No dia a dia
O que é, em palavras simples
Piero Sraffa publicou pouquíssimo e cada tiro derrubou um edifício. Aos 27, um artigo demoliu a teoria da firma de Marshall (custos e concorrência perfeita não param em pé juntos), abrindo caminho para a concorrência imperfeita de Joan Robinson. Depois, vinte anos editando as obras completas de Ricardo com padrão que virou lenda. Por fim, um livrinho de 99 páginas (1960) que reativou a economia clássica e municiou Cambridge na guerra do capital. Amigo íntimo de Gramsci (a quem levava livros na prisão) e de Wittgenstein (cuja filosofia ajudou a virar), o italiano de Cambridge é o pensador raro cuja influência excede a obra em ordens de grandeza.
No seu bolso
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01
1926
O artigo que demoliu a firma de Marshall
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02
Ricardo (1951-73)
A edição que refundou os clássicos
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03
1960
99 páginas: produção de mercadorias
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04
Controvérsia do capital
Cambridge armada, Samuelson concede
Indo mais fundo
Como funciona
Os três golpes
O artigo de 1926: se rendimentos crescentes dominam a indústria, a concorrência perfeita marshalliana é insustentável; a saída (firmas com poder de preço) viraria a revolução da concorrência imperfeita. A edição de Ricardo (1951-73): a reconstrução filológica que devolveu à economia clássica sua estrutura própria (o excedente distribuído entre classes), distinta da neoclássica. E Produção de Mercadorias por Meio de Mercadorias (1960): o sistema em que preços e distribuição se determinam pelas condições técnicas de produção e pelo conflito distributivo, sem oferta e demanda de fatores.
A controvérsia do capital
O livrinho de 1960 armou Cambridge (Inglaterra) na controvérsia que o termo de Joan Robinson narra: a demonstração do reswitching (a mesma técnica pode ser a mais lucrativa a juros baixos e altos) quebrou a relação monotônica entre quantidade de capital e taxa de juros que a função de produção agregada exige, e Samuelson admitiu por escrito. A profissão seguiu usando o aparato (com a ressalva metodológica registrada), e a escola neo-ricardiana que carrega o nome de Sraffa mantém viva a tradição do excedente, ponte moderna entre os clássicos, Marx e os pós-keynesianos.
Visão técnica
A leitura da escola Clássica
O programa sraffiano, em atribuição indireta fiel ao subtítulo de 1960 (Prelúdio a uma Crítica da Teoria Econômica): demonstrar que um sistema de preços de produção coerente dispensa utilidade, fatores escassos e produtividade marginal, exigindo apenas as condições técnicas (mercadorias produzindo mercadorias) e uma variável distributiva exógena (salário ou lucro), com a fronteira salário-lucro tornando explícito o conflito que a parábola neoclássica do capital encobria. Os resultados técnicos (a mercadoria-padrão resolvendo o problema do valor invariável de Ricardo; o reswitching e a reversão de capital como contraexemplos) são reconhecidos como corretos pela própria síntese (Samuelson, 1966), e o debate deslocou-se para o peso: a teoria aplicada seguiu com funções agregadas como aproximação pragmática, e a crítica sraffiana permanece como a advertência de fundações que o termo da controvérsia registra.
A herança é tripla: a escola neo-ricardiana (Garegnani, Pasinetti) que reconstrói valor e distribuição na tradição do excedente; a ponte com Marx (o problema da transformação relido sem a metafísica do valor-trabalho, polêmica interna às heterodoxias até hoje); e as amizades que mudaram outras disciplinas, documentadas pelos biografados: Gramsci recebeu de Sraffa os meios de escrever os Cadernos do Cárcere, e Wittgenstein atribuiu à crítica persistente de Sraffa o abandono do Tractatus rumo às Investigações, talvez o maior impacto filosófico jamais exercido por um economista em conversas de corredor. No grafo deste pilar, Sraffa liga Ricardo (que editou) a Joan Robinson (que armou) e a Marx (que tentou refundar), e encarna a lição metodológica de que rigor e heterodoxia não são opostos: ninguém acusou o livrinho de 99 páginas de imprecisão, apenas de inconveniência.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
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Achar que a controvérsia do capital morreu
Veja também
Conceitos conectados
Teoria do valor
A pergunta que move a economia desde o início: o valor de algo vem do trabalho que custou ou do desejo de quem o quer?
Joan Robinson
A inglesa (1903-1983) que reescreveu a teoria dos mercados reais: concorrência imperfeita, monopsônio e a ala pós-keynesiana. A maior ausência da história do Nobel.
David Ricardo
O inglês (1772-1823) que deu à economia seu primeiro teorema: a vantagem comparativa. Corretor milionário virado teórico, rigoroso até contra as próprias teses.
Perguntas frequentes
Por que Sraffa é importante se publicou tão pouco? +
Porque cada publicação redirecionou um campo: o artigo de 1926 abriu a concorrência imperfeita, a edição de Ricardo refundou a leitura dos clássicos, e o livro de 1960 armou a controvérsia do capital e fundou a escola neo-ricardiana. Fora da economia, foi decisivo para Gramsci e Wittgenstein.
O que o livro de 1960 demonstra? +
Que preços de produção e distribuição podem ser determinados pelas condições técnicas mais uma variável distributiva (salário ou lucro), sem utilidade nem produtividade marginal de um capital agregado, e que a relação capital-juros não é monotônica (reswitching), minando a fundação da função de produção agregada.
Fontes e referências
- Acadêmica Produção de Mercadorias por Meio de Mercadorias - Piero Sraffa (1960)
- Acadêmica The Laws of Returns under Competitive Conditions (The Economic Journal) - Piero Sraffa (1926)
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