No dia a dia
O que é, em palavras simples
Como um país pobre alcança os ricos sem ter inventado nada? A resposta ortodoxa manda acertar os preços: abrir a economia, deixar o mercado alocar, esperar a vantagem comparativa trabalhar. Alice Amsden passou anos dentro das empresas e dos ministérios da Coreia do Sul e voltou com a resposta oposta: a Coreia venceu errando os preços de propósito. Crédito abaixo do mercado, proteção contra importados, subsídio à exportação: tudo que o manual condena. A diferença que separou esse arranjo do fracasso (e do nosso fracasso, em particular) foi uma palavra: cobrança. Cada favor tinha contrapartida com prazo e número, quase sempre meta de exportação, e quem não entregava perdia o apoio. O mercado externo virava o juiz que o mercado interno protegido não podia ser.
No seu bolso
Proteção com e sem cobrança
Coreia (Amsden)
- ›Subsídio com meta de exportação
- ›O mercado externo como juiz
- ›Quem não entrega perde o apoio
ISI sem disciplina
- ›Proteção sem contrapartida
- ›Mercado interno cativo, sem juiz
- ›A proteção vira renda permanente
Indo mais fundo
Como funciona
Industrializar tarde é aprender
Asia's Next Giant (1989) reposiciona o problema: a Inglaterra industrializou inventando, a Alemanha e os Estados Unidos inovando; quem chega ao século 20 atrasado industrializa aprendendo tecnologia que já existe e pertence a outros. Aprender exige tempo protegido (ninguém compete com quem já desceu a curva de aprendizado), capital paciente e escala, coisas que os preços livres não financiam: o retorno do aprendizado é incerto, longo e em parte social. Por isso o estado coreano errou os preços deliberadamente: não por ignorar o manual, mas porque os preços certos respondiam a pergunta errada.
O mecanismo de controle recíproco
The Rise of "the Rest" (2001) generaliza a lição para o clube inteiro dos retardatários que deram certo: o que os distingue não é o tamanho do apoio estatal, é a reciprocidade. Subsídio contra desempenho monitorado, com a meta de exportação como padrão-ouro da cobrança, porque exportar não se finge: ou o produto convence o comprador estrangeiro, ou não convence. Onde o apoio veio sem contrapartida, a proteção virou renda e a indústria virou pensionista.
Visão técnica
A leitura da escola Estruturalista
O programa amsdeniano, em atribuição indireta fiel à obra, foi forjado no contraponto: quando o Banco Mundial publicou sua leitura do milagre asiático (1993) atribuindo o sucesso aos fundamentos e minimizando a intervenção, Amsden, ao lado de Robert Wade e depois de Ha-Joon Chang, documentou o contrário no arquivo: bancos estatais dirigindo crédito, metas de exportação contratuais, conglomerados disciplinados por desempenho. O eixo teórico é institucionalista e estruturalista: o desenvolvimento tardio é um problema de criação de capacidades, não de alocação eficiente do que já existe, e a firma nacional (o chaebol coreano, o grupo econômico) é o veículo do aprendizado, não uma distorção a remover. A lição negativa cabe ao Brasil e à América Latina, e ela a explicitou: a substituição de importações protegeu sem cobrar exportação, e a indústria cresceu sem o juiz externo, acumulando proteção e atraso na mesma estrutura. O legado prático está na política industrial do século 21: cláusulas de desempenho, avaliação e saída são o mecanismo de controle recíproco rebatizado, e o debate brasileiro sobre reindustrializar com cobrança é uma conversa com Amsden, saiba o interlocutor ou não. Professora de economia política no MIT até a morte, em 2012, ela fecha, no grafo deste pilar, o triângulo desenvolvimentista com Ha-Joon Chang (a história das escadas chutadas) e a tradição estruturalista de Prebisch.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Citar a Coreia esquecendo a cobrança
Reduzir Amsden a estatismo
Veja também
Conceitos conectados
Protecionismo
A política de proteger a produção nacional da concorrência estrangeira, com tarifas e barreiras: o eterno rival do livre comércio.
Desenvolvimento econômico
A transformação que melhora de forma duradoura a vida de uma população: mais do que crescer o PIB, é mudar a estrutura econômica e ampliar liberdades.
Ha-Joon Chang
O sul-coreano (1963-) que virou o best-seller do desenvolvimento heterodoxo: os países ricos subiram protegendo a indústria e depois chutaram a escada. O caso coreano em pessoa.
Perguntas frequentes
Quem foi Alice Amsden? +
Economista americana do MIT (1943-2012), teórica da industrialização tardia: países atrasados se desenvolvem aprendendo tecnologia alheia, o que exige proteção temporária e subsídio com contrapartida. Asia's Next Giant (1989), sobre a Coreia do Sul, é o clássico do desenvolvimentismo com cobrança.
O que significa "errar os preços de propósito"? +
A expressão de Amsden para a estratégia coreana: crédito barato, proteção e subsídio (preços deliberadamente fora do mercado) para financiar o aprendizado industrial que os preços livres não financiam. O antídoto contra o desperdício era a reciprocidade: todo favor amarrado a meta de desempenho, geralmente de exportação.
Fontes e referências
- Acadêmica Asia's Next Giant: South Korea and Late Industrialization - Alice Amsden (1989)
- Fonte Obituário: Alice Amsden, MIT News - MIT (2012)
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