No dia a dia
O que é, em palavras simples
Por que as empresas não inventam simplesmente o que seria mais lucrativo? Giovanni Dosi respondeu que a inovação não é uma escolha livre num cardápio infinito: ela anda por trilhos. Quando uma tecnologia se firma (o motor a combustão, o transistor), ela define um paradigma, um modo de pensar os problemas e as soluções, e a partir dali a pesquisa segue uma trajetória, melhorando aquela linha em vez de saltar para outra. É por isso que, durante décadas, os carros melhoraram o motor a combustão em vez de pular para o elétrico, mesmo quando o elétrico já existia: a indústria estava nos trilhos de um paradigma, com todo o conhecimento, os fornecedores e as fábricas organizados em torno dele. Mudar de trilho é caro, raro e arriscado, e por isso a história tecnológica tem inércia, não pula a esmo conforme os preços do dia.
No seu bolso
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01
Paradigma tecnológico
Define problemas, soluções e o que é progresso
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02
Trajetória
A inovação melhora a mesma linha
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03
Dependência da trajetória
O que se inova amanhã depende do que se aprendeu ontem
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04
Inércia tecnológica
Mudar de trilho é caro e raro
Indo mais fundo
Como funciona
Paradigmas e trajetórias tecnológicas
Num artigo influente de 1982, Dosi propôs os conceitos de paradigma tecnológico e trajetória tecnológica, em analogia com os paradigmas científicos de Thomas Kuhn. Um paradigma tecnológico define os problemas relevantes, os procedimentos para resolvê-los e o que conta como progresso. Dentro dele, a inovação avança por uma trajetória: um padrão de melhorias incrementais na mesma direção. A consequência é que a mudança técnica é cumulativa e dependente da trajetória (path dependent): o que uma empresa ou um país consegue inovar amanhã depende do que aprendeu a fazer ontem.
A economia evolucionária
Dosi é um dos principais nomes da economia evolucionária, a corrente que, na linha de Nelson e Winter, trata a economia como um processo de variação e seleção, e não como um equilíbrio. As empresas, nessa visão, não maximizam num mundo conhecido: elas operam com rotinas (modos de fazer aprendidos e repetidos) e capacidades que mudam devagar, e a concorrência seleciona quais rotinas sobrevivem. É uma economia mais parecida com a biologia (diversidade, herança, seleção) do que com a mecânica.
Visão técnica
A leitura da escola Evolucionária
Dosi construiu uma ponte entre a teoria e a evidência empírica detalhada, em atribuição indireta fiel à obra. Diretor de um instituto de pesquisa na Escola Superior Santa Ana, em Pisa, liderou estudos sobre dinâmica industrial que documentam o que a teoria evolucionária prevê: a persistência de diferenças enormes de produtividade entre empresas do mesmo setor (que o equilíbrio competitivo deveria eliminar), a importância das capacidades organizacionais e o papel do aprendizado. Seu trabalho dá base micro à ideia, cara à tradição de Kaldor e à política industrial, de que a estrutura produtiva e as capacidades acumuladas importam, e não são facilmente recriáveis por quem ficou para trás. A crítica de praxe vem do mainstream, que vê na economia evolucionária mais um conjunto rico de descrições do que uma teoria preditiva fechada, e questiona se rotinas e trajetórias podem ser formalizadas com o mesmo rigor do equilíbrio; os evolucionários respondem que a precisão falsa do equilíbrio custa caro, e que descrever bem um processo aberto vale mais que prever mal um fechado. Para o debate de desenvolvimento, a lição de Dosi reforça a de Amsden e Chang: alcançar os líderes exige construir capacidades ao longo do tempo, não apenas acertar preços. No grafo deste pilar, Dosi liga Schumpeter e Nelson e Winter à produtividade e à dinâmica industrial.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Achar que a inovação segue só o preço
Supor que capacidades se recriam fácil
Veja também
Conceitos conectados
Produtividade
Quanto se produz com os recursos disponíveis: o motor silencioso que, no longo prazo, decide se um país enriquece ou estagna.
Joseph Schumpeter
O austríaco (1883-1950) que pôs o empreendedor e a inovação no centro do capitalismo: o sistema avança destruindo o velho, e o monopólio de hoje é a inovação de ontem.
Nelson e Winter
A dupla americana que refundou Schumpeter com Darwin: firmas operam por rotinas, inovam buscando e o mercado seleciona. A bíblia evolucionária é de 1982.
Perguntas frequentes
O que é uma trajetória tecnológica? +
O padrão de melhorias incrementais que a inovação segue dentro de um paradigma tecnológico, segundo Giovanni Dosi. A mudança técnica é cumulativa e dependente da trajetória: o que se consegue inovar amanhã depende do que se aprendeu a fazer ontem, o que dá inércia à história tecnológica.
O que é economia evolucionária? +
A corrente que trata a economia como um processo de variação e seleção, e não como um equilíbrio. As empresas operam com rotinas e capacidades que mudam devagar, e a concorrência seleciona quais sobrevivem. É uma economia mais parecida com a biologia (diversidade, herança, seleção) do que com a mecânica.
Fontes e referências
- Fonte Giovanni Dosi, Scuola Superiore Sant'Anna - Sant'Anna Pisa (2026)
- Acadêmica Technological Paradigms and Technological Trajectories - Giovanni Dosi (1982)
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