No dia a dia
O que é, em palavras simples
Uma família que gasta mais do que ganha se endivida e quebra. Logo, um governo deveria fazer o mesmo e equilibrar suas contas, certo? Abba Lerner achava que essa analogia, por mais intuitiva, estava errada, e podia ser perigosa. O governo emite a própria moeda e responde por toda a economia, coisas que uma família não faz. Então, dizia Lerner, o orçamento público não deve ser julgado por uma regra fixa (gastar só o que arrecada), e sim por seus resultados: o déficit ou o superávit certo é aquele que mantém a economia em pleno emprego sem disparar a inflação. Se falta demanda e há desemprego, o governo deve gastar mais, mesmo com déficit; se a economia ferve e a inflação ameaça, deve apertar. A regra é o efeito, não o equilíbrio contábil.
No seu bolso
Como julgar o orçamento público
Finanças sãs (analogia familiar)
- ›Regra fixa: gastar o que arrecada
- ›Déficit é sempre problema
- ›Imposto serve para arrecadar
Finanças funcionais (Lerner)
- ›Regra é o efeito sobre emprego e preços
- ›Déficit certo é o que mantém pleno emprego
- ›Imposto serve para conter demanda
Indo mais fundo
Como funciona
Finanças funcionais
Lerner batizou essa ideia de finanças funcionais, num artigo de 1943 e depois no livro The Economics of Control (1944). O nome diz tudo: as decisões de gasto, imposto e dívida do governo devem ser avaliadas pela sua função, o efeito que produzem sobre o emprego e os preços, e não por princípios herdados do orçamento doméstico. Tributar, nessa lógica, não serve principalmente para arrecadar (o governo que emite moeda não precisa do imposto para gastar), e sim para retirar demanda quando a economia está aquecida demais. É uma inversão radical da intuição comum sobre dívida e imposto.
A regra Lange-Lerner
Antes disso, Lerner havia contribuído para outro grande debate. Em paralelo a Oskar Lange, formulou a regra de que a eficiência econômica exige igualar o preço ao custo marginal, a chamada regra Lange-Lerner, peça central da teoria do socialismo de mercado e, ao mesmo tempo, da economia do bem-estar. Lerner transitava com rara liberdade entre o keynesianismo, o desenho de mercados e a teoria do controle econômico.
Visão técnica
A leitura da escola Keynesiana
A figura de Lerner é a de um keynesiano lógico ao extremo, e sua relação com o próprio Keynes ilustra isso, em atribuição indireta fiel aos registros: Lerner levava as conclusões da Teoria Geral mais longe e de forma mais crua do que o cauteloso Keynes, que chegou a recuar diante do radicalismo das finanças funcionais por temer o efeito político de dizer abertamente que o déficit não importa por si só. Essa é exatamente a razão pela qual Lerner virou referência fundadora para a Teoria Monetária Moderna (MMT) décadas depois: a tese de que um Estado soberano na sua moeda não fica sem dinheiro e deve mirar o pleno emprego, tratando a inflação (e não o déficit) como o limite real, é uma releitura direta das finanças funcionais. A crítica de praxe é forte e veio cedo: ao deslocar o foco do equilíbrio orçamentário para o efeito macroeconômico, as finanças funcionais subestimam, dizem os críticos, a dificuldade de calibrar o estímulo na hora certa, o risco de dominância fiscal e a tentação política de só usar a metade agradável da regra (gastar na recessão e nunca apertar no boom). O próprio debate atual sobre MMT reencena essa disputa. Pensador inquieto, Lerner mudou de posição várias vezes ao longo da vida e contribuiu para campos tão distintos quanto comércio internacional (a condição de Marshall-Lerner, sobre quando a desvalorização melhora a balança comercial) e teoria dos preços. No grafo deste pilar, ele liga a demanda agregada keynesiana ao socialismo de mercado de Lange e à fronteira contemporânea da MMT.
No mercado
Atenção
Mitos e erros comuns
Ler finanças funcionais como "déficit nunca importa"
Equiparar Lerner à MMT inteira
Veja também
Conceitos conectados
Demanda agregada
A soma de tudo o que a economia quer comprar num período: consumo das famílias, investimento das empresas, gasto do governo e exportações líquidas.
Socialismo
O sistema em que os meios de produção pertencem à coletividade, e não a particulares: a produção seria orientada por decisão social, não pela busca privada de lucro.
John Maynard Keynes
O economista inglês (1883-1946) que respondeu à Grande Depressão: mercados podem travar em desemprego, e cabe à política econômica sustentar a demanda. Fundou a macroeconomia.
Perguntas frequentes
O que são as finanças funcionais de Lerner? +
A ideia de que o orçamento público deve ser julgado pelos seus efeitos (manter o pleno emprego sem disparar a inflação), e não por uma regra fixa de equilíbrio. O governo deve gastar com déficit quando falta demanda e apertar quando a economia ferve; tributar serve mais para conter a demanda do que para arrecadar.
Qual a relação de Lerner com a Teoria Monetária Moderna? +
As finanças funcionais (1943) são uma raiz direta da MMT: a tese de que um Estado soberano na sua moeda não fica sem dinheiro e deve mirar o pleno emprego, tratando a inflação como o limite, retoma o argumento de Lerner. A MMT acrescenta teses próprias que seguem em debate.
Fontes e referências
- Fonte Abba P. Lerner, Concise Encyclopedia of Economics - Econlib (2008)
- Acadêmica The Economics of Control - Abba Lerner (1944)
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