No dia a dia
O que é, em palavras simples
Você compra um título do Tesouro que promete pagar exatamente o combinado no vencimento. Semanas depois, o extrato mostra prejuízo. Calote? Não: marcação a mercado. Seu título é reavaliado todos os dias pelo preço que ele teria se fosse vendido hoje, e esse preço oscila com os juros. A regra parece maldade, mas é proteção: mostra a verdade do dia. O combinado no vencimento continua de pé; o vermelho do extrato é o preço de sair antes da hora.
No seu bolso
A gangorra de juros e preços
Juros de mercado sobem
- ›Títulos antigos valem menos hoje
- ›Extrato no vermelho sem calote
Juros de mercado caem
- ›Títulos antigos se valorizam
- ›Ganho acima da taxa contratada
Indo mais fundo
Como funciona
A gangorra dos juros
O mecanismo é uma gangorra: quando os juros de mercado sobem, os títulos antigos, que pagam as taxas de ontem, valem menos hoje (ninguém paga o preço cheio por um papel que rende menos que os novos); quando os juros caem, os títulos antigos se valorizam. Quanto mais longo o prazo do título, maior a oscilação. Por isso os papéis longos indexados ao IPCA são os que mais assustam no extrato, e os que mais premiam quando o vento vira.
Por que a regra existe
O Brasil aprendeu a lição em 2002, quando fundos que marcavam títulos "na curva" (fingindo que o preço não oscilava) quebraram a ilusão de uma vez, transferindo perdas de quem saiu cedo para quem ficou. Desde então, a marcação diária a mercado é obrigatória nos fundos e, mais recentemente, virou padrão também nos extratos de renda fixa das corretoras. O princípio: cada cotista entra e sai pelo preço justo do dia, sem subsidiar o vizinho.
Visão técnica
Visão técnica
A marcação a mercado é o princípio contábil-regulatório de avaliar ativos pelo valor justo corrente, em oposição à marcação na curva (custo amortizado pela taxa de aquisição). No Brasil, o divisor de águas foi 2002: a exigência, pelo Banco Central e pela CVM, de marcação imediata dos títulos nos fundos expôs perdas que a contabilidade na curva escondia, provocou corrida de resgates e fixou a doutrina vigente, depois consolidada pela autorregulação da ANBIMA: cotas diárias a valor justo são a única forma de equidade intertemporal entre cotistas, eliminando a transferência de riqueza de quem permanece para quem resgata com preços defasados.
Tecnicamente, a sensibilidade do preço ao juro é medida pela duration: a queda percentual aproximada do papel para cada ponto de alta na taxa, crescente com o prazo e decrescente com os cupons. Daí as consequências práticas: títulos longos de IPCA combinam duration alta com proteção inflacionária, a dupla que explica extratos dramáticos sem qualquer risco de crédito; e o investidor que carrega até o vencimento converte a volatilidade do caminho em irrelevância, recebendo a taxa contratada. As exceções regulatórias confirmam a lógica: bancos podem classificar títulos como mantidos até o vencimento (marcados na curva) quando há capacidade e intenção comprovadas de carregá-los, e a crise americana de 2023 (bancos quebrando ao vender, com prejuízo, carteiras contabilizadas na curva) reabriu o debate global sobre onde a exceção vira autoengano. No plano comportamental, a marcação diária tem custo conhecido: a aversão à perda transforma oscilação visível em decisão ruim, e o resgate no fundo do poço converte perda de tela em perda de verdade, o elo entre a regra contábil e a educação do investidor que este dicionário persegue.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Confundir oscilação com calote
Escolher prazo longo sem aceitar a viagem
Veja também
Conceitos conectados
Taxa de juros
O preço do dinheiro no tempo: o quanto se paga para tomar emprestado, ou se ganha para emprestar, ao longo de um período.
Aversão à perda
O achado de Kahneman e Tversky: a dor de perder uma quantia é psicologicamente maior que o prazer de ganhar a mesma quantia, e isso distorce nossas decisões.
Tesouro Direto
O programa que permite a qualquer pessoa comprar títulos públicos pela internet a partir de valores baixos: emprestar ao governo e receber de volta com juros.
Perguntas frequentes
Por que meu título do Tesouro está no vermelho? +
Pela marcação a mercado: o título é reavaliado diariamente pelo preço de venda do dia, que cai quando os juros sobem (e vice-versa). Não há calote: quem carrega até o vencimento recebe exatamente a taxa contratada. O vermelho é o preço de sair antes.
Por que a marcação a mercado é obrigatória? +
Por equidade: com cotas a preço justo do dia, cada investidor entra e sai pelo valor verdadeiro, sem transferir perdas ou ganhos aos demais. A crise brasileira de 2002, quando a marcação na curva escondeu perdas e quebrou a confiança nos fundos, fixou a regra.
Fontes e referências
- Corporativa Autorregulação de precificação de ativos (marcação a mercado) - ANBIMA (2002)
- Primária Tesouro Direto: precificação dos títulos - Tesouro Nacional
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