No dia a dia
O que é, em palavras simples
A economia costuma contar fábricas, máquinas e dinheiro como capital, mas ignora o maior ativo de todos: a natureza. O conceito de capital natural corrige isso, tratando florestas, rios, solo fértil, peixes e clima estável como um estoque que rende serviços à economia, do mesmo jeito que uma máquina rende produção. A diferença é que esse capital não aparece na contabilidade tradicional: quando uma floresta é derrubada, o PIB até sobe (pela madeira vendida), mas o estoque que se perdeu, e que renderia para sempre, não é descontado em lugar nenhum.
No seu bolso
Indo mais fundo
Como funciona
Estoque e fluxo
Como qualquer capital, o natural é um estoque (a floresta em pé) que gera um fluxo (madeira, água, regulação do clima, turismo). Usar o fluxo de forma sustentável é viver dos juros; consumir o estoque é gastar o principal. O problema é que a economia trata recursos naturais como renda gratuita, não como patrimônio que se exaure.
Por que não está nas contas
O PIB mede produção, não patrimônio, e não desconta a depreciação do capital natural. Daí esforços de contabilidade ambiental e de "PIB verde", que tentam registrar a exaustão de recursos como um custo, assim como já se desconta a depreciação de máquinas. A ideia é tornar visível o que hoje é invisível: que parte do crescimento pode ser apenas a liquidação de um patrimônio.
Visão técnica
A leitura da escola Ecológica
Capital natural é um conceito central da economia ecológica e da economia ambiental, e o ponto onde elas divergem. A formulação trata a natureza como um dos quatro tipos de capital (ao lado do produzido, do humano e do social), o que permite levar a depreciação ambiental para dentro da análise econômica. O estudo seminal de Robert Costanza e colegas (Nature, 1997) tentou estimar o valor monetário dos serviços dos ecossistemas globais, chegando a uma cifra da ordem de dezenas de trilhões de dólares por ano, mais do que o PIB mundial da época, um exercício controverso, mas que escancarou a magnitude do que a contabilidade ignora.
A divergência aparece na pergunta da substituibilidade. Para a economia ambiental neoclássica (sustentabilidade fraca), o capital natural pode, em larga medida, ser substituído por capital produzido: degradar um recurso é aceitável se gerar tecnologia ou infraestrutura de valor equivalente. Para a economia ecológica (sustentabilidade forte), parte do capital natural é insubstituível e crítico, uma atmosfera estável ou uma espécie extinta não têm substituto fabricável, e impõe limites absolutos. Essa diferença reaparece em todo o debate verde, do desenvolvimento sustentável ao decrescimento, e é o que separa quem acredita que dá para "compensar" a destruição de quem vê nela uma perda irreversível.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir renda com liquidação de patrimônio
Achar que tudo tem substituto
Veja também
Conceitos conectados
PIB
A soma de todos os bens e serviços finais que um país produz num período: o tamanho da economia resumido em um número.
Economia ecológica
A corrente que trata a economia como subsistema da biosfera: matéria e energia são finitas, e crescer para sempre num planeta limitado é a questão, não a resposta.
Nicholas Georgescu-Roegen
O romeno-americano (1906-1994) que ligou a economia à física: toda produção consome recursos de baixa entropia e devolve calor e lixo, e por isso o crescimento eterno num planeta finito é impossível. Fundador da economia ecológica.
Herman Daly
O americano (1938-2022) que transformou a crítica ao crescimento em proposta: a economia de estado estacionário, que mantém um tamanho constante e estável dentro dos limites da biosfera, melhorando sem inchar.
Desenvolvimento sustentável
O desenvolvimento que, na definição de Brundtland, atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras, a tentativa de conciliar economia, sociedade e meio ambiente.
Perguntas frequentes
O que é capital natural? +
É a natureza vista como um estoque de ativos, florestas, água, solo, clima, biodiversidade, que rende à economia um fluxo contínuo de recursos e serviços. A ideia é tratá-la como patrimônio que se exaure, e não como renda gratuita, para que sua destruição apareça como custo.
Por que o capital natural não aparece no PIB? +
Porque o PIB mede produção, não patrimônio, e não desconta a depreciação ambiental. Derrubar uma floresta faz o PIB subir pela madeira vendida, sem registrar o estoque perdido. Esforços de contabilidade ambiental e de PIB verde tentam corrigir essa cegueira.
Fontes e referências
- Primária Natural Capital Accounting - Banco Mundial
- Acadêmica The value of the world's ecosystem services and natural capital - Robert Costanza et al. (Nature) (1997)
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