No dia a dia
O que é, em palavras simples
Existe uma terceira via entre deixar o mercado totalmente solto e o Estado dirigir tudo? Walter Eucken dedicou a vida a desenhá-la, na Alemanha que viu de perto tanto o nazismo quanto o risco do comunismo. Sua resposta foi uma distinção elegante: o Estado deve cuidar das regras do jogo, não jogar o jogo. Ou seja, em vez de planejar a produção ou fixar preços (intervir no processo), o governo deve construir e defender uma moldura forte que garanta a concorrência: leis antimonopólio, moeda estável, contratos respeitados, propriedade segura. Dentro dessa moldura, o mercado funciona livre; sem ela, o mercado se corrompe em monopólios e privilégios. Eucken acreditava que tanto o laissez-faire quanto o planejamento central falhavam pela mesma razão: ignoravam que a concorrência precisa ser ativamente protegida, ela não se mantém sozinha.
No seu bolso
O papel do Estado, segundo Eucken
Política de ordem (deve)
- ›Definir as regras do jogo
- ›Garantir a concorrência
- ›Moeda estável, contratos, propriedade
Intervenção no processo (não deve)
- ›Fixar preços e quantidades
- ›Dirigir a produção
- ›Substituir o mercado no dia a dia
Indo mais fundo
Como funciona
Ordem econômica e política de ordem
A ideia central de Eucken, exposta em Fundamentos da Economia (1940) e nos póstumos Princípios de Política Econômica (1952), é a distinção entre a ordem econômica (as regras e instituições que enquadram a economia) e o processo econômico (as transações do dia a dia). O Estado deve agir na primeira, fazendo o que ele chamou de política de ordem (Ordnungspolitik): definir o quadro. O que não deve fazer é intervir na segunda, dirigindo preços e quantidades. A concorrência, nessa visão, é um bem que o Estado tem o dever de garantir, sobretudo combatendo o poder de monopólio, que distorce os preços e concentra poder econômico e político.
Os princípios constituintes
Eucken listou princípios para essa moldura: um sistema de preços de concorrência funcionando, estabilidade da moeda (sem inflação, que ele via como corrosiva da ordem), mercados abertos, propriedade privada, liberdade de contrato, responsabilidade (quem decide arca com as consequências) e constância da política econômica. Era, no fundo, uma constituição econômica: um conjunto de regras estáveis que dão previsibilidade e impedem que o poder, público ou privado, capture o mercado.
Visão técnica
A leitura da escola Ordoliberal
O ordoliberalismo de Eucken é a espinha dorsal intelectual da economia social de mercado alemã do pós-guerra, em atribuição indireta fiel à obra. Suas ideias, levadas à prática por Ludwig Erhard nas reformas que reconstruíram a Alemanha Ocidental, distinguem-se tanto do liberalismo clássico quanto do keynesianismo: contra o laissez-faire, afirma que a concorrência precisa ser construída e defendida pelo Estado; contra o keynesianismo, desconfia da intervenção discricionária no processo econômico, preferindo regras estáveis. Essa marca, regras fortes em vez de discrição, ecoa na política de concorrência da União Europeia, na ênfase alemã na estabilidade monetária e na desconfiança com déficits, e é uma das raízes do desenho do Banco Central Europeu. A crítica de praxe vem de dois lados: keynesianos acham o ordoliberalismo rígido demais, por subestimar a necessidade de gerir a demanda nas crises (a austeridade europeia pós-2010 foi atribuída em parte a essa herança); e liberais mais radicais o consideram intervencionista demais, por dar ao Estado o papel ativo de moldar a ordem. Eucken responderia que esse papel é justamente o que separa um mercado livre de uma selva de privilégios. No grafo deste pilar, ele é o vértice do ordoliberalismo, ligado à concorrência, às instituições e ao combate ao monopólio.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir ordoliberalismo com laissez-faire
Tomar a desconfiança do déficit como dogma universal
Veja também
Conceitos conectados
Instituições
As regras do jogo de uma sociedade, formais (leis) e informais (costumes), que moldam incentivos e ajudam a explicar por que alguns países prosperam.
Monopólio
A situação em que um único vendedor controla a oferta de um bem sem substitutos próximos, ganhando poder para impor preços acima do que a concorrência permitiria.
Concorrência
A disputa entre vendedores pelo cliente: a força que pressiona preços para baixo, melhora a qualidade e empurra a inovação, sem ninguém comandar.
Perguntas frequentes
O que é o ordoliberalismo? +
A escola fundada por Walter Eucken em Freiburg que defende uma economia de mercado com uma moldura forte de regras garantida pelo Estado: leis de concorrência, moeda estável, propriedade e contratos. O Estado cuida das regras do jogo (a ordem), mas não dirige a produção (o processo).
Qual a diferença entre ordoliberalismo e laissez-faire? +
O laissez-faire confia que o mercado se regula sozinho; o ordoliberalismo de Eucken diz que a concorrência precisa ser ativamente construída e defendida pelo Estado, sobretudo contra os monopólios. É mercado com constituição, não mercado sem regras.
Fontes e referências
- Acadêmica Princípios de Política Econômica (Grundsätze der Wirtschaftspolitik) - Walter Eucken (1952)
- Acadêmica Fundamentos da Economia Política (Die Grundlagen der Nationalökonomie) - Walter Eucken (1940)
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