisas podem andar juntas por três motivos: uma causa a outra, a outra causa a primeira (causalidade reversa) ou uma terceira variável causa as duas (confusão). Só um desenho de pesquisa que isole a variação relevante distingue entre eles.

Como saber se um estudo provou causalidade? +

Três perguntas: de onde veio a variação (sorteio, regra, acaso ou escolha dos participantes)? Qual o grupo de comparação e por que é justo? O resultado resiste a outras explicações? Estudos sérios respondem às três; manchetes raramente.

Fontes e referências

  • Acadêmica Why Do We Sometimes Get Nonsense-Correlations Between Time-Series? (Journal of the Royal Statistical Society) - George Udny Yule (1926)
  • Acadêmica Mostly Harmless Econometrics - Joshua Angrist e Jorn-Steffen Pischke (2009)

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