No dia a dia
O que é, em palavras simples
Os modelos econômicos costumam tratar o futuro como uma roleta: não sabemos o resultado, mas conhecemos as chances. Paul Davidson passou a vida dizendo que isso é um erro profundo. O futuro econômico de verdade, dizia ele, não é uma roleta com probabilidades conhecidas, é uma página em branco: não dá para calcular a chance de uma tecnologia que ainda não existe, de uma crise inédita, de uma decisão que ninguém tomou ainda. Davidson chamava isso de incerteza fundamental, e dela tirava uma consequência prática: justamente porque o futuro é incerto desse jeito, as pessoas se agarram a coisas que dão segurança, como o dinheiro (que sempre se pode guardar) e os contratos (que fixam compromissos no tempo). A moeda e os contratos, nessa visão, não são detalhes: são as âncoras de quem decide no escuro.
No seu bolso
Dois tipos de futuro
Mundo ergódico
- ›O passado prevê o futuro
- ›Probabilidades conhecíveis
- ›Mais dados bastam
Mundo não ergódico (Davidson)
- ›O futuro é criado, não amostrado
- ›Incerteza fundamental
- ›Moeda e contratos como âncoras
Indo mais fundo
Como funciona
O mundo não ergódico
Davidson deu nome técnico à intuição de Keynes: o mundo econômico é não ergódico, ou seja, o passado não é uma amostra confiável do futuro, porque o futuro é criado por decisões que ainda não foram tomadas. Num mundo ergódico (o pressuposto escondido de boa parte da economia), bastaria coletar dados suficientes para conhecer as probabilidades verdadeiras; num mundo não ergódico, esses dados podem enganar, porque a estrutura muda. É a diferença entre prever o lançamento de um dado e prever a próxima invenção.
O guardião do Keynes verdadeiro
Davidson foi o principal defensor de uma leitura de Keynes que a síntese neoclássica, segundo ele, havia traído. Para a versão dos manuais, os problemas keynesianos (desemprego, crises) eram falhas temporárias de ajuste; para Davidson, eram a consequência inevitável de uma economia monetária operando sob incerteza fundamental, onde a preferência pela liquidez (a vontade de reter dinheiro) pode travar o investimento e o emprego. Fundou e dirigiu por décadas a principal revista da escola pós-keynesiana, organizando o campo.
Visão técnica
A leitura da escola Pós-keynesiana
A cruzada de Davidson foi metodológica antes de ser política, em atribuição indireta fiel à obra. Seu alvo era a axiomatização da economia em torno de probabilidades conhecidas (a hipótese ergódica e, depois, as expectativas racionais), que ele acusava de transformar a incerteza genuína de Keynes num risco calculável e, com isso, de eliminar por suposição os próprios problemas que Keynes queria explicar. A ligação com Frank Knight é direta: ambos separaram o risco mensurável da incerteza radical, mas Davidson levou a distinção ao coração da macroeconomia, mostrando que numa economia monetária a incerteza não é exceção, é a regra que dá função à moeda. A crítica de praxe vem do mainstream, que considera o conceito de não ergodicidade ou pouco operacional ou capturável por modelos de aprendizado e de incerteza de Knight já existentes; e parte da própria heterodoxia debate se Davidson não enrijeceu demais a interpretação de Keynes. Mas a crise de 2008, ao quebrar os modelos de risco calibrados no passado recente, deu razão póstuma à sua insistência: quando o futuro não repete a amostra, a engenharia financeira que assume o contrário falha justamente na hora mais cara. No grafo deste pilar, Davidson liga Keynes (a fonte) à incerteza knightiana e à moeda como refúgio.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir incerteza fundamental com risco
Ler os problemas keynesianos como falhas passageiras
Veja também
Conceitos conectados
John Maynard Keynes
O economista inglês (1883-1946) que respondeu à Grande Depressão: mercados podem travar em desemprego, e cabe à política econômica sustentar a demanda. Fundou a macroeconomia.
Moeda
O que uma sociedade aceita como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. O papel não vale nada; a confiança de que todos o aceitarão vale tudo.
Frank Knight
O americano (1885-1972) que separou o risco calculável da incerteza radical e fez do lucro o prêmio de quem decide sem mapa. Patriarca da Escola de Chicago e o maior cético dela.
Perguntas frequentes
O que é incerteza fundamental? +
A incerteza, defendida por Paul Davidson a partir de Keynes, que não pode ser reduzida a probabilidades conhecidas porque o futuro é criado por decisões ainda não tomadas. É diferente do risco mensurável: não há como calcular a chance de algo genuinamente inédito.
O que é um mundo não ergódico? +
Um mundo em que o passado não é uma amostra confiável do futuro, porque a estrutura muda com novas decisões e invenções. Davidson usava o termo para criticar modelos que supõem o contrário e, por isso, tratam a incerteza genuína como se fosse risco calculável.
Fontes e referências
- Acadêmica Money and the Real World - Paul Davidson (1972)
- Acadêmica Post Keynesian Macroeconomic Theory - Paul Davidson (1994)
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