No dia a dia
O que é, em palavras simples
O primeiro modelo econômico da história foi desenhado por um médico. François Quesnay, cirurgião da corte de Luís XV e médico de Madame de Pompadour, aplicou à sociedade a descoberta da circulação sanguínea: assim como o sangue circula pelo corpo, a renda circula entre as classes, e o Tableau économique (1758) traçou esse circuito em um quadro só, agricultores produzindo, proprietários gastando, artesãos transformando. Em volta do quadro nasceu a fisiocracia (governo da natureza), a primeira escola de pensamento econômico digna do nome, com uma receita que faria história: deixai fazer, porque a economia tem leis naturais e a intervenção atrapalha. Adam Smith visitou o grupo em Paris, discordou do diagnóstico e levou a receita.
No seu bolso
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01
O médico do rei
Da circulação do sangue à da renda
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02
Tableau (1758)
O primeiro modelo econômico
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03
Produto líquido
O excedente que vem da terra
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04
Smith (1776)
O laissez-faire ganha o mundo
Indo mais fundo
Como funciona
O Tableau: a economia em um quadro
A proeza técnica do Tableau é ser, dois séculos antes do vocabulário, um modelo de equilíbrio com fluxo circular: três classes (a produtiva, que cultiva; a dos proprietários, que recebe a renda da terra; a estéril, que manufatura e comercia), gastos que viram rendas alheias e voltam ao ponto de partida no período seguinte. É o ancestral direto em linha reta da matriz insumo-produto de Leontief e das contas nacionais que o nosso termo de renda nacional descreve, e Marx, dissecando o quadro um século depois, o tratou como achado de gênio da economia política nascente.
O diagnóstico e a receita
O diagnóstico fisiocrata: só a terra gera produto líquido (produit net), o excedente acima dos custos; manufatura e comércio apenas transformam, por isso a classe é estéril. A receita seguia o diagnóstico: tirar os impostos de cima do campesinato e das mil alfândegas internas que sufocavam a França, e cobrar um imposto único sobre a renda da terra, onde o excedente de fato estava. O lema da escola, deixai fazer, deixai passar, virou o nome de batismo do liberalismo econômico que o nosso dicionário cobre em termo próprio.
Visão técnica
A leitura da escola Clássica
O programa fisiocrata, em atribuição indireta fiel às fontes (o portal não localizou tradução consagrada de citação direta de Quesnay, e segue o protocolo: sem aspas inventadas): a ordem natural das sociedades tem leis tão objetivas quanto as do corpo, o soberano governa melhor quando as conhece e não as contraria (o despotismo legal dos fisiocratas, que era o oposto do arbítrio: o rei submetido à lei natural), e a riqueza das nações se mede pelo produto líquido que circula, não pelo ouro que se acumula, o golpe direto no mercantilismo que dominava a política da época. Smith registrou na Riqueza das Nações (1776) que o sistema fisiocrata, com todas as suas imperfeições, era talvez a aproximação mais próxima da verdade até então publicada em economia política, e o elogio define a posição histórica de Quesnay: o degrau imediatamente anterior à economia clássica, à qual este pilar o anexa com a ressalva de praxe (a fisiocracia é escola própria, pré-clássica, e o rótulo aqui é de linhagem, não de filiação).
O registro crítico do protocolo, em dois tempos. O que envelheceu mal: a tese da terra como única fonte de excedente caiu já com Smith (o trabalho, não a terra) e nunca mais se levantou; a defesa do imposto único renasceria heterodoxa com Henry George um século depois, sem conquistar a profissão. O que ficou: a economia como sistema interdependente representável em modelo (toda a macroeconomia desce dessa escada), o excedente como conceito organizador (que os clássicos e Marx herdaram e o nosso termo de teoria do valor percorre) e o laissez-faire como programa (que Smith universalizou além da agricultura). No grafo deste pilar, Quesnay é o ponto de partida cronológico: o pensador que vem antes de Smith na linha do tempo e na genealogia, o avô comum do liberalismo econômico e da contabilidade nacional, duas heranças que raramente se reconhecem irmãs.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Ler a classe estéril como insulto
Tratar o laissez-faire fisiocrata como anarquia de mercado
Veja também
Conceitos conectados
Renda nacional
A soma de toda a renda gerada por uma economia num período: a contrapartida do PIB pelo lado de quem recebe, com seus limites como medida de bem-estar.
Liberalismo econômico
A doutrina clássica de que a economia funciona melhor com liberdade de iniciativa e trocas, reservando ao Estado funções limitadas: justiça, segurança e obras públicas.
Adam Smith
O filósofo escocês (1723-1790) que fundou a economia moderna: em A Riqueza das Nações, mostrou a ordem que emerge quando cada um busca o próprio interesse sob concorrência.
Perguntas frequentes
Quem foi François Quesnay? +
O médico da corte francesa que fundou a fisiocracia, primeira escola de pensamento econômico, e desenhou o Tableau économique (1758), primeiro modelo de fluxo circular da renda. Sua defesa das leis naturais da economia batizou o laissez-faire que Adam Smith universalizaria.
O que é fisiocracia? +
A escola francesa do século XVIII (governo da natureza) que via na agricultura a única fonte de excedente, defendia o imposto único sobre a renda da terra e o livre comércio interno. Errou o diagnóstico da terra, mas legou o modelo econômico, o conceito de excedente e o laissez-faire.
Fontes e referências
- Acadêmica Tableau économique - François Quesnay (1758)
- Fonte François Quesnay (termo biográfico) - Econlib (2008)
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